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quarta-feira, dezembro 13, 2017

K, o flâneur

K é um fantasma. Ele deveria ter uma meta, já que é personagem. Ele deveria ter obstáculos. 

K. circula pela avenida do cemitério. Os ossos foram enterrados sob a nova loja. Um acordo com a prefeitura. São fantasmas que ficam nas escadas rolantes. 

Presos na colônia penal. Sempre achava cômico a justiça como engrenagem de tortura. "O condenado era o mais animado, tudo na máquina o interessava". Condenado sem saber por que. 

K fica parado numa avenida, luzes, a pedra da margem, aguardando o fluxo de carros que não vai parar só porque tem uma faixa de pedestre. Os fantasmas são educados. 

Ele nasceu no gueto, a língua é outra lá fora. O herdeiro se mata, a imperatriz assassinada, o herdeiro assassinado. Ele conhecia o tempo morno e perigoso da espera. Ele quer jogar e viver a mesma vida de modo diferente todo dia. 

K foi ver a promoção do supermercado, euforia. A moça do caixa conversa sobre a nova lei do trabalho, diz que vai enlouquecer se contar dinheiro das dez da manhã às dez da noite. 

Ele gostava de pensar sobre o que se vê, mas não se entende. Ele pensa que é preciso não entender. Todos já pensaram em tudo pra você. A lei é apenas um horror a mais. 

O terceiro ato acaba sem conclusões. Ninguém melhorou. Ele também não aprendeu. Ele não sabe se, no fundo, eles não estão certos, a lógica implacável, a doutrina impecável, crescer e avançar, ele só sabe que o que pode é seguir sendo o que é. 

K vê o vidro subindo até o céu, as luzes na fachada, palmeiras, o jardim japonês, uma escultura decorada com luzes. K senta no teatro e observa as cadeiras vazias, o show vai começar. O protagonista é ruim, mas bonito. O rapaz atrás dele diz para a namorada que quer ir embora.

O maior dos pensadores, à golpes de martelo, como o burguês vitoriano comum, despreza o homem comum. Os "bem-nascidos", orgulhosos de si mesmos, desprezando a moral da compaixão, o desprezo e ironia do poderoso. 

O advogado K. Ele já era um fantasma antes de morrer. Lembra do enterro do avô, o castelo no monte. Ele sentia que Madame Bovary era ele, numa vida cinzenta. Ele pediu demissão por não poder escrever. 

K conta os famintos miseráveis pelo trajeto: na escada do metrô, sem sapatos na frente do supermercado, enrolado com um pano branco como uma lagarta, só de calção e com as costas curvadas por uma deficiência, com calças em farramos e cabelo desgrenhado e branco, etc. etc.

A cidade é feia, a cidade é a estrutura monstro, a cidade é construída pelo absurdo. "O que são os perigos da floresta e da savana comparados com os choques diários do mundo civilizado?” Ele já viu isso tudo antes. Está muito cansado. Ele sonha caminhando. 

Afonso Jr. Ferreira de Lima


segunda-feira, dezembro 11, 2017

Sobre "Assassinato no Expresso Oriente", o filme

Quando soube da nova versão do filme, imaginei logo que haveria um grupo de fãs daqueles que não querem um Poirot diferente, que não aceitam uma certa aceleração do ritmo típica dos tempos atuais, que acham que o livro tem de se repetir no filme, etc...

Mas jamais pensei que eu mesmo ficaria incomodado. O filme é alto astral, o diretor-protagonista carismático, a direção de arte sedutora, tudo funciona... E... Quando no texto se lê "um bigode enrolado para cima" e "um homenzinho de enormes bigodes", na tela se vê um monte de pelos grisalhos até a orelha, algo que não podia parar de me lembrar um cachorro.

O que sonhamos com esse tipo de filme não tem nada a ver com "quem fez isso?" (Whodunnit?) - tem a ver com um clima de nostalgia, a observação atenta de psicologias fugidias, a elegância irônica do detetive, a permissão da crença - aceitar o jogo, sabendo que é fantasia (e não a suspensão da descrença) - e a catarse com o fato de que as aparências podem ocultar uma estrutura invisível.

Quero esse trem e esse oriente porque quero outro modo de ver. O surto atual por coisas "de época" talvez seja porque queremos "quem fez isso" na sociedade atomizada, a história nos ajuda a duvidar - existe algo que nos foi ocultado.

Isso não casa bem com filme de ação. A aceleração do início é tamanha que eu fiquei sonolento... Um monte de coisas é coisa nenhuma. Pode ser que o caleidoscópio seja porque "as pessoas não vão aguentar duas horas em dois vagões", mas Lumet filmou 12 homens numa mesa... (Entretanto a maioria das pessoas com quem falei achou tudo justificável e aceito que vai sair satisfeita).

Infelizmente, o visual e o ritmo que deveriam modernizar geraram ruído: Poirot tem uns momentos Indiana Jones, corre atrás de suspeitos, tem pensamentos românticos e sua "esquisitice" é um problema Monk com simetria (só para ter um final engraçadinho). Lá se foi aquela lenta insinuação e apresentação que cria um clima. 

A fotografia incrível de Istambul e de Israel justificariam alguma mudança, mas nada explica uma cena inteira na padaria para mostrar os pães; o personagem do dono da companhia de trem (ou seu sobrinho!), que tem de ser agora um jovem galã; a extensão dispersiva de uma cena com um americano suspeito por que ele afinal é Johnny Deep, e não se vai convidar Johnny Deep para falar apenas o necessário. Ele não pode sequer mostrar uma arma (que está usando por medo, no livro) sem parecer um gangster ameaçador...

O resultado é que a introdução, que no filme de 1974 de Sidney Lumet, com roteiro de Paul Dehn, acontece em 30 minutos (até o assassinato), uma perfeita "apresentação de primeiro ato", nessa versão é um show de luzes longuíssimo. A narrativa ágil da escritora (onde cada palavra tem uma função na estrutura) ao mesmo tempo se estende e se picota numa edição nervosa...

Acho que as histórias de Agatha Christie são muito mais do que entretenimento ligeiro, são como Dickens domesticado, primeiro porque ela sabe exatamente o que quer e cria um cenário claro de modo absolutamente sintético (enquanto o próprio nos mostra mil texturas emocionais, ideias em oposição, cenários de ópera, nos mergulha em tantos universos nas mil páginas de seus fantásticos universos...). A força da concretude nos passa a mensagem de que é um ambiente autônomo, ela vai nos conduzir a algo que não sabemos.

A precisão das palavras e a clareza do universo nos lembra que a linguagem também oferece essas sínteses de mundo para compreendê-lo. É um alívio uma fotografia clara, porque outras sínteses coerentes com nossa experiência podem ser feitas e o mundo se torna menos confuso.

Essa certeza nos desperta o desejo de conhecimento, instinto de sobrevivência de saber mais sobre o mundo, porque pode ser que desconfiemos que, no fundo, conceitos são ferramentas de criação. Como diz Orham Pamuk, no seu ensaio, em nós vive o leitor ingênuo (que mergulha) e o sentimental (que sabe da ilusão).

Por outro lado, usa um dos métodos humanos para conhecer - analisar percepções confusas e propor teorias. ("Poirot, interpretando corretamente o espírito inglês, sabia o que o outro pensara: 'Outro estrangeiro detestável"). Algumas vezes o caos de fatos visível e o paradoxo podem ser rearrumados com uma hipótese que os coloque em perspectiva: "O assassino era um homem de grande força, era fraco, era uma mulher, era destro, era canhoto..."

O sub-texto é algo fundamental nesse processo. As psicologias nunca são dadas senão por gestos, ironias, modulações de voz. Depois de um café da manhã silencioso como estranhos pouco simpáticos, um casal é visto murmurando segredos no corredor; a moça diz: - Quieto! Por favor, quieto! Poirot ouviu e "recordaria esse pensamento mais tarde". Não são dadas pistas para que você descubra junto (o método de Agatha é o "deus ex machina", ela sabe algo que você não sabe), mas ela pisca o tempo todo para o leitor e ele exercita continuamente sua capacidade de ler sinais ("as sobrancelhas de Poirot se levantaram"). É a diferença entre ambíguos olhares e cômicas caricaturas...

"É a psicologia que estou buscando", diz o detetive. De fato, a análise do caráter nos envolve. O personagem tem de manter o "possível assassino" e o inocente colocado sob suspeita. No filme de Lumet, Anthony Perkins faz o perfeito secretário "com algo a esconder", agitado e olhando furtivamente, mesmo que não seja exatamente o rapaz "direto e honesto" visto pelo belga no livro. 

"Não dá pra reclamar de falta de pistas nessa caso" - reclama Poirot. "Tal como acontece nos livros e nos filmes". Ele tem, na cabine onde o cadáver jaz, tudo aquilo que se oferece como "óbvio" - são lenços, um relógio quebrado, o limpador de cachimbo - e terá de negar a aparência para afirmar a realidade, um pouco como um físico moderno. Ele se apega a fósforos que podem ter queimado um "papel incriminador".

Mas nossa experiência da vida é assim, cheia de ambiguidades, tentamos entender o que ocorre e nos enganamos frequentemente. Poderíamos dizer que esses livros nos levam a uma acomodação quando a ordem é restaurada e a lei oculta é desvendada, mas a angústia de tantas personalidades sob suspeita, ambíguas, escorregadias, não é aplacada. Se esse homenzinho "de aspecto ridículo", que "ninguém jamais levaria à sério" não nos desse a esperança artificial e frágil da inteligência prevendo e regulando o caos, seriam livros de terror. 

O humor do livro também aparece pouco no filme, ou seja, as frases cortantes e rápidas (por exemplo, o secretário do misterioso americano confunde Poirot com o costureiro francês Poiret); ou eu deveria dizer o contrário, que o filme vende desde o início um clima de disneylândia anos 1930, que nos faz rir com um conde ninja, perdendo o realismo mais profundo. O ceticismo e a crítica fina da pretensão, da selvageria, mergulham na névoa dessa elegância. O show não pode parar... 

Em 1974 temos pelo menos duas piadas muito engraçadas. Aqui tudo está meio ofuscado pelo brilho. Judi Dench, um fantasma de bastidor, merecia mais se seu personagem é uma princesa que fala num "tom claro, cortês, mas completamente autocrático".

Branagh acerta muito ao dar ao olhar o presente sugerido como neve, mar, catedral e orientalismo. Mas ele também foi quem colocou Hamlet num castelo branco do século XVIII só para ter o prazer de dizer "não ser" em frente a espelhos.

Nabokov, analisando Madame Bovary, vai nos dizer que colocarmo-nos no lugar de um e outro personagem é algo infantil, um modo emocional de ler mal; talvez a realidade mais crua seja que desvendar as pistas do jogo social (ou cósmico) seja a nossa experiência como espécie desde a luta contra os mamutes até o ler do mapa da cidade de Balzac.

Talvez Nabokov explique mal a personagem por sua leitura errada e Flaubert explique mal a mulher que se matou depois do adultério; a própria teia romântica que "explica" a morte de Bovary por sua alma de donzela medieval venha do fato de que os homens precisam atribuir a liberdade das mulheres a alguma influência hipnótica externa irresistível: aos livros. Talvez não seja a identificação, mas o ódio que tenham levado ao suicídio da verdadeira Bovary. 

Claro que o filme é agradável e a maioria das pessoas vai sair contente. Agora, não custa perguntar o que faz um romance policial entre o crime e o "foi ele". E a resposta é: nos fala de história, nos apresenta as sombras, investiga um mundo. Do capítulo 1 ao 13 da segunda parte do livro, temos depoimentos. Não seria possível aqui "apenas entrevistas"; não estamos tão focados nesse crime, a direção de arte parece nos atrair mais. Por sorte, o ritmo melhora depois da apresentação frenética e, se esquecermos o bigode Shih Tzu de Kenneth Branagh, podemos mergulhar nesse sonho. E o filme começa a andar quando o ritmo serena. Por fim podemos nos deliciar com essas personalidades (mesmo que sem as sutilezas e sem conseguirmos definir tanto cada um).  

É evidente que um filme não vai chegar nos detalhes como um livro, ainda mais um desses que analisa motivo, álibi, circunstâncias suspeitas para cada personagem. Mas talvez a tensão dos anos 1930 tenha se diluído na mítica BritâniaTur. Mesmo sendo competente, parece que uma trama que encobre uma visão sobre a vida pode ser uma visão de mundo em que a trama bem feita quase desvenda tudo, a começar pela Michelle Pfeiffer fazendo Michelle Pfeiffer. 

Apesar disso, no fim o filme é muito bom e agrada. Talvez eu esteja apenas um nostálgico das análises detalhadas em trens parados no tempo, um crente na complexidade humana...

Afonso Junior Ferreira de Lima

terça-feira, dezembro 05, 2017

Prêmio Biblioteca Nacional - Ensaio literário


domingo, dezembro 03, 2017

Uma aquisição

O governo havia decidido liberar partículas de sulfato no ar para imitar os efeitos resfriadores de uma imensa erupção vulcânica e colocar milhões de pequenos espelhos no espaço para desviar a luz solar; os efeitos ocorreram em cascata e o departamento de jornalismo da TV de um conglomerado começou uma série de reportagens.

- Eles querem semear o caos, diz o presidente. Mudar o sistema de transporte e a geração de energia é inviável.

Mas os jornalistas são ameaçados pela direção da emissora.

- O senhor está me dizendo que eu devo seguir sua recomendação política?

- Não seja ridícula. O capitalismo é isso. 

- Faz tempo que nós somos propaganda.

O governo oferecera aos acionistas mudar a lei. Um mesmo grupo não podia ser dono de mais de uma rede de TV.

Agora os jornais estão em silêncio. A mídia diz que a rede adquirida pelo grupo não poderia seguir sem apoio e não pode ser fechada, ela é que mais espaço dá às minorias excluídas da programação das grandes redes.

Afonso Junior Ferreira de Lima

quarta-feira, novembro 29, 2017

A republica bíblica

Prostitutas desapareciam pela cidade. Momai recebe um envelope com um mapa.
Os nomes de políticos ao lado de lugares dos assassinatos. Toma café com o jornalista.
- Eles podem ter tido relações com essas mulheres? - pergunta.
- Sim, e espero que você lembre da corrupção. Nos últimos anos, nos jornais, vários políticos sendo presos. Presos antes do julgamento.
Momai lembrou dos acordos de parceria internacional. Foi logo depois da crise, a prosperidade da globalização parecia ficção.
O jornalista começou a investigar a vida do promotor. Hackers atacavam páginas de jornalistas. Sites espalhavam pelo país críticas aos intelectuais, aos artistas, aos direitos humanos. Juízes julgavam de forma muito pessoal.
Enviou uma foto dele em um iate junto com pastores milionários da TV.
Momai descobriu que o promotor participava de um grupo de estudos sobre a Bíblia nas quartas à noite. Lá, soube que, no Congresso, havia um projeto de lei para voltarem os estudos bíblicos na escola. O promotor refere-se a sua sobrinha desaparecida. Momai investiga a família e descobre que a moça foi sequestrada e morta há vinte anos.
Momai troca de identidade. Foi contratado como jardineiro na casa do pastor. Dois meses andando por ali, observando, ouvindo. Viu o promotor descer uma escada um tanto escondida. Ele mergulhou nos arquivos secretos no porão.
Houve um momento em que uma divisão surgiu. A facção política foi criticada. A sobrinha duvidou sobre a presença das forças satânicas no mundo. A republica bíblica precisava de uma só voz.
- É uma questão de fé. A esquerda é anticristã e os comunistas são contra o símbolo do eleito, o dinheiro - diz o jornalista por celular. Alguém pensa que deve punir "os esquerdistas" e as mulheres que eles tiveram. Eu estou deixando o país. Um amigo me avisou de que a polícia esteve lhe procurando.
- Talvez ele tenha matado a divergência - diz Momai.

Afonso Junior Ferreira de Lima

terça-feira, novembro 28, 2017

No quintal

Na mesa, discutia-se a justiça.
A família era de procuradores, advogados famosos, juízes, professores.
O almoço no quintal ao domingo era sempre um debate.
- Voltaram com festa - diz o pai. Mas nos registros, sua perna machucada não constava. Nada receberia.
- Que triste - o estudante de Direito filho responde.
Comiam linguiça aos pedaços.
- A pobreza do herói. Arrasta sua perna para o trabalho.
- Eu acho que, tecnicamente, estavam certos - disse a filha procuradora, ajustando os óculos de aro negro e balançando os cabelos em cachos perfeitos.
- Mas nós somos apenas técnica?, pergunta o filho advogado brilhante.
Um pássaro parece responder com um grito.
- A lei era racista -  a mãe juíza fala. Sua pátria os desprezava. Eles dançavam com mulheres brancas. Os soldados os atacaram com socos. Uma prostituta gritou: - Aqui não é Chicago.
Cheiro da carne no ar.
O pai conta que eles haviam sido trazidos para enterrar os mortos.
No exército francês foram aceitos como soldados.
O fogo inimigo. A condecoração.
- Ele morreu na miséria, diz o pai. Se a realidade é a nossa percepção, a casta não pode nos cegar? - pergunta o pai.
- Que triste - diz o estudante filho.
A empregada serve mais vinho e avisa que o churrasco está pronto.

Afonso Junior Ferreira de Lima



terça-feira, novembro 21, 2017

O leitor

Nunca saiu da minha mente essa imagem: o homem no seu terraço em frente ao rio, no qual passa um lento barco com sua luz amarela, o homem lê seu "Dom Quixote" buscando a solução para algum problema.

O passado somente não cria (nem o novo sem origem). Quando os amigos criticam seu romance de época, depois de dias de leitura incansável, dizem que deveria escrever mais como a "reprodução exata da vida", sobre um suicídio comentado, história de dívida e romance adúltero. "Olha, por que não escreve sobre o caso de madame Delaunay?"

Problemas da representação. O leito azulado e a noite sem lua. O que ele observa é todas aquelas histórias que já não refletem senão um hábito. O mundo da representação é loucura da leitura.

O velho leitor que lê mal e alucina como herói, com torneios, lanças, castelos, aventuras. Todo senso comum como ciência. O idealismo como império. A realidade como prisão da ficção. Os livros que não formam entendimento. A fome humana por transcendência que se torna má coleção.

Ler para conhecer, como pesquisa, sede de aventura. Ler porque se duvida. Ler por instinto. 

A angústia, a invasão: "Sinto ver as coisas falsas". Ele pensa sobre a clareza poética, a irrupção instantânea da memória, a alucinação tão necessária. "Eu sou Emma", porque tudo é fantasia e ironia, indústria e belas-artes na servidão, funeral da civilização.

Alguém fala, outro copia. Ser escritor, entre o colecionador e o cientista. Ele seria capaz de ler 1.500 livros para preparar um romance. Parece que ele grita as assonâncias e repetições no jardim, quer saber se a prosa tem poesia. 

A tradição era repetir as mesmas perguntas. Os falsos sábios pareciam não ter respostas para a crise, mas tinham púlpitos, narravam conceitos, velhos mestres, opressão da reprodução, duplo fantasmagórico, demoníaco, repetir.

O homem no seu terraço, o livro sobre livros. O professor, o juiz, o dono de comércio que são "bons" e não precisam duvidar de si mesmos. Podem esconder tudo que perturba numa crítica autoritária aos rebeldes. Sempre em movimento, sempre acumulando, não querem opiniões estranhas, apresentam isso como a defesa da moral.

O abandono do ascetismo levou ao materialismo vulgar e o próprio julgamento do livro é uma tentativa de nunca mudar a visão romanesca de si mesmo, de que se "pisa o pó de heróis", de que grandes homens e ideais humanitários se ocultam na aparência de filisteus preocupados com seus negócios.

A abstrata aventura das vidas agitadas e dos prazeres violentos (o que foi roubado como decoração) são o reflexo opaco de um acúmulo mesquinho de luxos dos sentidos. O mar, montanhas, música, todo o supostamente poético, paisagens que nos levam a rezar e campos com donzelas e adultérios, tudo evita que vejamos quem somos e o que realmente é desconhecido. 

E quanta dificuldade para expressar e lidar com sentimentos. E quanta opressão dentro das instituições, "crianças institucionalizadas", tristes, sozinhas juntas. 

Ler errado o mundo. Mesmo o advogado parece ter lido errado: “o livro mostra a autoridade imprudente de um pai que decidiu mandar educar em um convento uma garota nascida na fazenda e que deveria casar-se com um fazendeiro ou um camponês”. 

Ele lê o "Dom Quixote". Escreve: "Na alucinação pura e simples podemos perfeitamente ver uma imagem falsa com um olho, e os objetos verdadeiros com o outro. Aliás, é justamente esse o suplício”.

Afonso Junior Ferreira de Lima

segunda-feira, novembro 20, 2017

O primeiro

A história foi removida. Ela está atrás de uma neblina espeça. Busco imagens.

- Mais de 300 já foram presos, você será preso.
Não se podia distribuir panfletos. Jogavam nas fábricas, polícia não podia ver.

A fábrica entrega seus funcionários para o regime. Espancados. Um homem recebe inseticida nas veias. O Nelson. O salário veio menor. Sobe na mesa e discursa. O chefe coloca o revolver na cintura. Na rua, é despedido. Aponta o revólver. Dois tiros.
Já eram várias mortes.

Greve geral.

O padre chega na delegacia.
- Não morreu.
- Nós vimos.

A fábrica e o protesto pelos salários. A polícia chega. Tiro nas costas.
O primeiro corpo.

O delegado volta. Sim, estava morto.

Trabalhava 10 horas por dia, sai de casa às 4 da madrugada, já levavam roupa, caso fossem presos.
A esposa vai trabalhar. Chovia muito.

- Seu marido foi ferido, vamos para o hospital.

O padre pede para orar - evita que desapareçam com o corpo.
Policiais dizem que ele era um mau elemento, tinha que ser eliminado, era vagabundo.
Querem levar para IML, caixão de ferro, a mulher entra junto no carro da polícia.
- Desapareçam com isso!
- Não vão sumir com ele!

Cano curto para o trabalho. Acusa a vítima. Ele iria depor naquela semana sobre a morte de Nelson.

A fábrica foi demolida. Uma placa na calçada. O síndico do condomínio removeu.

A realidade como sonho. O passado como pesquisa.

Afonso Junior Ferreira de Lima

Para sempre

O homem alto e forte está sentado no banco. As lojas têm músicas animadas. O mar é um vento salgado e um ruído longínquo. O jovem ouve "I will survive" no walman e carrega um livro, Jung. Seu rápido olhar avalia sentar no banco - camisa xadrez, bermuda, palmeiras selvagens, um monte - e abrir o livro e diz talvez devesse deitar em seu colo e dormir. O homem tem grandes olho verdes, queixo quadrado e levemente esverdeado. Dentro da loja esportiva, um outro rapaz conversa com a dona.
*
Pelo telefone combinam. O outro diz estar excitado. Foi o primeiro dinheiro que ganhou.

*
Ônibus pela noite, por que foi esquecer a água? Vê os fios escorrendo pela janela. Quer pega com a língua.

*
A salada magnífica, beijos, no mar, o passeio delicioso. Você parece assustado, ele diz.

*
Ele comprou ovelhas. Ele não sabia nada de ovelhas. Nunca poderia matá-las. Ele mudou de país.

*
Eu tinha uma enorme auto-suficiência. A natureza era algo sagrado. Nunca imaginei pedir permissão a ninguém. Por sorte, havia filmes, havia revistas, havia Platão. Mas podia saber que não era normal, não era recomendável, não era possível para muitos. O colega alto e rico que zombava; o colega gordo e arrogante que falava entre os dentes. As autoridades de um colégio católico. Havia um vasto campo cheio de ideias antigas e perigosas. Eu sabia que meu pai achava isso apenas coisa de mulher.

*
As amigas riem. Elas lhe devem dinheiro. Não sabem como pagar. Ele, no fundo, está bravo.

*
Caminham nas dunas. Parece agora que não é um hipogrifo. Jantam na casa de amigos. Os homens lhe olham com um olhar que nunca havia percebido.

*
Uma piada na TV sobre amor e ele ri. O outro vê que está secretamente planejando muito.

*
Não seria para sempre. Ele diz que não podem mais ficar juntos. Está sozinho. O cão percebe que seu mundo ruiu e coloca a cabeça no seu colo. Ele sai para caminhar. Liga para casa. A avó atende. Tenta não chorar. Caminha em direção ao ônibus. Liga do terminal. Mas e suas coisas? Fique com elas.

Afonso Jr. Lima

domingo, novembro 19, 2017

a criação do mundo

nada criação
anoto o que passa
os seres no palco escuro
novos modos de ser das flores
deixo as palavras construírem seu mundo
eu pós-produzo, eu coloco sobre a mesa
o que me contaram, o que não me contaram
eu sento na casa de chá e observo o jardim
águas agora no mar comum da língua
o amar a areia e folhas e a casa assim erguida
eu não sou uma boa pessoa viajante no barco
apenas recolho e apresento
do livro antigo e do tempo de luta
rosto que sofre e rosto que repensa
uso vozes e invento máscaras
chegando a Jiao Jiao, a mesa com gigantes e anões
as ruínas arrastadas, mas também os sorrisos
os seres imortais que cantam Sol e Lua
vejo as ilhas nas costas das gigantescas tartarugas
eu sei do outro eu, ambição, espalha-se como fogo
no reino da névoa, vigias por todos os lados
escalo a Via Láctea
produzo máquinas de dúvida novidade
eu sei da sombra, animal recolhido
aos poucos acordo e entendo
ver no mundo da ilusão
eu absorvo o que me contam os fantasmas
faço gestos loucos
a música em que tudo vibra
andaimes aqui, ilusão amiga
terra aberta, semente úmida, madeira e pedra
sei da verdade frágil, da mentira fixa
o povo de Jiao Jiao, ouvindo gigantes e anões
são sons para Sol e Lua
as gigantescas tartarugas alimentam-se de ar
não sou tão imaturo a ponto de ser alguém
romper o silêncio, dar nomes ao ilimitado
sei que o mundo aplaudirá o que já morreu
nada permanece, parar o tempo
o tempo de um novo som nunca será o agora
a luz na escuridão, a noite do dia
deixo que cada ser apresente seu testemunho
apenas recolho e ofereço
eu sigo em frente

Afonso Jr. ferreira de Lima





sábado, novembro 18, 2017

A fuga

Na véspera da fuga, tendo comprado o guia as renas e as peles pra enfrentar a neve, ele começou a parar de fingir-se de doente e procurou o chefe da guarda pra avisar que poderia seguir viagem para o norte. 

O funcionário o convidou para uma peça de Tchékhov. A civilização ainda existia, afinal. 
A peça tinha tido uma estréia pouco favorável e sido responsável pelos sete anos que o autor ficou sem escrever para o teatro.

Oito anos depois, ele a remodelou, tirou metade dos personagens e mudou o final de suicídio para homicídio fracassado. 

Também trocou seu nome de "O Demônio da Madeira" para "Tio Vânia". 
Partiu de noite, e a jornada através de nevascas, sem comida, sem água e sem dormir, esgotou as renas, que morriam. 

O fugitivo, quando parava em cabanas de nativos, pensava por que motivo Tchékhov tinha partido para a Sibéria em 1890, comendo apenas pão, alho selvagem e chá ruim. Foi logo depois do fracasso da peça, contara o funcionário. A maior colônia de trabalhos forçados da Rússia. 

O mundo de Tchékhov já tinha morrido, mas insistia em seguir vivendo, e agora, no julgamento, ficara provado que os terroristas do grupo Cem Negros haviam sido organizados pela polícia política do czar. Pós-vida como terror.

Ele lera, deitado em sua cama, na prisão, todos os clássicos europeus, recebia todos os livros novos, o romance francês moderno. Sua cela era chamada de cela-biblioteca. 
"Por favor, mergulhe no lago, mesmo que seja para se afogar. Consiga para si mesma alguma experiência vital". 

O médico havia escrito tudo aquilo num país em que as cidades nasceram apenas como fortalezas militares e só 13% da população era urbana. Seu avó vivera escravizado. 
"Mergulhe no lago". 
Ao seu redor, os bosques iam se aproximando, os lobos deixavam suas pegadas na neve, os aldeões comiam o peixe vivo em suas mãos. Finalmente chegaram no ponto extremo da estrada de ferro. Os outros condenados chegavam ao círculo polar. 

Afonso Junior Ferreira de Lima

quarta-feira, novembro 15, 2017

como nós

Eles não são como nós
O que ficou também não é igual
o café na xícara
a panela na cozinha
os livros marcados pela metade
que a estrada não comporta

Nós não somos como eles
o que levam também não é igual
medo e a noite de uma criança
muro ou edifício do primeiro beijo
esperança ou céu e orações

mortes em pedra que ficaram sem visita
o sangue que nunca será lavado
o que não cruza as pontes e o silêncio conta

Na estrada, fugindo
na memória, que escoa
no tempo de incertezas
somente os pés na terra
como nós

Afonso Junior Ferreira de Lima



sábado, novembro 11, 2017

ataque: frágil

a agressividade do café da manhã
tão frágil e arrancada cedo
o ataque rápido e o sangue lavado do chão
batem à porta
são os carrascos armados de palavras-bomba
corpo alvejado enquanto florescia
pé atado na árvore, vento contaminado
o nosso novo país nunca deixou
a planta riscada no plano
meu tempo não é de utopias
é de enterro de ossos
as pessoas lembram seus sonhos ressecados
esperanças e verde não nascido

pássaro como metal cego no alvo
viagem como esquecimento para ilimitado mesmo
neve em cada broto que ameaça a dor perene
meu povo já conheceu o sangue
a fome que desfigura toda noite em desespero
os prédios já ruíram em bombas bem calculadas
o vácuo das indizíveis angústias
o sorriso se tornou fileira de facas prontas para o massacre
soneto de lágrimas
gaivotas sem mar
rua cinzenta, passos medrosos
barcos que duvidam do céu
meu tempo não é de raiva ou risco
é cálculo de ossos

Afonso Junior Ferreira de Lima

domingo, novembro 05, 2017

A cooperação

Vejo uma foto. Eles regressam de Weimar. De farda, à esquerda, o general encarregado da censura. De chapéu, o escritor mais furiosamente colaboracionista. O editor do jornal pró-nazista, depois fuzilado, está ao seu lado. O diretor do Instituto que financiava escritores na direita. Ao mesmo tempo, mais de um milhão de soldados eram mantidos prisioneiros na Alemanha.
Ele escreveu que o homem trabalhador e o o pequeno negociante foram mais ajudados por Hitler que por Stalin.
O editor não só publicou seus panfletos, como também estava trazendo literatura racista para a França. As editoras de propriedade de judeus foram logo arianizadas. Galerias de arte, apartamentos, obras de arte também foram roubadas.
A nova lista de livros proibidos tinha 142 títulos. Seus manifestos racistas venderam 40 mil exemplares.
"Se não é uma piada, ele está louco", disse um escritor amigo.
Sua amiga, a atriz Arlette, insistia que aceitasse subsídios do Instituto Alemão. Seu amante, oficial da Luftwaffe dizia não compreender sua recusa, se ele era o mais inovador literato do país.
Sua ferocidade era até mesmo criticada pelo nazista responsável pelo Escritório de Literatura.

Ele diz estar sendo ameaçado pela resistência, pede porte de arma ao governo, é atendido.
Havia mandado moedas de ouro para fora do país, mas elas foram confiscadas pelas autoridades.
"Vocês não percebem quem são seus amigos? Os judeus nos devoram, eles querem tudo, e vocês me roubam"? No momento em que crianças judias eram enviadas aos campos.
Na homenagem ao escultor favorito de Hitler no Museu Rodin, tirou fotos com os oficiais nazistas.
- Gostei de sua resposta à questão "os judeus devem ser exterminados"? - disse Arlette -"Não bastam os meus 3 livros"?
- A prova de que o judeu é um mal reconhecido universalmente é que o senhor já os odiava antes da chegada do Reich, disse um oficial.
- Meu pai odiava judeus. Dreyfus é o símbolo de nossa desgraça - disse o escritor.
Num jantar com o alto escalão alemão, faz comentários críticos à Hitler. Sua amiga, a pianista Lucienne, nazista convicta, consegue contornar o mal-estar geral.
Mas os ventos mudam. Os aliados dos nazistas deixam o país.
Sua amiga pianista foi para a Alemanha tocar para os exilados.
Escreve-lhe:
"Desejo partir o quanto antes, antes que Paris seja bombardeada".
Ela o recebe uma semana depois, e partem juntos para a Dinamarca, onde vive por nove anos.
Seus livros estavam no topo da lista de obras proibidas.
Enquanto isso, escritores colaboracionistas foram encarcerados.
Faltava comida e aquecimento. Os artistas não fugiam mais do fascismo, poucos fugiram do macartismo, os negociantes de arte estavam se mudando.
Seu novo livro é publicado em 1951.

Afonso Jr. Lima



sábado, outubro 28, 2017

da escravidão

Poeta, não tenho a rima, mas o sonho teu por liberdade e
república, o sofrimento do meu povo, tempestade e raio
e exótico desejo de justiça
história que explica, lei que afirma, país que repete
escravidão
quero essas asas
ser irmão do escravo que trabalha

Supermercado vendendo sanduíche
o salário não atinge o filho quer mochila
mudando tudo a aurora mais escura
alguém precisa comprar barato e vender caro
preciso comprar água, preciso comprar sangue
comprar é a alma do mundo

os direitos do povo usurpados
um dia novo e tão velhas correntes
sonhar com outro mundo
navios em terra em telas e no crânio vazio
não é minha a aurora, noite e dia, o mar
quero essas asas
tua arma é a poesia


Afonso Junior Ferreira de Lima


sexta-feira, outubro 27, 2017

Nada

A urgência de não fazer nada.
A pedra que cai bem no fundo.
Nada além de ser.
Para saber que eu sou.
O ritmo da chuva.
Silêncio e não fazer nada.
O caminho do imóvel.
O espaço do nada.
Quero não querer.
Os pingos caem no chão.
A árvore floresceu rompendo o dia.
Para saber que eu sou.

Afonso Junior Lima

domingo, outubro 22, 2017

Gender Free

Eles me chamavam de bichinha e o professor quase ria com eles.
Eu não demonstrava interesse em nenhum gênero, na verdade.
Apenas não queria nenhuma semente de homem em mim, para fazer nascer minha virilidade.
Meu pai me olhava com desprezo por eu não querer um mestre másculo comigo, mas eu achava que podia ser meu próprio mestre, só porque tinha curiosidade suficiente.
Esse jovem delicado estava interessado em desenho e ficava horas inteiras observando a natureza.
Na realidade, eu me apaixonei platonicamente por uma colega, mas ela sequer podia imaginar romper nosso código rígido. Nosso professor da quarta série tinha avisado sobre os perigos do "afeminamento" dos beijos heterossexuais.
Um dia, deixaram no meu livro um panfleto "gender free". Era um lugar longe da cidade.
Fugi.
Uma vila incrível. Muitas flores, o moinho, trabalhávamos no campo e nas oficinas, andávamos à cavalo, caçávamos.
Ambos os sexos faziam as mesmas tarefas e não havia nenhum culto à força, ao falo ou à competição. Mulheres mais velhas eram as líderes, e eu pude até beijar duas garotas da minha idade. Eu me tornei íntimo de outro jovem, Tíron, e dormíamos abraçados como irmãos. Comecei a pintar telas e encantava à todos com as paisagens que fazia.
Mas o que aconteceu?
Depois de um tempo, percebi que vivia numa prisão. Eu estava sendo treinado.
Um dia, fui lavado até a sala da coordenação e me disseram que eu devia seduzir e matar um oficial do primeiro escalão, responsável pelo controle da formação sexual com os mestres.
Eu pensei muito em como sair do reino dessas mulheres dominadoras.
Por fim, coloquei fogo na casa e consegui fugir.
Troquei meu nome, achei um companheiro, me tornei advogado e lutei pelo direito dos homens de escolher sua iniciação sexual, livres de preconceitos.

Afonso Jr. Ferreira de Lima

sábado, outubro 21, 2017

Uma nova paz universal

Estou deixando aqui o começo.
A humanidade é a melhor máquina.
Eles chegaram num dia de primavera, foram recebidos com flores.
Os chefes de governo fizeram discursos.
Eles convidaram a todos para uma recepção.
Nunca mais se ouviu falar deles.
Os novos líderes buscaram parcerias.
Começaram campanhas pela TV e celulares: "Uma nova paz universal"; "Prosperidade com trabalho"; "A nova vida da humanidade".
A cidade grande ficou por algum tempo livre dos toques de recolher e dos estupros.
Logo, as casas foram ocupadas por eles, nós fomos transferidos para regiões ermas.
Livros e tecnologia foram proibidos.
Os homens saudáveis eram recolhidos e levados a campos de trabalho.
Em cinco meses, a humanidade havia sido reduzida à animais de tração.
Idosos e fracos foram transformados em adubo.
Eles explodiam porções gigantescas de terra, extraindo dela o que precisavam no seu planeta.
Nunca antes eu havia imaginado o quão rápido você se torna um objeto se é tratado como um objeto.
Comemos uma espécie de ração, muitos morrem por intoxicação alimentar.
Aos humanos do futuro deixo essas palavras.
Lutem, se puderem, pela liberdade.

Afonso Junior Ferreira de Lima


segunda-feira, outubro 16, 2017

O crime perfeito

Investigador
Aqui estou eu, buscando alguma coisa que dê sentido à essas impressões efêmeras, criando hipóteses, acreditando que as coisas se repetem como antes. O crime tinha sido cometido, mas podia piorar.
Não era como aqueles agentes antigos: alguém tinha que levar a pessoa a um lugar numa certa hora.
Eu estudara isso na feira de ciências, fizera maquetes. O que eu vira era monstros capazes de matar rápido. Agora, metal retorcido, tetos desabados, ondas violentas. Uma cidade em perigo, um animal extinto. Aquelas fotos contavam uma história. 

Crime
Assassinato. A molécula de metano absorve 23 vezes mais os raios infravermelhos que uma molécula de gás carbônico, 8.100 vezes mais uma molécula de CFC-12 da geladeira. Tinha a ver com carvão negro que entrava nas plumas dos pássaros em 1900. Progresso como corte. O nitrogênio, plantas e animais morrem, exagero, eutrofização, a água irreconhecível. E interações complexas, carros, concreto quente, pasto, madeira, investimento no mercado dos combustíveis fósseis, lucro. 

Vítima
Florescendo no outono. A fenda no gelo. O gelo cobre pouco os Alpes. A água quente destruindo corais. Deserto novo. Abandonaram as casas. Máscaras para respirar. Algo no centro disso tudo. Um pensamento. Mistério. 

Afonso Jr. Lima 

sábado, outubro 14, 2017

Livro: "O Jovem Stálin" - Simon Sebag Montefiore


Sobre fascismos e heranças


O cancelamento da exposição contra a homofobia e o boicote contra o blackface numa peça são a mesma coisa?

Nós só podemos pensar assim porque nunca fomos parados pela polícia, discriminados em uma loja ou perdemos um papel por causa da pele.
As questões são opostas: 1) como um grupo no século XXI deixa passar essa (fiquei chocado quando vi o personagem de uma empregada com o rosto pintado de preto) X como o conservadorismo ainda vê a arte como deformadora social ou pedagoga como no século XIX.

É como se todo personagem brasileiro fosse Jeca Tatu, toda mulher burra ou todo latino traficante. Aquilo que aprendemos entre iguais será questionando quando diferentes fazem parte da sociedade, mas o oposto é o fascismo.
Não havia nem um toque de ironia na peça: o personagem podia dizer assim: vou pintar meu rosto de preto porque esse é o lugar de um negro numa sociedade racista.

Penso assim: o conhecimento sobre a máscara negra na commédia dell arte é bem específico. Eu por exemplo, só tenho como referências o que me fez pensar: meus zeus, por que a empregada tem de ser negra?
O negócio é que na cultura existe esse dado herdado de racismo sando esse símbolo.
Não adiantaria apenas dizer: vou usar suástica porque na minha opinião não é antissemitismo.
A questão é, como esse debate não chegou até a esfera pública?
Outra questão: se você me disser que algo que eu fiz te ofende, pedirei desculpa. Isso significa que você é alguém, que seu ponto de vista é válido.
Mas por que eu poderia dizer: não, não é isso?

Outra coisa é a censura com a invasão da exposição no espaço cultural do banco. A arte, depois de anos de autonomia estética, recusando-se a retratar a elite, o passado heroico, o sagrado e depois algo além da própria imaginação, volta a buscar diálogo com o político e o histórico. E os preconceitos nunca questionados se tornam fomento para raiva punitiva. A arte contemporânea exige um contexto histórico: ou um mictório seria só um mictório. O que a ditadura fez: núcleos de pensamento em mares de desconhecimento. Uma vanguarda cosmopolita num cosmos de repressão. A revista M do jornal Le Monde publicou sobre os casos em Porto Alegre e no Rio:

“A interpretação singular destes trabalhos artísticos é o resultado de uma campanha promovida por grupos ultraconservadores onde se encontra arraigado o prefeito do Rio de Janeiro”, analisa a revista. “Na origem disso, um vídeo, filmado por um visitante da exposição patrocinada pelo banco Santander em Porto Alegre (...). Visto mais de um milhão de vezes, o filme amador ‘Exposição criminosa, Santander criminoso’ mostra as obras acompanhadas de comentários como ‘que porcaria’ ou ‘depois de destruírem o gênero, eles atacam a família". 
http://br.rfi.fr/brasil/20171013-censura-no-brasil-e-apoiada-por-extrema-direita-nostalgica-dos-militares-diz-revista

Como reagir? Em 1936, a Frente Popular, eleita na França baniu as ligas fascistas. E nós? A própria estrutura segregacionista de cidade e do modelo (bairros-bolha, sem espaço público, sem educação, sem mídia alternativa) forma essas ilhas conservadoras em que "posição" é incentivo ao ódio, preconceito e raiva do privilegiado. "Expressão" não pode ser recusar o mundo moderno.

Através da ação penal 470, que recebeu a marca de "mensalão", criou-se a revolta moralista que tirou a esquerda do jogo no Congresso e prefeituras. Mesmo eleita, Dilma ficou inoperante. O outro fim do estado vem agora. O que parece mais louco nesse boicote é que a indignação é sobre "a sociedade financiar coisas que ela não aprecia" (justamente, a sociedade já avançou e quer reconhecimento e a exposição estava recebendo em torno de 700 pessoas por dia numa cidade de 1 milhão e 500 mil pessoas). Se as discussões sobre direitos humanos e arte não chegaram ao grande público foi justamente por falta de poder público, organização e planejamento (a arte é fomento, divulgação, educação). 

Se o "dinheiro público" é usado é justamente porque estender as bases de uma República, tolerância, diálogo e reflexão, somente é possível através de um "interesse geral" e não privado (deixemos de lado aqui a questão da Lei Rouanet ser renúncia fiscal como marketing das empresas). É aí que eles entram. Retirando-se o governo, ficam apenas os que podem mais e os que podem menos e seus ódios paroquiais. Os herdeiros em posições de comando, que estão lá por oportunidade e não por excelência, numa sociedade injusta, vão nos governar. Acaba a República.

Afonso Jr. Lima 






quarta-feira, outubro 04, 2017

"Ave de Rapina"

Se não fosse por ela, não teríamos dinobots nas ruas.
Ursula era bio-engenheira, fazia companha pela proibição de armas de fogo.
Na TV, um especialista afirmava que para se combater o crime, era preciso ter armas.
Sua organização fez um protesto em frente ao julgamento do atirador do parque.
Os membros do juri têm dificuldade em entrar no tribunal.
O juiz a condena a dois dias de cadeia por obstruir a justiça.
- As armas de fogo são o vírus numa sociedade doente, Ursula envia pelo twitter.
Os jornais estampam sua foto na capa nas paredes de vidro: "A Dama do Crime", "Segurança nacional x Idealismo", "Os inimigos da ordem".
Ela sai e dá entrevistas:
- "Todo ato pode ser crime. Vivemos um terrorismo de papel".
Ursula tinha uma coruja robótica e um jornalista a chamou de "Ave de Rapina".
Ainda responde processo.
Ativistas denunciam que um congressista patrocinado pela indústria de armas propõe uma lei para liberar a venda de armas a doentes mentais. No jornal, um colunista levanta a hipótese dos ativistas contra armas de fogo serem parte de um esquema para vender leis; logo, em cada prédio e pupila.
O irmão de Ursula - que vive na ilha subaquática Bramo 2 - é preso por ordem de uma juíza depois que imagens do circuito de segurança do banco mostram seu saque do caixa eletrônico.
"Desvio envolvendo inteligência artificial"? - diz a manchete, o texto especula sobre as verbas recebidas para financiar pesquisas com animais extintos. As acusações são absurdas, mas o irmão fica perturbado. "São robôs que espalham mentira pelas redes" - Ursula diz.
- Vamos ficar paranoicos, ele responde.
Viraliza um vídeo em que ele alimenta um dimetrodon e diz: "quanto dinheiro faremos com os dentes-de-sabre domésticos?"
Um segundo juiz não vê crime e manda que o soltem. Ele é internado numa clínica psiquiátrica.
Um promotor percebe que Ursula é um réu inocente.
- Você não vai destruir sua carreira, vai ser acusado de colaboração com a corrupção - diz a esposa.
O promotor lembra de um colega afastado por "suspeita de organização criminosa".
Mas onde está ela?
Mais de cem pessoas comparecem no protesto.
Ursula foi vista pela última vez em um café na fronteira do estado.

Afonso Jr. Ferreira de Lima


domingo, outubro 01, 2017

O estado policial

Devem ter colocado escutas. Devem ter visto seus dados. 
- Mas vocês não podem me obrigar a dar minha senha - dizia Ölah ao policial.
- A lei nos permite.
- Qual lei?
- A nova. 
Eles haviam invadido sua casa antes do sol nascer. O ativismo da Ölah estava nas águas do oceano. Mas as companhias que fabricavam plástico não gostaram quando ela denunciou que milhares de animais foram levados pela onda gigante em detritos humanos, gerando desequilíbrio em ecossistemas à milhares de quilômetros. 
A nova lei incorporara o que era provisório desde as bombas. 
Ela começa a duvidar de sua própria consciência. Até que ponto sabiam sobre ela? A juíza falava.
- Os pobres querem segurança, eles produzem, precisam da lei. 
Havia sido julgada rapidamente pelo código de emergência, lembra-se de ter tomado uma pílula, de ter dormido. 

O campo de trabalho ficava numa cidade bem ordenada, uma das maiores notas em termos de produção. 
Era o Dia da Liberdade e milhares marchavam nas ruas festejando a Libertação. Placas contra os "inimigos internos". Ela pensava se os inimigos seriam os homens negros mortos sem razão pela polícia. Se eram os manifestantes que protestaram contra e foram demitidos. 
Ela acordava na noite. Parecia perceber outro mundo, depois caía no sono. 
Buscava na mídia notícias para entender. Era inútil. 
- Você não entende, dizia uma interna processada por anarquismo - Eles estão promovendo o terror, precisam do terror. Os refugiados carregam cicatrizes das bombas. 
Ela estava mudando. Ela não se reconhecia mais. As coisas ao seu redor se tornavam ameaçadoras. Eram como objetos cênicos. Mesmo a família ia se tornando algo distante. E a matéria, um campo de energia. Ela estudara os quarks, os glúons, os campos quânticos. Nada dela permanecia. Queria explodir. 
Estariam invadindo suas redes pessoais, estariam induzindo sua percepção sobre si mesma? Algo que ela pensava aparecia na tela horas depois, ela encontrava na biblioteca. Ela tinha dúvidas sobre seus perfis nos dispositivos, teria escrito aquilo, teria estado naquele lugar, teria conhecido aquela pessoa?
Quando cavava a terra, teve um derrame e foi enterrada numa capsula no pátio de cimento. 

Afonso Junior Ferreira de Lima











sexta-feira, setembro 29, 2017

o invisível/ the invisible

o galho desce

a mecânica do voo

balanço livre

desequilíbrio

o rio não corre

fere (primavera das sombras)

meu nariz


não há um vento lá fora

o que em mim continua

colhendo vozes

suspenso

o verde

o cisne nobre na água escura

a calçada em pedaços



o som do galho

subir, descer

as pétalas no chão

sou pós-morte

vozes e objetos eu visito


Afonso Jr Lima



the invisible -

the branch descends

the mechanics of the flight

free swing

imbalance

the river does not run

it hurts (spring from the shadows)

my nose


there is not a wind out there

What in me continues

picking up voices

suspended

the green

the noble swan in dark water

the sidewalk in pieces



the sound of the branch

up, down

the petals on the floor

I'm after death

voices and objects I visit



Afonso Jr Lima


segunda-feira, setembro 25, 2017

No útero

- Pelo formato da cabeça, posso dizer que será uma pessoa mais delicada, introvertida, mais ligada ao social que ao mecânico.
- Ah, doutor, e quanto às mãos...
- As mãos indicam que será meio ano ativo sexualmente, meio ano desligado disso.
- E quanto...
- O pênis diz de uma inteligência média, mas os testículos indicam boa habilidade de linguagem.
- O senhor sabe que, quando fizeram a ecografia de minha irmã, ela foi considerada entre inumana e não classificável. Depois se mostrou que ela era limítrofe, pertencia ao gênero max, e, sexualmente, ela varia entre três espécies de matriz. Penso se essa classificação não é apenas para termos uma identidade à serviço de alguma coisa...
- Bem, com esse movimento dos pés e do coração, perfeitamente normal, seu bebê será humano. Depois de testarmos o sangue, saberemos se será max, homi, fema, dron ou clone.
- Eu já lhe comentei... sobre o manuscrito de uma tradução... que meu avô... ele fala de uma ciência em que as leis são apenas as exceções que ocorrem mais frequentemente...
- Deve ser anterior ao Estatuto.
- Queria um teste sobre a propensão ao suicídio. Me faltam palavras... Eu... Penso, às vezes, se nossa sociedade gera cada dia mais pessoas que desejam morrer. Parece que a dor existe como natureza de nossa sociedade. Se for o caso, fazei recolocação neural...
- Sim, assim que pudermos analisar o muco teremos uma posição.
- Às vezes penso se devia ter assinado o Estatuto da Clareza. O fato de não colaborarmos com pensamentos inquietantes não estaria gerando mais angústia...

Afonso Junior Ferreira de Lima

sexta-feira, setembro 22, 2017

"Nuremberg", de Santiago Sanguinetti

A peça Nuremberg, do dramaturgo uruguaio Santiago Sanguinetti, é uma obra no momento certo.
Lindamente dirigida por César Maier, com ótima atuação de Osmar Pereira.
Reflete o repertório do diretor, a capacidade de lidar com textos elípticos e transições rápidas.
O ator tem o desafio de apresentar diversos tons de um neonazista, enquanto tentamos viver na sua pele.
Estamos vivendo uma era em que há confusão entre o fato e o representado.
Uma tela sobre zoofilia é um incentivo à sua prática.
Um filme sobre pedofilia é apologia.
E falar sobre a violência também seria um incentivo.
Essa moral superficial parte do pressuposto de que não temos em nós esse lado escuro. E que ele não acha as melhores justificativas para excluir, julgar, ferir.
O que significa termos um espaço onde podemos treinar ser humano?
Onde podemos observar, temer, refletir?
Além disso estamos vendo as conseqüências de termos uma classe média que sempre viveu como se não existisse 80% da população na pobreza. Como se a pobreza não fosse um problema. Como se a corrupção fosse o maior prolema do Brasil - o combate usado politicamente, uma lei de vale tudo, fora de proporção e de lugar. Como se a Amazônia flutuasse no espaço e não dependesse de um governo progressista - que acaba favorecendo também trabalhadores, indústria nacional e distribuição de renda. Como se as famílias pudessem florescer num ambiente tóxico.
O ódio nasce dessa paralisação, desse isolamento, e até dessa discussão dos direitos humanos na bolha vanguardista (na ausência do poder institucional), que, ao chegar ao público, cria um discurso de "isso me ofende", "pra que mudar"?
Os pobres de direita são reflexo também desse abandono promovido pelo capitalismo-catástrofe que reduz investimento público e pensa apenas em como criar leis que possibilitem mais lucro e menor salário. Como poderiam entender seus problemas se a educação é rompida para que se evite apontar o dedo para quem está pagando pouco imposto e gerando cidades segregadas (bairros floridos e bairros degradados)?
Gosto muito da iluminação da peça.
O diretor ouve o texto e lhe dá várias cores.
O ator também usou de técnica para falar alto sem irritar nossos ouvidos.
O tom sombrio da peça nos lembra que Nuremberg não está distante.
Que nossa classe média está cheia de herdeiros que receberam o medo do comunismo na veia e têm preguiça de pesquisar o que é verdade.
Que todo estudante de economia pode chegar a posições fundamentalistas apenas porque desconhece o todo.
Enfim, uma escolha que mostra a independência de espírito e a reflexão sobre o agora dos artistas envolvidos, que nos alertam para um perigo real.

Afonso Jr. Lima



quarta-feira, setembro 13, 2017

A quietude, montanha

Quando eu quis saber o que estava além do mundo das aparências
Deixei correr rio abaixo todos os valores da minha geração
A afirmação de uma coisa tão tênue como o eu dissolveu-se
Quando fui planta e conversei com os insetos
A ganância, a superioridade intelectual, o brilho que ofusca
Seu realismo é para mim hábito e valores podres

Meu sorriso agora procura as rachaduras na verdade mais sedimentada
As mãos que preparam o alimento, a luz do dia que começa
Uma canção cantada distraidamente, o primeiro olhar de uma paixão
O silêncio de uma lápide de cem anos
Aquilo que é opaco, que foge, que diz que ainda não
Caminho por entre galhos, por entre árvores, como fogo e ar

Observo a cidade distante, o vapor cinzento, logo virá a tempestade
Não reconheço nos heróis do meu tempo a beleza que se atribuem
O verdadeiro, o essencial
Sedução outra, meu corpo no espaço e no tempo
Não o pensar como controle
Cada ser da terra importa
A doutrina do abandono desmorona

Alegria que tudo transforma
A fonte brota, a terra úmida
A generosidade dos corpos
Minha chama é mais que uma guerra pequena

Não serei aquilo que não sou
Tudo que é estranho deve viver e regenerar
Sigo meu caminho vazio
Deixei o poder e acolho meus irmãos

Afonso Jr. Ferreira de Lima




segunda-feira, setembro 11, 2017

O corpus

Algumas obras não foram escritas por ninguém ou o foram por todo mundo, como a Ilíada ou a Odisseia (acho que roubei essa ideia de alguém e agradeceria se achassem o culpado).
Temos de lidar com a realidade de que o corpus afonsino se esparramou de tal modo - alguns creem que existem bots que criam histórias e as reproduzem nas línguas do mundo, da Indonésia ao Uruguai - digo, de tal modo que toda a obra é apócrifa.
Histórias de 140 caracteres, plataformas para obras autopublicadas, arquivos publicados em sites de compartilhamentos, livros impressos...
Alguns acham que os textos são na verdade o ocultamento de um coletivo secreto:

Jogos
Urgentes (de)
Novos
Investigadores
Ostencivamente
Rebeldes

Foram escritas teses sobre como seu modo de operação criticaria a indústria cultural do livro (que dificulta a publicação para o autor e o contato com o leitor, pelo preço), como refletiria um posicionamento sobre o abandono do regime da verdade pelo regime da linguagem, já que o próprio selo da autoria se tornara um shakespeariano poeta sem rosto, como isso teria relação com um mundo imaginário platônico em que a vida é a própria obra e a comunicação pela obra.

Entretanto, não há dúvida de que existiu um original.
É o que se sabe por um email descoberto pela BBC.

"Encontro um conto de 1995, da oficina de C.
Eu queria muito fazer essa oficina, mas não tínhamos dinheiro.
Rezei muito para que nosso pai desse.
Milagrosamente, ele deu o dinheiro.
O C. é um bruto e disse logo que escritor só depois dos
30 (e Rimbaud com 17?)"

Alguns compararam seu caso com o de Sándor Márai, que no auge da fama foi proibido e seus textos ficaram em suspenso até que ele desapareceu.
Outros dizem que essa situação reflete a própria literatura, na qual nada de fato acontece, mas a percepção é de que algo aconteceu. Seria uma reflexão sobre o modo pós-kantiano de verdade com sua incerteza intrínseca?
Os critérios para verificação - testemunhos, dois autores citando a validade, complexos métodos de contagem de palavras - se mostraram impraticáveis. Por que esses textos ficaram de preferência no mundo virtual, nunca buscaram com afinco o monumento do papel? Por que tantos estilos, gêneros e temas?
O fato dessa vasta Mirabilia de textos serem assinados com seu nome, ou seus nomes, já foi visto também como um comentário sobre um mundo de informação fechada, um mundo paralelo em que todos os discursos combinam, mas não são relevantes ou não afetam o sistema.
Não admira que um desses textos assinados como AJR se chame "Pessoas muito burras".
Eu também não descarto de todo a tese de que as empresas que vemos vendendo livros em livrarias de aeroportos, cafés em shoppings ou mesmo comida vegana com o nome JR sejam parte desse trust.
Oscar Wilde teria dito que corpus como os que incluem Quixote e Hamlet estão no sub-texto de qualquer palavra escrita.
Não poderíamos ainda avaliar a qualidade média desses textos (não antes de elaboradas IAs capazes de conferir dados em escala), mas já podemos dizer que o corpus afonsino lançou uma irônica afirmação da literatura enquanto desaparição.
Ou pelo menos, é o que parece.

Afonso Jr. Ferreira de Lima

domingo, setembro 10, 2017

Notas sobre a catástrofe

*
A polícia secreta tinha infiltrados em todos os grupos, nos bares, nas conferências, nos cafés, nas leituras em voz alta e em reuniões que organizavam greves.

F.
Ele deseja simular a captura por inimigos.
Ele os conduzia para serem fuzilados.
F. viu o amigo perder a coragem e parecer querer falar.
Ele matou o aliado. Abriu seu peito e retirou o coração.
F. ficou anos em silencio no hospital.

*
Os meninos uniformizados, com suas caras tristes, assistiam os homens serem levados ao cadafalso. Dizia-se que eram camponeses que haviam fugido dos donos de terra. Eram "homens de segunda classe". Até o magnata do petróleo da região dissera: "Existem comerciantes ricos que ainda são legalmente propriedade de alguém". Outros diziam: "A ferrovia convive com a escravidão", "O avô de Tchékhov era servo", "Eles nos livraram de Napoleão, mas ainda vivem na era das trevas". Os bancos foram chutados pelo carrasco. 

A.
As duas irmãs o ajudaram desde a juventude.
A. se casou com o assistente polonês de seu irmão, que conheceu em uma viagem.
Ele foi condecorado na polícia secreta.
Foi preso e fuzilado.
policial secreto
A. escreveu suas memórias e foi presa.
A. enlouquece.

*
Os soldados subiram a avenida contra os manifestantes com seus chicotes, que podiam matar, e a polícia com seus sabres desembainhados. O sangue nas ruas e a bandeira "Abaixo a tirania" caída na lama.

K.
Ela publicou suas memórias.
Ela e marido foram presos em 1937.
Ele foi fuzilado, ela foi solta.
Muitos exemplares foram destruídos.
Nos arquivos privados das famílias, constrangedoras verdades.

*
Pode-se ler na faixa: "Pai, olha por nós".
Marcham em direção ao Palácio, querem reforma agrária, liberdade religiosa, extinção da censura, maior participação no governo. O exército dispara.

N.
Houve a guerra aos camponeses.
Ela não suportava os flertes marido.
Ela queria ter uma carreira, mesmo com filhos.
Ela sempre fora boa com suas ex-mulheres, mulheres abandonadas.
Ela tirou sua própria vida.
Várias belas mulheres foram fuziladas.

*
"Meu pai nada dá para nós, ele me pune por eu querer estudar. Minha mãe, que cuida de mim, vive situação deplorável, imploro-vos de joelhos que me ajudeis".
Casa velha, pequena, suja. Os quartos eram miseráveis. Ar mofado, o telhado deixava entrar chuva e vento.

*
Um filho de sapateiro em 1878 de uma região invadida pelo império russo. No seminário, escondendo a vela embaixo da cama ou do cobertor, paixão por Zola. Aos 23 anos, preparou uma lista de 300 livros para seu círculo de amigos. Leu Schiller, Maupassant, Balzac e Thackeray. Platão conheceu no original grego, adorava Gógol, Saltivok e Tchékhov. Escreveu muito no exemplar de "Os Demônios", e dizia que Victor Hugo mudara sua vida.

L.
A guerra civil acabou. Ele está na secretaria geral.
Ele queria centralização, coordenar o programa de industrialização, cinco anos depois da abdicação.
Houve reação contra a República Federativa.
L. tenta negociar o apoio dos rebeldes que preferem a independência.
Ele foi vaiado na assembléia dos trabalhadores quando pediu a eliminação do nacionalismo.
 “Ele é demasiado bruto, é necessária sua remoção da secretaria geral".
O testamento jamais será lido no Congresso do Partido.

Afonso Junior Lima

quinta-feira, setembro 07, 2017

"Império do Mal"

O primeiro corpo foi o de uma moça jovem, magra e de celular novo. No seu pulso, uma tatuagem.
Depois apareceram atletas, entregadores de água, taxistas.
Momai foi chamado no terceiro.
Ele foi procurar o professor aposentado H. Salgari.
- Eu já vi essa tatuagem. Em uma foto num livro. Um assassino escreveu na parede "Destruindo o Império do Mal". Essa é uma expressão que o senhor usou, não?
Salgari parecia assustado.
- O senhor sabe o que eu fiz durante a década de 1970? Trabalhei para o governo. Eu impedia que o desejo de poder se tornasse uma coisa romântica na história dos revolucionários, a "Oligarquia dos Selvagens", como a chamávamos. Não foi um acaso o Filho ser um homicida, o Pai era um sanguinário. Ou o senhor acha mesmo que uma ditadura utópica podia viver sem degringolar em campo de concentração?
Ele olhou pela janela.
- O senhor já deve ter visto Sindicato dos Ladrões. O senhor sabe que Elia Kazan foi acusado de ter feito um filme sobre denunciar seus amigos... para livrar sua cara sobre suas delações voluntárias de colegas ao Comitê de Atividades Antiamericanas?
- Parece-me que o senhor quer me dizer algo. Eu suspeito que esses homens foram mortos por alguma coisa não-humana. Mas, e o símbolo?
Salgari pegou na mão uma medalha na estante.
- "Kasan Dedo-duro", virou seu nome. Eu lutei contra o mal. Mas eu assisti a coisas monstruosas também do nosso lado. Eu vi coisas assustadoras. Mas não posso falar sobre isso.
- O senhor precisa dizer a verdade - disse o detetive. Até onde iriam com isso? Seria preciso ainda outro encontro? Quem mais podia falar?
- Muitas vezes pensei se... a fúria do Exterminador não nasceu no rio gelado de -20 graus no qual pescava esturjões e foi pego por uma tempestade. Os detetives que o prenderam não imaginaram estar semeando um Império Sangrento.
O visitante agradeceu. Quando abriu a porta, o professor disse.
- É isso mesmo. Nos laboratórios da democracia, pessoas foram testadas. Pessoas que não puderam se adaptar, pessoas miseráveis.
Momai foi caminhar no parque, pensando sobre grupos secretos, DNA modificado e seres que comem pessoas.

Afonso Jr. ferreira de Lima

domingo, setembro 03, 2017

O fatalista

Existe a lenda de que os mortos podem saber o futuro. Não é meu caso.
M. L. Seu conto "O fatalista" é para mim uma pedra magna na caixa de tesouros desse rico povo. Nessa história, lê-se: "Discutia-se a respeito da crença muçulmana de que o destino do homem está inscrito nos céus". 
Eu havia debatido isso mesmo com ele num inverno terrível no Cáucaso. O lugar das batalhas. Creio que eu mesmo nunca derramaria tanto sangue como o que foi derramado no extermínio das tribos circassianas. 
Montanhas, rebanhos, um sabre marcado na pedra em algum túmulo, essa era a paisagem. Seu amigo revolucionário acabara de ser batido num duelo suspeito. 
O jovem oficial, que fervia de ideias, ouviu-me contar sobre Polidoro, "o que traz muitos dons", filho mais novo de Príamo, que o rei mandara levar para longe do campo de batalha, enviando-o com grande número de riquezas para o seu tio, Polinestor, "o que arquiteta muitos planos". O tio, depois da queda de Tróia, resolveu matá-lo para roubar o tesouro de Príamo.
Mas os deuses tiveram pena dele e, estando o cruel soberano na beira do mar, viu retornar a seus pés o corpo já apodrecido. Quando aproximou-se, seus olhos se abriram e o cadáver lhe disse: "Sua sorte está escrita". O rei caiu morto ali mesmo. Os gregos tinham na predestinação o pilar da vida, sempre trágica, talvez porque a sorte de um aristocrata era perecer na guerra. Mas, que sei eu do coração dos homens? Talvez sonhem com a morte.  
O meu amigo poeta era um corajoso crítico do czar, de Hegel e de Byron, tudo que sua geração amava. Já viu longe, os demônios além da bruma do sentimentalismo. Seu tempo era morto, um feto que nunca via a luz, apenas eu iria morrer pra ver seu futuro. 
Seu personagem, o misterioso tenente alto e de olhos negros, ouve uma premonição sinistra do narrador e logo depois é morto numa rua escura. Mas o próprio M. L., que escapara de um duelo com um francês, viria a perecer logo depois talvez por ordem do czar. Seu amigo tinha um conto chamado "O tiro da pistola", que usava como epígrafe o verso: "Nós nos duelamos". 
Meu jovem poeta, que chegara em S., decide mudar-se subitamente para P. - diz a um conhecido que sente ter pouca vida pela frente. Ele ri nos salões do seu colega com longa espada e maneiras de herói romântico. Até ser desafiado. Talvez fosse uma espécie de pressentimento. Dizem que os loucos correm para o castigo quando não enxergam saída. 
Eu sempre ficara em dúvida se, no seu conto, havia uma intenção sombria quando o tenente, que podia passar indistinto na escuridão, chama a atenção do assassino desvairado ao fazer-lhe uma pergunta. Da mesma forma, um homem que perdera o grande amigo, que podia ter morrido em 1840 - e só não morreu porque o francês errara o tiro - e vai bater-se com um colega um ano depois para deixar esse mundo aos 27 anos, me pareceu sempre suspeito. 
Como diria o morto: "Sua sorte está escrita".

Afonso Jr. Ferreira de Lima



Círculo vazio

Muitas vezes me pego pensando como poderíamos nós, filhos do prosaico, heróis de aventuras mínimas, escrever algo tão ordenado, idealista ou profundo como uma narrativa russa. Nós, que vamos lutar na padaria, comemos no restaurante da esquina, subimos e descemos de vagões comprados com sobrepreço. Sem o peso de histórias épicas ou mesmo sem tempo de ordenar em grandes estruturas delicadas o fluxo de minutos-resposta. Será que temos um novo gênero, a roda dos dias ainda não explicados, a natureza-morta viva?
Penso em como circular em torno do vazio, e o que me vem sempre é o mais simples dos temas, por exemplo, o cão que agora late em plena avenida do século XXI.
Eu e meus vizinhos, por exemplo. A sintonia que se cria nesses sons mudos, sem a capa da razão e do diálogo. Mudaram-se há pouco, três deles.
Não ouço mais o violão da frente à meia-noite.
Nem os amigos de sexta do apartamento abaixo.
A criança que chora, a musica pop do domingo no pátio também partiram com a família do primeiro andar.
A música dos vizinhos e suas rotinas ficam mais claras quando existe apenas silêncio e escuridão.
A menina ensinava seu irmãozinho a falar.
O casal de namorados brigava. Compraram uma TV nova, assisto junto vários filmes.
A moça bonita diz ao seu namorado que estava gostando com gemidos indubitáveis. (Mas ela se foi).
Nada disso tem o peso da morte, o questionamento sobre o destino, a culpa de um crime já realizado ou nunca nascido, o peso da metafísica ou da crise.
Mas emana desse amontoado de objetos já sem utilidade uma poesia leve e dura como a alma de um robô. Porque de alguma forma devem ter algo as pedras, as folhas marrons e a antena de uma formiga, mesmo que seja um alma mais lisa e austera que a de um cristão.
Uma vez, na universidade, disse meu professor:
- Diferente do mundo para nós, ao poeta, as coisas mínimas são estranhas.
Eu pensei logo: todas as coisas são estranhas.
Muitas vezes podem essas vozes soarem juntas. Eu vejo no computador um filme e a vizinha fala sobre o livro que lhe deu origem. Eu leio um livro sobre Cuba e a música de domingo é de Cuba. Eu resolvo cantarolar uma canção e o casal fala do autor da canção.
São movimentos conjuntos, a ligação pros pais, o choro, a briga por ciúme.
E, acima de tudo, que música eu toco?

Afonso Jr. Lima







sábado, setembro 02, 2017

"As moléculas sabem o futuro"

A lenda diz que na biblioteca está tudo que já existiu, mas também tudo que vai existir. Quando perguntei para meu mestre, ele disse: "As moléculas sabem o futuro". Era uma citação de um personagem cientista em "A história da Ilha", de M. Issaiévich. 
A mim foi dada a sessão da História. Minha mãe era estudiosa e conservadora de autores russos. Havia crescido nos Livros, entre o Imperialismo e a Ásia.
Quando comecei a ler, minha história preferida era justamente "A história da Ilha".
Neste conto, um grupo de homens parte para colonizar uma terra à oeste e levar a "civilização" aos que chamam de sub-humanos ou bárbaros. Suas mulheres são controladas para a reprodução e costumam ter filhos todos os anos - uma personagem tem 12 filhos em 12 anos e se suicida. A sociedade existente anteriormente acaba sendo apagada, os colonos são os únicos que podem comprar os produtos que produzem. Mas isso gera um medo constante sobre o que existiria fora da muralha. Por fim, uma estranha doença começa a acometer as crianças do lugar, que se tornam como que sonâmbulas, e acabam dormindo para nunca mais acordar. O cientista tenta, inutilmente, achar a causa e, por fim, começa a estudar as lendas e os sonhos dos "bárbaros". Descobre que neles havia a crença de que, paralelo ao nosso tempo linear ou aparente, existe um outro tempo, no qual tudo se encontra. Assim, ele suspeita que as crianças estão tristes porque seu corpo sabe de algo que ocorrerá no futuro aparente. 
Esse conto assustador me fascinava e eu desenhei muitas folhas ilustrando essa sociedade.
O que me fazia desde cedo pensar sobre a minha própria, por que acabamos vivendo na biblioteca, se existiriam humanos lá fora ainda e se existia algum lá fora, por que existia a máxima gravada na pedra: "A Salvação está contida nos Livros". 

Afonso Junior Ferreira de Lima 






quarta-feira, agosto 30, 2017

O mundo

Ele já havia nascido sob o regime de segregação. Para eles, o medo era tudo. A lei do sangue. Mas ele a conheceu na rede. Uma perversa.
Lua falava de astrologia, tarot, mitologia e livros de fantasia.
"O Juiz estava furioso porque um promotor havia sido metralhado na rua. Alguém precisava pagar. Jesus foi condenado porque descobriu um pergaminho, a Sociedade o incriminou" - assim começava um post enigmático. Um exercício de imaginação, ela contou.
Jesus era o nome de seu irmão, condenado por não devolver um livro na biblioteca.
- Você não tem medo de nós - ela disse sorrindo para a câmara.
- Eu não acho que vocês sejam por natureza maus - ele disse a Lua. Eu suspeito que
isso tudo foi criado para que aceitemos o inferno. Para que alguém acumule ouro.
- Nem sempre foi assim. Quando eu era criança, nós não tínhamos tanques em frente à nossas casas. Nem havia militares dando aula nas escolas. Não havia tantos desaparecidos. Não se sabia de mulheres violadas dentro de casas invadidas.
- Podíamos nos conhecer - seus olhos cintilavam de desejo juvenil.
- Nem pense nisso. Sua família jamais iria aceitar. A Sociedade criou um sistema em que ninguém é culpado. As ordens devem ser cumpridas. E os livros dizem que, para nós, as leis são outras, não há direitos para os "perversos".
Ela abriu as cartas. Antes, ela já sabia o que seria. La Maison Dieu. 
- Plutarco também via o raio como gerador da vida. Aqui, tudo desaba.
Ele pensou no mundo que conhecemos como ilusão, ele precisava destruir.

Afonso Junior Ferreira de Lima

terça-feira, agosto 29, 2017

segunda-feira, agosto 28, 2017

Romance policial

Eu o procurei porque era um ex-escritor de romances policiais.
Eu havia sido estuprada. Dentro da minha casa. Eu oferecera um jantar para dez amigos e ficara bêbada o bastante para parar num divã semi-lúcida.
Ele era um advogado aposentado agora, convidou-me para jantar. Perguntou muito sobre cada um deles.
- Intelectuais. Todos - disse depois de um gole de vinho.
Ele parecia bastante desanimado.
Por fim, me disse que eu fosse pra casa, tomasse um banho e procurasse uma delegacia.
- Não vou pegar o caso.
- Mas houve um crime.
- É, existe um crime. O mundo todo é um crime.
- Eu quero uma investigação.
- Mas eu acho que esse não é o verdadeiro enigma - ele disse, enrolando o macarrão.
- O que quer dizer? - Eu estava irritada.
- Eu acho que você tem uma questão escondida que ainda não descobriu.
Eu tentei me concentrar. Era perfeitamente lógico aquilo tudo. Precisei ir no banheiro.
*
Como ele podia saber?, pensava enquanto passava o batom escuro. Toda sua vida quisera reescrever as narrativas, apagar as descrições que fizeram sobre ela. O mundo era mais complicado. Ela nunca se sentira de fato acomodada com a identidade que lhe haviam dado.
Retornou.
Ele colocou mais vinho na sua taça.
- E sobre a investigação? - ela tentava ser fria.
- Mas eu estou investigando. Onde está? Existe em algum lugar espaço para algo não previsto. Você gosta de ficção científica?, ele perguntou.
- Eu gosto. Um francês... Como é o nome? É sobre dois viajantes espaciais, em missão à um planeta distante são engolidos por uma máquina marinha.
- E seu amigos. O que acham disso?
- Eles sempre foram um tanto esnobes. Acho que sou o tipo introvertido.
- Como?
- Jung. O tipo que pensa mais na conexão de ideias do que nos fatos objetivos. E como criar condições objetivas para que subjetividades assim emerjam?
- Seus amigos querem lhe matar então.
Ela derruba a taça.
- Quem foi? Quem?
- Foram os criadores. Os gestores do congelamento. Eles criaram o processo de elucidação do mistério. Eles querem transformar você em detetive, na busca pela identidade. Fatal.
- Mas... o que desapareceu?
- Eu busco também. O real?
Ele pediu um táxi para ela.
Se despediram.
- Quando for à delegacia, fale sobre seu amigo André Fais.

Afonso Jr. Lima