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segunda-feira, fevereiro 19, 2018

The smell of meat (English version)

(This is a rush translationt. Version may not be in its final form.)

The strike was because the workers complained that the meat served in the factories was "green."
Some people had felt bad. One of them was hospitalized. "The bourgeoisie needs to defend its sense of superiority, which is why we need to eat rotten meat," said a popular leader. The repression was brutal.

Since the government had brought back some factories, offering even lower wages and freedom from regulation, and after it became clear that workers were unable to pay their own food at such wages, there had been a regulation for food that "suited costs and needs "; in practice the workers were more exhausted and fed worse.

In the beginning they ate only rice and "identical to natural" flavor sauce, but they got protein after a negotiation. However, gradually, complaints about the smell, the appearance and the taste of the meat appeared. "If you try to look in the kitchen, the smell looks like a dump, everything seems to have been hours without refrigeration," a worker told a local radio station.

On TV an expert talked about the fact that between his "consumption climate" and its degeneration, there was a time when the meat was healthy, but presented a bad appearance. It would be a waste to lose all that protein, he said.

The workers gathered and began to produce birds for their own consumption. Leader Manuele Ornan has unveiled fast-growing breeding methods. Small producers have raised enough to meet 1/3 of the demand through Food Houses. They planned a Manifesto and the inauguration of a house in the center, but their leaders were arrested the day before.

A journalist challenged censorship by publishing the interview with a political scientist who said that politicians could not see in the workers anything other than something "dangerous and subversive" because they lived in luxury: "In the elections, you win the candidates with more money. It is not representative system. The successful candidates have invested 20 times more than those who have lost. "

The newspaper was closed. Manuele committed suicide in jail.

The publicity, the use of infiltrators, the support of the university finally calmed the moods. The food did not please, but the prosecution demanded new spices and more pleasant odor. Finally, the daily use of a drug that avoided the more dramatic effects of a greenish meat was agreed upon.

Afonso Jr. Ferreira de Lima

domingo, fevereiro 18, 2018

Bone Man (English version)

(This is a rush translationt. Version may not be in its final form.)

- Can you hear me?
He walked at the speed of light.
And it was just beginning.
The light travels in a year nine trillion, four hundred and sixty billion and eight hundred million kilometers.
You had to find a new planet. The time was running out.
The media already called him Bone Man. There was only one side effect.
He would lose his affective memories, keeping only functions linked to planning and action with the help of implants and nano-robots.

He tried to write what he knew. Maybe it was already a lot of mixed cliches and anguishes. Maybe it was science fiction already.
"Money, invested in science, produces progress" - Zola's phrase was the president's slogan. It was not an investment, but a "freedom to starve," as one journalist put it. Since democracy had been abolished, for "security reasons", after protests, all universities "without practical use" lost funding. Those who focused on humanities studies had closed.
The government basically functioned as a police force to contain revolts and as a bank lender in the event of market turmoil.

The bomb that ended New York was only the first tragedy.
Storms that killed thousands, lack of potable water, wars that generated a mass of immigrants were used to propose the changes.

The old downtown buildings were swept by condos-skyscrapers that linked to cities in the stratosphere and wide avenues of shopping in space.
Most of the population, in agriculture, managed by machines, disputes the semi-polluted streams to wash clothes, feeds on insects and instant noodles and has no access to the remedies after the end of public service.
The reform of education ended with "victim words." The "new ecology" was the main focus, that is, money for space research. Quantum physics had its mysteries.
"To say is to invent."He began to forget who his relatives were in the vacuum transmissions, until they noticed his indifferent smile.
His dreams, then, were all with things he did not know.
But they were full nightmares. He would enter underground areas of a house and see people sleeping there, among corpses and wretches.
- Can you hear me? - he said.
Someone was coming after him with a knife.
He woke up sweating.
Every day her body generated movements to maintain its function. He was even forgetting why he had decided to do that.
He began to feel trapped. He looked at the emptiness, the risk that the stars formed in their unpublished run. Pieces of him were also falling behind.
He saw one just like him, they talked.
- Fate, I should not have accepted. The future has already happened to you.
The other one drew a fish. He remembered his childhood when there were fish in the lakes. At night, they slept in their arms.
M 101 came close, a black hole of 20 million suns inside it, but it was not swallowing anything around.
- You are a star. These atoms have somehow lived 13 billion years ago.
He opened the door.

Afonso Junior Ferreira de Lima

Bone Man

- Você pode me ouvir?
Ele andava na velocidade da luz.
E apenas começava.
A luz viaja em um ano nove trilhões, quatrocentos e sessenta bilhões e oitocentos milhões de quilômetros.
Era preciso achar um novo planeta. O prazo se esgotava.
A mídia já o chamava de Bone Man. Havia um único efeito colateral. 
Ele perderia suas memórias afetivas, mantendo apenas funções ligadas ao planejamento e ação com a ajuda de implantes e nano-robôs.
Ele tentava escrever o que sabia. Talvez já fosse um monte de clichês e angústias misturados. Talvez já fosse ficção científica. 
"O dinheiro, investido na ciência, produz o progresso" - a frase de Zola era o slogan do presidente. Não se tratava, entretanto de investimento, mas de "liberdade para morrer de fome", como disse um jornalista. Desde que a democracia havia sido abolida, por "motivo de segurança", depois de protestos, todas as universidade "sem utilidade prática" perderam financiamento. Aquelas que focavam nos estudos de humanidades haviam acabado fechadas.
O governo basicamente funcionava como polícia para conter revoltas e como financiador de bancos, em caso de caos no mercado.

A bomba que acabou com Nova Iorque foi apenas a primeira tragédia. 
Tempestades que mataram milhares, a falta de água potável, guerras que geraram uma massa de imigrantes foram usadas para propor as mudanças.

Os prédios antigos do centro foram varridos por condomínios-arranha-céus que se ligavam a cidades na estratosfera e largas avenidas de compras no espaço.
A maioria da população, na agricultura, gerenciada por máquinas, disputa os riachos semi-poluídos para lavar roupa, alimenta-se de insetos e macarrão instantâneo e não tem acesso à remédios, depois do fim do serviço público.
A reforma da educação acabou com "palavras vitimistas". A "nova ecologia" era o principal foco, ou seja, dinheiro para a pesquisa espacial. A física quântica tinha seus mistérios.
"Dizer é inventar". 
Ele começou a esquecer quem eram seus parentes nas transmissões pelo vácuo, até que eles perceberam seu sorriso indiferente. 
Seus sonhos, logo, eram todos com coisas que não conhecia. 
Mas eram pesadelos completos. Ele entrava em áreas subterrâneas de uma casa e via pessoas dormindo ali, entre cadáveres e miseráveis. 
- Você pode me ouvir? - ele dizia.
Alguém vinha atrás dele com uma faca.
Acordava suando.
Todo dia seu corpo gerava movimentos para manter sua função. Ele ia esquecendo até mesmo por que decidira fazer aquilo. 
Ele começou a se sentir aprisionado. Olhava o vazio, o risco que as estrelas formavam no seu correr inédito. Pedaços dele também estavam ficando para trás. 
Ele viu um igual a ele, conversaram.
- O destino, não devia ter aceito. O futuro já aconteceu para você.
O outro desenhou um peixe. Lembrou de sua infância, quando ainda haviam peixes nos lagos. À noite, dormiam abraçados. 
M 101 chegava perto, um buraco negro de 20 milhões de sóis dentro dela, mas não estava engolindo nada ao seu redor.  
- Você é uma estrela. Esses átomos de alguma forma vivem há 13 bilhões de anos.
Ele abriu a porta. 

Afonso Junior Ferreira de Lima

terça-feira, fevereiro 13, 2018

Rituais de sangue

- Estou chocado. Ela é advogada e nunca me pareceu frágil - eu disse.
"A cidade de São Paulo foi considerada a pior metrópole em violência sexual contra mulheres no mundo" - esse era o tema da conversa.
- Você nunca ouviu falar de Artemisia Gentileschi? - Lyslei me disse no shopping.
Eu fui pego de surpresa entre um gole e outro de capuccino.

Fui correndo pesquisar.
O Renascimento redescobriu Aristóteles. “No que respeita aos animais, o macho é por natureza superior e dominador e a fêmea inferior e dominada. E o mesmo deve necessariamente aplicar-se ao mundo humano".
O professor de desenho e perspectiva.
Como a mulher é um ser sensual ligado á irracionalidade e a matéria, ela seduz, trai e mente.
Parece que tanto Eva como Pandora foram um castigo para a humanidade. E já que a culpa do Pecado Original vem da Primeira Dama, ela deve ser submissa, diz Agostinho. 
No século XV, o Malleus Maleficarum deixava claro que, tendo Eva nascido de uma costela curva, "contrária à retidão do homem", ela sempre é "um animal imperfeito". 
Os padres da Igreja citam casos de travestismo, mulheres que se vestiam como monges já que, como disse Eusébio de Emessa, santo padre do ano 300, "nas virgens a luxúria está morta; o corpo, pregado na cruz com seus vícios e desejos, o corpo é um estranho para elas".

Mas, em 1593, seu pai lhe deu o nome da deusa da caça. Cercada de leões, "Senhora dos animais" para Homero, cultuada por sacerdotes eunucos, ela lembra o tempo antigo de rituais em cavernas e árvores, quando o caçador pendurava a pele do animal num tronco e fazia uma prece. Se um sacrifício precede a batalha, se o sangue quente é oferecido aos deuses, se os videntes leem nas vísceras o destino, Ártemis está presente, assim como, em Halai, na Ática, ao se raspar com uma faca o pescoço de um jovem ou em Ortia, em Esparta, quando os Efebos levam chicotadas no altar. 

Ela não acha o sofrimento natural. "Pôs um pano em minha boca para que não gritasse. Eu arranhei seu rosto e arranquei seus cabelos."
Dizem que a pintora foi torturada para que a queixa fosse retirada.





O exílio do criminoso durou quatro meses. Ela teve de conviver com a fama de sedutora. 
Nos vasos gregos o sangue cobre os altares; aqui, está jorrando do pescoço.
Na própria pintura de Caravaggio, em que o general assírio perde a cabeça, Judite parece uma moça casta e frágil. Em Botticelli, ela pode sair voando à qualquer momento como uma ninfa. A Judite de Artemísia é uma vingadora forte e brutal. 
Nada da amada ideal do século XII, quando a mulher começa a dispor de propriedade no sul da França, a amada perfeita que exige trabalhos dos cavaleiros como prova de amor, o mundo do Lancelote, o Cavaleiro da Carreta (1177) de Chrétien de Troyes. O rosto do criminoso está em todos os vilões. 

Em 1649, ela escreve:

"Hoje mesmo descobri que (...) tendo executado um desenho das almas no Purgatório para o Bispo de S. Gata, este, para gastar menos, entregou a obra a outro pintor, para a pintar segundo o meu desenho. Se eu fosse homem, duvido que o mesmo tivesse acontecido (...) Devo alertar Vossa Ilustrissima Senhoria para o facto de os meus preços não obedecerem ao costume de Nápoles, onde é hábito pedir-se trinta e vender por quatro. Sou romana e como romana hei de sempre agir."



Afonso Junior Ferreira de Lima

https://revistamarieclaire.globo.com/Mulheres-do-Mundo/noticia/2017/10/sao-paulo-e-pior-cidade-em-violencia-contra-mulher-diz-pesquisa.html

http://www.bbc.com/portuguese/geral-38594660

https://www.ufrgs.br/napead/repositorio/objetos/historia-arte/idmod.php?p=gentileschi

domingo, fevereiro 11, 2018

Uma fotografia

"Eu não me lembro dessa foto", ele disse.
Ele trabalhava na universidade, sua função era ler os artigos dos pós-doutores e criar resumos que iriam para o público geral, alimentando editoras e jornais.
Algumas vezes pensava se não se tratava de uma estratégia política.
Mas, um dia, depois do almoço de domingo, quando sentou no sofá com sua mulher e começaram a ver fotos antigas, percebeu.
Ele não lembrava de ter tirado a foto, tinham se conhecido em outro lugar, tinha outra versão. Ele esquecera o real desse dia ou a lembrança desse dia era uma sombra?
Ele ficou obsessivo com isso e, no meio da noite, decidiu subir as escadas até o sótão e começou a vasculhar os arquivos, jogando no chão o que havia nas estantes, tirando todos os documentos de seus lugares, todos os antigos vestígios. Parecia que tudo ao seu redor havia sido montado para ele, fabricado como um cenário. Eram atores.
Por fim, exausto, enquanto a manhã trazia um gélido azul para o cômodo, ele viu numa parede, riscado com um canivete: "Dia Liberdade".
Ele dirigiu durante seis horas para a zona das montanhas, para encontrar seu chefe aposentado.
A luz criava efeitos maravilhosos no verde e os cavalos corriam com o vento.
- Eu pensei muitas vezes em te contar - disse o homem, depois que fez um chá e sentaram. A coisa funciona assim...
Pelo que ele contou, o outro criou um enredo; entendeu que no "Dia da Liberdade", aquele dia em que, uma vez por ano, o cidadão é levado a dormir numa sede de uma empresa contratada pelo governo para propiciar um relaxamento completo - descobrira-se, foi dito, que isso melhorava o desempenho do trabalho em 41% no período a seguir - nesse dia, as pessoas tinham seu cérebro vasculhado em busca de ideias "potencialmente instáveis", ideias que pudessem "ameaçar a segurança nacional". Nesse sentido havia sido aprovada uma lei para modificar levemente algumas memórias a fim de apagar os vestígios de revolta e indignação. Começou com um sentimento muito forte, uma humilhação muito profunda, um momento de histeria, tudo era suavemente envolto em névoa com choques elétricos. O perigo era o apagamento de algumas memórias importantes. Outras vezes o cérebro "refabricava" o todo, tentando criar sentido. Mas parece que haviam testado também a instalação de identidades paralelas. Mesmo desmentido pelos fatos, a crença artificial prevalecia. O custo de mudar todo o campo social, da mentira em conjunto no trabalho e na família, entretanto, levou ao abandono do projeto.
- Acho até que já falamos nisso. Você foi testado. A pessoa que você acha que é não fecha mais com a pessoa que os outros pensam que você é - disse o homem mais velho, fixando nele placidamente seus olhos azuis.
- Quem sou eu então? - ele disse chegando até a janela.
Nesse momento, segurando na cortina, tombou no carpete.

Afonso Junior Ferreira de Lima

sexta-feira, fevereiro 09, 2018

O homem atômico

Os tanques chegaram ao palácio às quatro da manhã, uma névoa tomava conta do pátio.
O presidente e sua esposa foram levados à prisão.
A primeira declaração pública do novo chefe de Estado - um tanto incomodado com o púlpito cheio de microfones - falava de guerra atômica.
As pessoas coçavam a cabeça.
- Por que desenterrar essa história tão antiga?

Do outro lado do mundo, o líder do mundo livre imediatamente respondeu falando em "guerra atômica". Precisava de mais de um trilhão de dólares.
Os jornais falaram nas reduções governamentais no financiamento para a ciência. 
A mídia conservadora na internet bombardeou sobre o efeito positivo da saúde fiscal. 
Jornalistas lembraram do vexame nas instituições internacionais, ataques à justiça nacional, o novo imposto sobre universidades e cortes fiscais para os ricos e para as suas corporações.
O presidente disse à sua mulher:
- Não precisamos negociar. Democracia é publicidade. 
Ele promoveu um baile de gala e tuitou:
- Os inimigos do povo usam sofismas para colocar o Mundo Livre em perigo.
Um jornalista levantou a suspeita, sugerida por uma fonte, de que o presidente pacifico do outro lado do mundo fora derrubado com apoio das agências de inteligência, já que o governo recebeu muito dinheiro do complexo industrial-militar. 
Um senador propôs uma investigação, recebeu visitantes na sua sala. "Socialismo democrata" no muro.
O alarme soou preparando os cidadãos para a guerra atômica.

Afonso Junior Ferreira de Lima

segunda-feira, fevereiro 05, 2018

A Mansão

Lorde Kevin adorava entrar na mansão como todos os mortais, observando as luzes acesas no andar superior, centralizadas entre as colunas brancas. Ela sempre o esperava na porta. 
- Meu amado! Mais um ano! - o beijou seu corpo frio. 
Sempre gostou da decoração século XVIII da mansão, a madeira das portas, os detalhes dourados do teto, os lustres de diamante. 
Ela fora uma criança que via fantasmas, morava na mansão em decomposição da avó e começou cedo a escrever as histórias que eles lhe contavam nos sonhos. Quando se conheceram, no dia do lançamento de seu primeiro livro sobre vampiros (ele queria tirar essa palavra cafona do dicionário), ela percebeu imediatamente quando olhou nos seus olhos cinzentos. Há vinte anos se encontravam na véspera do dia das bruxas; ela adorava ouvir seus relatos sobre o que viveu, principalmente sobre Roma antiga e Paris nos tumultos de 1848. 
Ela estava interessada em escrever um romance sobre imortais em meio a repressão sangrenta. 
- Oito mil pessoas foram no cemitério de Bordeaux dedicar um monumento a Flora Tristan, feminista falecida quatro anos antes. "A união operária" falava de emancipação das mulheres e união dos oprimidos. Não é fabuloso?
Ele lhe deu detalhes sobre a "boa esposa" esperada por todos, "a ordem e a disciplina que mantinham o calor do lar". 
- O historiador Michelet via a civilização como fruto da luta entre a razão, o espírito, o homem contra a matéria, o oriente e a mulher...
Jantaram na mesa com doze velas e seis cadeiras vagas, a luz branca da lua entrando pelas altas janelas. 
- Você me chama de idealista e romântica... Eu nunca entendi como um ser imortal pode aprovar o materialismo vulgar e a visão de mundo sem valores morais de um Bazárov. O ser humano deve ser apenas um animal - mas pode a humanidade ser estável com muitos animais assim? 
Há anos eles discutiam Turguêniev. Por trás daquilo tudo, o sonho nunca dito dela de morrer para essa vida, sua idealização do assassinato por necessidade, sua busca insana de intensidade. Por isso a amava. 
- Já disse que eu o conheci? Ele era vaidoso, amava uma mulher casada, andava elegantemente por Paris mas eu via seu olhar vazio. Eu o observei. Não podia acreditar na geração fraca dos anos 1840, mergulhados em palavras porque sua Rússia ainda era feudal... Sofria realmente pelos maus tratos que sua mãe impunha aos escravizados. Mas estava chocado com a ideia de que, nesse mundo novo, a glória significaria violência e não beleza. 
- Um jovem apaixonado diz: "Como regra, não se deve sentir saudade das pessoas"... O monstro sempre sofre nos filmes cinzentos. 
A lareira estava acesa, apesar do dia não muito frio. O barulho dos pássaros da noite e do violino. Ela não imaginaria pelo que ele havia passado. 
- Eu devo dizer que todo predador deveria temer pelo fim da humanidade, que seria o fim de sua raça. Sempre acreditei que os mais fortes deviam prevalecer, assim como qualquer aristocrata francês, mas estou vendo que a extinção completa é uma possibilidade. A classe trabalhadora admira aqueles que a desprezam, quer conquistar um aparelho novo, seu ideal é o vencer sozinho. A nova aristocracia não produz mais. Os cálculos são autônomos, não levam a nada senão ao irracional. No fim do plano burguês está um incêndio, quando cada um cuidou do seu jardim e ninguém olhou a tempestade vindo. 
Passearam pelo verde, a estátua de Ártemis no lago cheio de plantas. 
Kevin sentia-se na presença de uma versão feminina de si mesmo, podia ir com ela para a cama, podia fazer seu sangue jorrar por puro desejo de união. E, no entanto, ambos sabiam que isso jamais ocorreria. 
Sentaram no banco de sempre. Ela disse:
- O que eu mais gosto sobre o monstro, é que ele tem um coração ambíguo. 

Afonso Junior Ferreira de Lima

domingo, fevereiro 04, 2018

Livro: "A coleção particular" - de George Perec


Livro: "A Marca Humana" - de Philip Roth

Nesse vídeo Afonso Jr. apresenta o livro "A Marca Humana" - de Philip Roth

sábado, fevereiro 03, 2018

Livro: "O romancista ingênuo e o sentimental"- de Orhan Pamuk


O odor da carne

A greve foi porque os trabalhadores reclamaram que a carne servida nas fábricas "era verde".
Algumas pessoas haviam passado mal. Uma delas ficou internada no hospital. "A burguesia precisa defender seu senso de superioridade, é por isso que precisamos comer carne estragada", disse uma líder popular. A repressão foi brutal.

Desde que o governo havia trazido de volta algumas fábricas, oferecendo salários ainda mais baixos e liberdade quanto a regulações, e, depois que ficou claro que os trabalhadores eram incapazes de pagar seu próprio alimento com tais salários, surgira uma regulação para alimentação que "adequava custos e necessidades"; na prática os trabalhadores estavam mais exaustos e se alimentavam pior. No início comiam apenas arroz e molho sabor "idêntico ao natural", mas conseguiram proteína depois de uma negociação. No entanto, paulatinamente, surgiram reclamações quanto ao cheiro, ao aspecto e ao sabor da carne. "Come-se uma coisa que tem gosto de papel mofado. Pior, se você tentar olhar na cozinha, o cheiro parece um lixão, tudo parece ter ficado horas sem refrigeração" - disse um trabalhador a uma rádio local.

Na TV um especialista falava sobre a maravilha de que entre o seu "climax de consumo" e sua degeneração, havia um momento em que a carne era saudável, mas apresentava aspecto ruim. Seria um desperdício perder toda essa proteína, afirmava.

Os trabalhadores se reuniram e começaram a produzir aves para consumo próprio. A líder Manuele Ornan divulgou métodos de criação que se espalharam rapidamente. Pequenos produtores reuniram uma quantidade suficiente para atender 1/3 da demanda através de Casas de Alimentação. Planejaram um Manifesto e a inauguração de uma casa no centro, mas seus líderes foram presos na véspera.

Um jornalista desafiou a censura publicando a entrevista com um cientista político que disse que os políticos não podiam ver nos trabalhadores nada além de algo "perigoso e subversivo", pois viviam no luxo: “Nas eleições, ganha o candidatos com mais dinheiro. Não é sistema representativo. Os candidatos eleitos vitoriosos investiram 20 vezes mais do que os que perderam".

O jornal foi fechado. Manuele se suicidou na cadeia.

A publicidade, o uso de infiltrados, o apoio da universidade, finalmente acalmou os ânimos. A comida não agradava, mas o Ministério Público exigiu novos temperos e odor mais agradável. Por fim, foi acordado o uso diário de um medicamento que evitava os efeitos mais dramáticos de uma carne esverdeada.


Afonso Jr. Ferreira de Lima


quinta-feira, fevereiro 01, 2018

quarta-feira, janeiro 31, 2018

O assassino

Sua teoria era a de que em cada pessoa morava um assassino.
Foi assim que tudo começou.
O pânico tomou conta da cidade.
A polícia começou a buscar a origem dessas criaturas que pareciam insensíveis a qualquer apelo humano. Dois moradores de rua degolados, três crianças afogadas em rios fétidos, três prostitutas cortadas em pedaços, um político empalado.
O único capturado foi sedado por absoluto descontrole.
Momai foi chamado para ajudar, demorou pra chegar devido ao caos no trânsito que ainda persistia dois dias após uma tempestade assustadora.
Começou uma busca por sistemas de rede; com a ajuda da hacker JM, buscou os comentários, mensagens e emails sobre esses episódios.
Um deles dizia: "Finalmente esquerdistas e fracassados serão esmagados".
Outro: "Já era mimimi, a cegueira dos comunistas vai acabar em sangue".
A partir de determinada data, a mudança de governo, aumentam as expressões:
esquerdistas se dão mal
esquerdistas humilhados
esquerdistas burros
esquerdistas sangue

Encontrou no canal do maior youtuber conservador, célebre por gravar vídeos em manifestações políticas ironizando seus participantes, um comentário: "CIT: acabou a farra".
Nos grupos de fascismo digital e em canais de youtubers que destilavam ódio sob a capa de liberdade de expressão, a interação constante de três expressões:

Tropa da Assalto
Liga de combate
CIT

Mensagens trocadas pelo grupo WhatsBomba - "Tropa da Assalto Geral CIT"
"Os direitos Humanos impedem que se prenda os baderneiros"
"Parado no trânsito por culpa do fogo. CIT para trazer a paz".

JM disse:
- Parece que algo liberou os grupos de uma anterior contenção. O código inerente a esse sistema parece ser violência/repressão. O sistema se organiza pelo par binário força/moralidade. Alguma coisa permite que o moral se torne a força?
JM pensou em rastrear os dados em ressonância com "CIT". Não havia pista sobre o que era.

"Tropa da Assalto" e "Liga de combate" eram expressões usadas pelos ativistas digitais para grupos de "assassinato moral" por meio de notícias falsas em relação aos supostos comunistas. Parece que "CIT" seria uma forma extrema desse "combate de extermínio".

A coisa parecia ser uma lenda urbana, até certo ponto. 
Finalmente, Momai pode entrar num site oculto chamado "Campo Instinto Total".
Os jogadores permaneciam dentro de rígidas muralhas, havia carcaças de animais e ossos por todos os lugares. 
"Campo Instinto Total" havia sido criado pelo economista e cientista experimental César Kurt.
- Seu experimento permitia libertar o assassino em cada pessoa - disse JM. Com um aparelho que dava pequenos choques no cérebro, se conseguia paralisar completamente os sistemas de contenção dos instintos.
A tempestade gerou um pane no sistema, houve fuga.
Momai observou a cidade enquanto ouvia "Blue Moon".

Afonso Jr. Fereira de Lima


terça-feira, janeiro 30, 2018

O "espelho"

Ele observou o "espelho". Seu marido estava na sala, tomando um vinho, acabara de chegar do trabalho.
O rapaz era um negro com belos músculos. Precisava pensar sobre isso.
Ligou o aparelho. Avisara que estava ocupado.
O espelho fora criado porque podia tornar reais as possibilidades, prevendo os lances do futuro. As previsões exigiam cada dia mais eficácia, num mundo caótico.
Ok. Vamos em frente.
Ele entrou no mundo paralelo, ou melhor, tudo apareceu ao seu redor.
Ele liga para o número que o rapaz lhe deu. Ele chega de manhã, logo depois do marido sair.
Eles fazem amor no tapete da sala.
O marido, ao chegar não desconfia de nada.
Ele se sente culpado. Um mês depois, repetem.
Passa a ter medo da sua vida dupla.

Eles fazem amor no tapete da sala.  O rapaz o persegue. Um dia, na noite escura, sofrem um assalto e o rapaz é esfaqueado. Ele corre.

Ele liga para o número que o rapaz lhe deu. Fazem amor. Quando liga novamente, não recebe resposta. Foi um sonho.

Ele não liga. Encontra o rapaz na rua. Um dia, na noite escura, encontram um amigo do marido. Foi um sonho.

Ele desliga o aparelho. Sabe que o outro sente sua falta. Mas...
Ele precisa pensar. Ele não quer perder tudo, não pode se conter.
Ele chegaria logo depois do marido sair. Mas, e se...
- Amor, tudo bem?
Ele não se sente seguro. Liga de novo a máquina.

Afonso Jr. Ferreira de Lima

Romances Policiais



sábado, janeiro 27, 2018

Esgoto

Ele acorda e vai ver o horizonte. Cinza.

Observa os corpos miseráveis no chão. Caminha sobre o rio podre.

Ele ouve as últimas notícias. Mais um líder popular preso. Os herdeiros têm de defender seus privilégios, justiça seria algo muito bizarro mesmo...

A sensação de que a realidade não existe.

Observa a água que não corre, o lixo, as árvores secas ao lado das margens, o fluxo que aumentou na chuva.

Um golpe publicitário, as máquinas de comunicação como ovo da ditadura nos lares, rede de TV usando o povo como hospedeiro. Os melhores pais de família com ódio no sangue. Um famoso jornalista recebe um líder fascista para debate, uma convidada se levanta e sai.

O "líder" é um golpe de marketing para espalhar o medo do comunismo entre jovens confusos e envenenados pela mídia aristocrática. Sua fala é slogans publicitários, misturando "esquerdismo" e "minorias", chamando feministas de "histéricas". Discurso doutrinador para proteger nobreza, dentro do plano de prender lideranças progressistas e assaltar o Estado com privatizações.

E vamos colocar Hitler e Roosevelt para debater. Mas talvez seja o dono da rádio que manda...

Chega no pátio da empresa, está muito cedo. Tenta responder mensagens.
Ontem, na sala, arte digital com esgoto por onde saem notas de dinheiro. Falas no tribunal.
Ele também foi obrigado a ver.
Os humanos imóveis na frente de uma máquina que aplica sua lógica implacável. Não houve dinheiro mas houve lavagem de dinheiro.
Vê uma gigantesca rede de comunicação atacando uma pessoa.
Uma enorme construção retórica para ligar coisas sem ligação. Juízes como atores no teatro da injustiça. 
As imagens se movem, os olhos perplexos, não se pode falar enquanto os raios atingem o cérebro, pressa em criminalizar as reformas pela justiça social, opiniões valem como lei. 
Magia, arte degenerada. A lei funciona como mecanismo de tortura. 

"O juiz mostrou seu partidarismo em várias ocasiões", lê num site estrangeiro.
Mas são milhões de pessoas para quem o inocente é um gênio do mal, "condenado por lavagem de dinheiro", o judiciário é isento e correto. 
A porta se abre. Cumprimentando seus colegas com um "bom dia", mais uma vez, pensa que o sono, a realidade das aparências, o hábito sombrio, caíram como um véu sobre a cidade, o real não existe.

Afonso Junior Ferreira de Lima


quarta-feira, janeiro 24, 2018

Depois dos cem

No colo, na sala
um presente rabisco agora -
Depois dos cem
as nuvens continuam lá, 
é nossa emoção que tem raízes
As crianças são uma mensagem secreta
Colhemos as sementes de ontem
Depois dos cem: sabemos de coisas cruéis 
e estamos felizes com o dia
Talvez não sábios o bastante, 
mas sábios para ter o suficiente 
de lembranças, de certezas, de realidade
Depois dos cem, somos muitos

Afonso Jr Ferreira de Lima

terça-feira, dezembro 26, 2017

O que vocês querem de mim

eu sou da noite
eu canto no círculo de pedras
uma música de lua
nada é meu 
e eu sou a natureza 

O que vocês querem de mim é que todas as coisas essenciais sejam apagadas
O que vocês querem de mim é que eu caminhe sem cessar em busca de coisas fúteis
O que vocês querem de mim é que que ame minha família e encha meu carrinho de supermercado
O que vocês querem de mim é que eu seja um homem bem-sucedido na praça de alimentação

eu sou da noite
minha chama evoca a memória do heroísmo
nas ruínas eu vejo fantasmas
estendo a mão ao mundo, meu irmão

caminho no círculo de pedras
secreto e repugnante para os homens da luz
falando com animais e voando sob a lua
a verdade vencerá, o falso desmorona
eu sou a natureza 

Afonso Jr. Lima 

domingo, dezembro 17, 2017

Crônica do crepúsculo da nação

Aos poucos percebemos que o Brasil nunca viveu uma democracia... Democracia prevê que as pessoas tenham educação e informação para escolher com independência. O contato do "cidadão" com o poder é a TV.

A vitória de Doria em São Paulo deixou claro que uma campanha publicitária (e dinheiro) pode superar uma boa gestão (o antecessor). O Estado sendo destruído por dentro por milionários que não pensam em ampliar a dignidade através de investimentos... No Executivo, o que o povo pensa não faz diferença; o abismo é tão grande que "a questão social é caso de polícia", como na República Velha. 

Um amigo, que votou no Doria comenta: "Só falavam em ciclovia", ou seja, a mídia deu um foco tão desproporcional em um debate (o conservadorismo na aliança de uma indústria e um modo de ser que vê status no carro) que os investimentos foram esquecidos. E não se consegue fazer essa crítica. 

A periferia não recebeu nunca a tradição cultural, instrumentos de pensar, mas cultura pop norte-americana. Não que não haja movimentos culturais e grupos que tentam lutar contra a maré, mas o trabalho intenso, a falta de informação, heranças conservadoras e o ódio ao rebelde bem construídos no passado atrapalham qualquer efeito em larga escala. Sem informação, o modelo se torna uma celebridade que simbolize poder, liberdade e conquistas. Mas a vida real continua sendo trabalhar no shoppping, tomar ônibus insalubre e conviver com a violência. 

No Congresso, deputados falam como se estivessem em 1970. Falar sobre gênero é "ideologia". Matar criminosos é bom. Homossexualidade é perversão. Assim como para a maioria da população, as lutas das minorias são comunismo, invenção, bagunça, imoralidade. Dentro da bolha com ensino universitário, artistas e classe média leitora, são assuntos superados. Mas o fundamentalismo evangélico tem voz e a caneta na mão no legislativo. 

A massa acha mesmo que o sangue vai resolver o problema da violência.
Mas me surpreende mais a confusão de quem têm acesso à educação. Para uma certa classe a desigualdade não existe. Depois de ataques a tudo que eu postava num grupo de professores, descubro que um estudante de Direito rico vai votar na extrema-direita. Existe essa máquina da oligarquia espalhando bem a revolta contra a igualdade. Assim, se muda o foco e se ataca o Lula. 

Outro amigo, muito leitor e que tem acompanhado os jornais a vida toda, fala em defesa da reforma da previdência. Ele não teve acesso a nenhum dado crítico. 

Numa rede social, uma moça que vive fora do país diz: "Tudo é culpa da Dilma". Um atendente numa loja diz estar revoltado com a "reforma" trabalhista. "Mas não vou votar no Lula". Depois de um ano de ataque aos direitos fundamentais, isso é uma prova de como o mito televisivo entrou pele adentro e se tornou bio-poder. Nada pode mudar uma fantasia. 

Pela falta de expansão do conhecimento sobre direitos humanos, nosso povo tem a cabeça dos anos 1970. E o fundamentalismo evangélico reforçou esses preconceitos, transformando-se em máquina econômica. Essa disputa chega a cada conselho de hospital e parque e ao tratamento de dependentes químicos, para o que os missionários têm uma verba do Ministério da Saúde. 

A sociedade se movimentou depois das cotas e da expansão do ensino universitário (as universidades sendo gravemente atingidas por cortes e pelo sistema policial). Mas apenas 14% dos brasileiros teve acesso à universidade, assim como 60% nunca foi ao teatro. Nossa democracia controlada pelos milionários não pode dar muitas informações, com medo de ter de dividir o poder, mas sabe que o fascismo surgiu da miséria e da revolta baseada em preconceitos. Assim, vivemos "a democracia" em que abrimos mão do poder político, da decisão, enquanto ficamos sabendo do que será feito nos jornais e compramos produtos para cabelo. 

Num restaurante, assisto a programação da TV. Como fazer peru de Natal. Como cortar sua franja. A mesma TV que defende as mudanças mais absurdas do governo. Uma fábula que reescreve o mundo como paraíso do consumo no país mais desigual do mundo. Anos de falta de informação, da visão dos empresários passada diariamente, somados às formas digitais de manipulação, criaram uma massa amorfa pré-disposta aos slogans dos milionários e fascistas. 

Aliado a isso, vemos uma parceria entre nosso sistema jurídico e o de outros países, sem passar pelo executivo. A maioria dos juízes ganha acima do que permite a lei (cerca de 33 mil Reais). Num programa de TV vejo um juiz dizer que "temos de dizer não às modas, como o politicamente correto". Pensei que fosse necessário, num país onde todo homem livre estabelecido era traficante de escravos há 100 anos.

Nenhuma novidade nessa crônica do crepúsculo da nação, apenas a percepção mais aguda de que deixamos o homem medíocre tomar o poder e a população não tem meios de se defender, pois não sabe quem é e o que a atinge. Existe uma revolta, um campo elétrico vibrando, principalmente entre os estudantes ainda meio chocados por verem desaparecer qualquer perspectiva, assim como entre trabalhadores mais politizados. Ao mesmo tempo, a manipulação da votação e o bombardeio de propaganda pelas telas parecem ser mais poderosos.

A história não é estática, entretanto. A contradição, quando toca a pele, gera reflexão - Doria já tem 55% de rejeição na população negra em um ano. Agora, provavelmente caberá à repressão policial domar a crítica. Mas essa é a realidade. Nossa liberdade e representatividade podem muito bem evaporar entre os dedos do poder banqueiro e da massa auto-destrutiva. 

Afonso Junior Ferreira de Lima


quarta-feira, dezembro 13, 2017

K, o flâneur

K é um fantasma. Ele deveria ter uma meta, já que é personagem. Ele deveria ter obstáculos. 

K. circula pela avenida do cemitério. Os ossos foram enterrados sob a nova loja. Um acordo com a prefeitura. São fantasmas que ficam nas escadas rolantes. 

Presos na colônia penal. Sempre achava cômico a justiça como engrenagem de tortura. "O condenado era o mais animado, tudo na máquina o interessava". Condenado sem saber por que. 

K fica parado numa avenida, luzes, a pedra da margem, aguardando o fluxo de carros que não vai parar só porque tem uma faixa de pedestre. Os fantasmas são educados. 

Ele nasceu no gueto, a língua é outra lá fora. O herdeiro se mata, a imperatriz assassinada, o herdeiro assassinado. Ele conhecia o tempo morno e perigoso da espera. Ele quer jogar e viver a mesma vida de modo diferente todo dia. 

K foi ver a promoção do supermercado, euforia. A moça do caixa conversa sobre a nova lei do trabalho, diz que vai enlouquecer se contar dinheiro das dez da manhã às dez da noite. 

Ele gostava de pensar sobre o que se vê, mas não se entende. Ele pensa que é preciso não entender. Todos já pensaram em tudo pra você. A lei é apenas um horror a mais. 

O terceiro ato acaba sem conclusões. Ninguém melhorou. Ele também não aprendeu. Ele não sabe se, no fundo, eles não estão certos, a lógica implacável, a doutrina impecável, crescer e avançar, ele só sabe que o que pode é seguir sendo o que é. 

K vê o vidro subindo até o céu, as luzes na fachada, palmeiras, o jardim japonês, uma escultura decorada com luzes. K senta no teatro e observa as cadeiras vazias, o show vai começar. O protagonista é ruim, mas bonito. O rapaz atrás dele diz para a namorada que quer ir embora.

O maior dos pensadores, à golpes de martelo, como o burguês vitoriano comum, despreza o homem comum. Os "bem-nascidos", orgulhosos de si mesmos, desprezando a moral da compaixão, o desprezo e ironia do poderoso. 

O advogado K. Ele já era um fantasma antes de morrer. Lembra do enterro do avô, o castelo no monte. Ele sentia que Madame Bovary era ele, numa vida cinzenta. Ele pediu demissão por não poder escrever. 

K conta os famintos miseráveis pelo trajeto: na escada do metrô, sem sapatos na frente do supermercado, enrolado com um pano branco como uma lagarta, só de calção e com as costas curvadas por uma deficiência, com calças em farramos e cabelo desgrenhado e branco, etc. etc.

A cidade é feia, a cidade é a estrutura monstro, a cidade é construída pelo absurdo. "O que são os perigos da floresta e da savana comparados com os choques diários do mundo civilizado?” Ele já viu isso tudo antes. Está muito cansado. Ele sonha caminhando. 

Afonso Jr. Ferreira de Lima


segunda-feira, dezembro 11, 2017

Sobre "Assassinato no Expresso Oriente", o filme

Quando soube da nova versão do filme, imaginei logo que haveria um grupo de fãs daqueles que não querem um Poirot diferente, que não aceitam uma certa aceleração do ritmo típica dos tempos atuais, que acham que o livro tem de se repetir no filme, etc...

Mas jamais pensei que eu mesmo ficaria incomodado. O filme é alto astral, o diretor-protagonista carismático, a direção de arte sedutora, tudo funciona... E... Quando no texto se lê "um bigode enrolado para cima" e "um homenzinho de enormes bigodes", na tela se vê um monte de pelos grisalhos até a orelha, algo que não podia parar de me lembrar um cachorro.

O que sonhamos com esse tipo de filme não tem nada a ver com "quem fez isso?" (Whodunnit?) - tem a ver com um clima de nostalgia, a observação atenta de psicologias fugidias, a elegância irônica do detetive, a permissão da crença - aceitar o jogo, sabendo que é fantasia (e não a suspensão da descrença) - e a catarse com o fato de que as aparências podem ocultar uma estrutura invisível.

Quero esse trem e esse oriente porque quero outro modo de ver. O surto atual por coisas "de época" talvez seja porque queremos "quem fez isso" na sociedade atomizada, a história nos ajuda a duvidar - existe algo que nos foi ocultado.

Isso não casa bem com filme de ação. A aceleração do início é tamanha que eu fiquei sonolento... Um monte de coisas é coisa nenhuma. Pode ser que o caleidoscópio seja porque "as pessoas não vão aguentar duas horas em dois vagões", mas Lumet filmou 12 homens numa mesa... (Entretanto a maioria das pessoas com quem falei achou tudo justificável e aceito que vai sair satisfeita).

Infelizmente, o visual e o ritmo que deveriam modernizar geraram ruído: Poirot tem uns momentos Indiana Jones, corre atrás de suspeitos, tem pensamentos românticos e sua "esquisitice" é um problema Monk com simetria (só para ter um final engraçadinho). Lá se foi aquela lenta insinuação e apresentação que cria um clima. 

A fotografia incrível de Istambul e de Israel justificariam alguma mudança, mas nada explica uma cena inteira na padaria para mostrar os pães; o personagem do dono da companhia de trem (ou seu sobrinho!), que tem de ser agora um jovem galã; a extensão dispersiva de uma cena com um americano suspeito por que ele afinal é Johnny Deep, e não se vai convidar Johnny Deep para falar apenas o necessário. Ele não pode sequer mostrar uma arma (que está usando por medo, no livro) sem parecer um gangster ameaçador...

O resultado é que a introdução, que no filme de 1974 de Sidney Lumet, com roteiro de Paul Dehn, acontece em 30 minutos (até o assassinato), uma perfeita "apresentação de primeiro ato", nessa versão é um show de luzes longuíssimo. A narrativa ágil da escritora (onde cada palavra tem uma função na estrutura) ao mesmo tempo se estende e se picota numa edição nervosa...

Acho que as histórias de Agatha Christie são muito mais do que entretenimento ligeiro, são como Dickens domesticado, primeiro porque ela sabe exatamente o que quer e cria um cenário claro de modo absolutamente sintético (enquanto o próprio nos mostra mil texturas emocionais, ideias em oposição, cenários de ópera, nos mergulha em tantos universos nas mil páginas de seus fantásticos universos...). A força da concretude nos passa a mensagem de que é um ambiente autônomo, ela vai nos conduzir a algo que não sabemos.

A precisão das palavras e a clareza do universo nos lembra que a linguagem também oferece essas sínteses de mundo para compreendê-lo. É um alívio uma fotografia clara, porque outras sínteses coerentes com nossa experiência podem ser feitas e o mundo se torna menos confuso.

Essa certeza nos desperta o desejo de conhecimento, instinto de sobrevivência de saber mais sobre o mundo, porque pode ser que desconfiemos que, no fundo, conceitos são ferramentas de criação. Como diz Orham Pamuk, no seu ensaio, em nós vive o leitor ingênuo (que mergulha) e o sentimental (que sabe da ilusão). Ainda vale pensar se não desejamos entrar num outro nível da existência, menos ligado à respostas aos obstáculos, o relaxamento proporcionado por esse ser e não ser, que sabemos ser artifício, intriga, distância dos jogos de poder e da necessidade de linguagem funcional objetiva.

Por outro lado, usa um dos métodos humanos para conhecer - analisar percepções confusas e propor teorias. ("Poirot, interpretando corretamente o espírito inglês, sabia o que o outro pensara: 'Outro estrangeiro detestável"). Algumas vezes o caos de fatos visível e o paradoxo podem ser rearrumados com uma hipótese que os coloque em perspectiva: "O assassino era um homem de grande força, era fraco, era uma mulher, era destro, era canhoto..."

O sub-texto é algo fundamental nesse processo. As psicologias nunca são dadas senão por gestos, ironias, modulações de voz. Depois de um café da manhã silencioso como estranhos pouco simpáticos, um casal é visto murmurando segredos no corredor; a moça diz: - Quieto! Por favor, quieto! Poirot ouviu e "recordaria esse pensamento mais tarde". Não são dadas pistas para que você descubra junto (o método de Agatha é o "deus ex machina", ela sabe algo que você não sabe), mas ela pisca o tempo todo para o leitor e ele exercita continuamente sua capacidade de ler sinais ("as sobrancelhas de Poirot se levantaram"). É a diferença entre ambíguos olhares e cômicas caricaturas...

"É a psicologia que estou buscando", diz o detetive. De fato, a análise do caráter nos envolve. O personagem tem de manter o "possível assassino" e o inocente colocado sob suspeita. No filme de Lumet, Anthony Perkins faz o perfeito secretário "com algo a esconder", agitado e olhando furtivamente, mesmo que não seja exatamente o rapaz "direto e honesto" visto pelo belga no livro. 

"Não dá pra reclamar de falta de pistas nessa caso" - reclama Poirot. "Tal como acontece nos livros e nos filmes". Ele tem, na cabine onde o cadáver jaz, tudo aquilo que se oferece como "óbvio" - são lenços, um relógio quebrado, o limpador de cachimbo - e terá de negar a aparência para afirmar a realidade, um pouco como um físico moderno. Ele se apega a fósforos que podem ter queimado um "papel incriminador".

Mas nossa experiência da vida é assim, cheia de ambiguidades, tentamos entender o que ocorre e nos enganamos frequentemente. Poderíamos dizer que esses livros nos levam a uma acomodação quando a ordem é restaurada e a lei oculta é desvendada, mas a angústia de tantas personalidades sob suspeita, ambíguas, escorregadias, não é aplacada. Se esse homenzinho "de aspecto ridículo", que "ninguém jamais levaria à sério" não nos desse a esperança artificial e frágil da inteligência prevendo e regulando o caos, seriam livros de terror. 

O humor do livro também aparece pouco no filme, ou seja, as frases cortantes e rápidas (por exemplo, o secretário do misterioso americano confunde Poirot com o costureiro francês Poiret); ou eu deveria dizer o contrário, que o filme vende desde o início um clima de disneylândia anos 1930, que nos faz rir com um conde ninja, perdendo o realismo mais profundo. O ceticismo e a crítica fina da pretensão, da selvageria, mergulham na névoa dessa elegância. O show não pode parar... 

Em 1974 temos pelo menos duas piadas muito engraçadas. Aqui tudo está meio ofuscado pelo brilho. Judi Dench, um fantasma de bastidor, merecia mais se seu personagem é uma princesa que fala num "tom claro, cortês, mas completamente autocrático".

Branagh acerta muito ao dar ao olhar o presente sugerido como neve, mar, catedral e orientalismo. Mas ele também foi quem colocou Hamlet num castelo branco do século XVIII só para ter o prazer de dizer "não ser" em frente a espelhos.

Nabokov, analisando Madame Bovary, vai nos dizer que colocarmo-nos no lugar de um e outro personagem é algo infantil, um modo emocional de ler mal; talvez a realidade mais crua seja que desvendar as pistas do jogo social (ou cósmico) seja a nossa experiência como espécie desde a luta contra os mamutes até o ler do mapa da cidade de Balzac.

Talvez Nabokov explique mal a personagem por sua leitura errada e Flaubert explique mal a mulher que se matou depois do adultério; a própria teia romântica que "explica" a morte de Bovary por sua alma de donzela medieval venha do fato de que os homens precisam atribuir a liberdade das mulheres a alguma influência hipnótica externa irresistível: aos livros. Talvez não seja a identificação, mas o ódio que tenham levado ao suicídio da verdadeira Bovary. 

Claro que o filme é agradável e a maioria das pessoas vai sair contente. Agora, não custa perguntar o que faz um romance policial entre o crime e o "foi ele". E a resposta é: nos fala de história, nos apresenta as sombras, investiga um mundo. Do capítulo 1 ao 13 da segunda parte do livro, temos depoimentos. Não seria possível aqui "apenas entrevistas"; não estamos tão focados nesse crime, a direção de arte parece nos atrair mais. Por sorte, o ritmo melhora depois da apresentação frenética e, se esquecermos o bigode Shih Tzu de Kenneth Branagh, podemos mergulhar nesse sonho. E o filme começa a andar quando o ritmo serena. Por fim podemos nos deliciar com essas personalidades (mesmo que sem as sutilezas e sem conseguirmos definir tanto cada um).  

É evidente que um filme não vai chegar nos detalhes como um livro, ainda mais um desses que analisa motivo, álibi, circunstâncias suspeitas para cada personagem. Mas talvez a tensão dos anos 1930 tenha se diluído na mítica BritâniaTur. Mesmo sendo competente, parece que uma trama que encobre uma visão sobre a vida pode ser uma visão de mundo em que a trama bem feita quase desvenda tudo, a começar pela Michelle Pfeiffer fazendo Michelle Pfeiffer. 

Apesar disso, no fim o filme é muito bom e agrada. Talvez eu esteja apenas um nostálgico das análises detalhadas em trens parados no tempo, um crente na complexidade humana...

Afonso Junior Ferreira de Lima

terça-feira, dezembro 05, 2017

Prêmio Biblioteca Nacional - Ensaio literário


domingo, dezembro 03, 2017

Uma aquisição

O governo havia decidido liberar partículas de sulfato no ar para imitar os efeitos resfriadores de uma imensa erupção vulcânica e colocar milhões de pequenos espelhos no espaço para desviar a luz solar; os efeitos ocorreram em cascata e o departamento de jornalismo da TV de um conglomerado começou uma série de reportagens.

- Eles querem semear o caos, diz o presidente. Mudar o sistema de transporte e a geração de energia é inviável.

Mas os jornalistas são ameaçados pela direção da emissora.

- O senhor está me dizendo que eu devo seguir sua recomendação política?

- Não seja ridícula. O capitalismo é isso. 

- Faz tempo que nós somos propaganda.

O governo oferecera aos acionistas mudar a lei. Um mesmo grupo não podia ser dono de mais de uma rede de TV.

Agora os jornais estão em silêncio. A mídia diz que a rede adquirida pelo grupo não poderia seguir sem apoio e não pode ser fechada, ela é que mais espaço dá às minorias excluídas da programação das grandes redes.

Afonso Junior Ferreira de Lima

quarta-feira, novembro 29, 2017

A republica bíblica

Prostitutas desapareciam pela cidade. Momai recebe um envelope com um mapa.
Os nomes de políticos ao lado de lugares dos assassinatos. Toma café com o jornalista.
- Eles podem ter tido relações com essas mulheres? - pergunta.
- Sim, e espero que você lembre da corrupção. Nos últimos anos, nos jornais, vários políticos sendo presos. Presos antes do julgamento.
Momai lembrou dos acordos de parceria internacional. Foi logo depois da crise, a prosperidade da globalização parecia ficção.
O jornalista começou a investigar a vida do promotor. Hackers atacavam páginas de jornalistas. Sites espalhavam pelo país críticas aos intelectuais, aos artistas, aos direitos humanos. Juízes julgavam de forma muito pessoal.
Enviou uma foto dele em um iate junto com pastores milionários da TV.
Momai descobriu que o promotor participava de um grupo de estudos sobre a Bíblia nas quartas à noite. Lá, soube que, no Congresso, havia um projeto de lei para voltarem os estudos bíblicos na escola. O promotor refere-se a sua sobrinha desaparecida. Momai investiga a família e descobre que a moça foi sequestrada e morta há vinte anos.
Momai troca de identidade. Foi contratado como jardineiro na casa do pastor. Dois meses andando por ali, observando, ouvindo. Viu o promotor descer uma escada um tanto escondida. Ele mergulhou nos arquivos secretos no porão.
Houve um momento em que uma divisão surgiu. A facção política foi criticada. A sobrinha duvidou sobre a presença das forças satânicas no mundo. A republica bíblica precisava de uma só voz.
- É uma questão de fé. A esquerda é anticristã e os comunistas são contra o símbolo do eleito, o dinheiro - diz o jornalista por celular. Alguém pensa que deve punir "os esquerdistas" e as mulheres que eles tiveram. Eu estou deixando o país. Um amigo me avisou de que a polícia esteve lhe procurando.
- Talvez ele tenha matado a divergência - diz Momai.

Afonso Junior Ferreira de Lima

terça-feira, novembro 28, 2017

No quintal

Na mesa, discutia-se a justiça.
A família era de procuradores, advogados famosos, juízes, professores.
O almoço no quintal ao domingo era sempre um debate.
- Voltaram com festa - diz o pai. Mas nos registros, sua perna machucada não constava. Nada receberia.
- Que triste - o estudante de Direito filho responde.
Comiam linguiça aos pedaços.
- A pobreza do herói. Arrasta sua perna para o trabalho.
- Eu acho que, tecnicamente, estavam certos - disse a filha procuradora, ajustando os óculos de aro negro e balançando os cabelos em cachos perfeitos.
- Mas nós somos apenas técnica?, pergunta o filho advogado brilhante.
Um pássaro parece responder com um grito.
- A lei era racista -  a mãe juíza fala. Sua pátria os desprezava. Eles dançavam com mulheres brancas. Os soldados os atacaram com socos. Uma prostituta gritou: - Aqui não é Chicago.
Cheiro da carne no ar.
O pai conta que eles haviam sido trazidos para enterrar os mortos.
No exército francês foram aceitos como soldados.
O fogo inimigo. A condecoração.
- Ele morreu na miséria, diz o pai. Se a realidade é a nossa percepção, a casta não pode nos cegar? - pergunta o pai.
- Que triste - diz o estudante filho.
A empregada serve mais vinho e avisa que o churrasco está pronto.

Afonso Junior Ferreira de Lima



terça-feira, novembro 21, 2017

O leitor

Nunca saiu da minha mente essa imagem: o homem no seu terraço em frente ao rio, no qual passa um lento barco com sua luz amarela, o homem lê seu "Dom Quixote" buscando a solução para algum problema.

O passado somente não cria (nem o novo sem origem). Quando os amigos criticam seu romance de época, depois de dias de leitura incansável, dizem que deveria escrever mais como a "reprodução exata da vida", sobre um suicídio comentado, história de dívida e romance adúltero. "Olha, por que não escreve sobre o caso de madame Delaunay?"

Problemas da representação. O leito azulado e a noite sem lua. O que ele observa é todas aquelas histórias que já não refletem senão um hábito. O mundo da representação é loucura da leitura.

O velho leitor que lê mal e alucina como herói, com torneios, lanças, castelos, aventuras. Todo senso comum como ciência. O idealismo como império. A realidade como prisão da ficção. Os livros que não formam entendimento. A fome humana por transcendência que se torna má coleção.

Ler para conhecer, como pesquisa, sede de aventura. Ler porque se duvida. Ler por instinto. 

A angústia, a invasão: "Sinto ver as coisas falsas". Ele pensa sobre a clareza poética, a irrupção instantânea da memória, a alucinação tão necessária. "Eu sou Emma", porque tudo é fantasia e ironia, indústria e belas-artes na servidão, funeral da civilização.

Alguém fala, outro copia. Ser escritor, entre o colecionador e o cientista. Ele seria capaz de ler 1.500 livros para preparar um romance. Parece que ele grita as assonâncias e repetições no jardim, quer saber se a prosa tem poesia. 

A tradição era repetir as mesmas perguntas. Os falsos sábios pareciam não ter respostas para a crise, mas tinham púlpitos, narravam conceitos, velhos mestres, opressão da reprodução, duplo fantasmagórico, demoníaco, repetir.

O homem no seu terraço, o livro sobre livros. O professor, o juiz, o dono de comércio que são "bons" e não precisam duvidar de si mesmos. Podem esconder tudo que perturba numa crítica autoritária aos rebeldes. Sempre em movimento, sempre acumulando, não querem opiniões estranhas, apresentam isso como a defesa da moral.

O abandono do ascetismo levou ao materialismo vulgar e o próprio julgamento do livro é uma tentativa de nunca mudar a visão romanesca de si mesmo, de que se "pisa o pó de heróis", de que grandes homens e ideais humanitários se ocultam na aparência de filisteus preocupados com seus negócios.

A abstrata aventura das vidas agitadas e dos prazeres violentos (o que foi roubado como decoração) são o reflexo opaco de um acúmulo mesquinho de luxos dos sentidos. O mar, montanhas, música, todo o supostamente poético, paisagens que nos levam a rezar e campos com donzelas e adultérios, tudo evita que vejamos quem somos e o que realmente é desconhecido. 

E quanta dificuldade para expressar e lidar com sentimentos. E quanta opressão dentro das instituições, "crianças institucionalizadas", tristes, sozinhas juntas. 

Ler errado o mundo. Mesmo o advogado parece ter lido errado: “o livro mostra a autoridade imprudente de um pai que decidiu mandar educar em um convento uma garota nascida na fazenda e que deveria casar-se com um fazendeiro ou um camponês”. 

Ele lê o "Dom Quixote". Escreve: "Na alucinação pura e simples podemos perfeitamente ver uma imagem falsa com um olho, e os objetos verdadeiros com o outro. Aliás, é justamente esse o suplício”.

Afonso Junior Ferreira de Lima

segunda-feira, novembro 20, 2017

O primeiro

A história foi removida. Ela está atrás de uma neblina espeça. Busco imagens.

- Mais de 300 já foram presos, você será preso.
Não se podia distribuir panfletos. Jogavam nas fábricas, polícia não podia ver.

A fábrica entrega seus funcionários para o regime. Espancados. Um homem recebe inseticida nas veias. O Nelson. O salário veio menor. Sobe na mesa e discursa. O chefe coloca o revolver na cintura. Na rua, é despedido. Aponta o revólver. Dois tiros.
Já eram várias mortes.

Greve geral.

O padre chega na delegacia.
- Não morreu.
- Nós vimos.

A fábrica e o protesto pelos salários. A polícia chega. Tiro nas costas.
O primeiro corpo.

O delegado volta. Sim, estava morto.

Trabalhava 10 horas por dia, sai de casa às 4 da madrugada, já levavam roupa, caso fossem presos.
A esposa vai trabalhar. Chovia muito.

- Seu marido foi ferido, vamos para o hospital.

O padre pede para orar - evita que desapareçam com o corpo.
Policiais dizem que ele era um mau elemento, tinha que ser eliminado, era vagabundo.
Querem levar para IML, caixão de ferro, a mulher entra junto no carro da polícia.
- Desapareçam com isso!
- Não vão sumir com ele!

Cano curto para o trabalho. Acusa a vítima. Ele iria depor naquela semana sobre a morte de Nelson.

A fábrica foi demolida. Uma placa na calçada. O síndico do condomínio removeu.

A realidade como sonho. O passado como pesquisa.

Afonso Junior Ferreira de Lima

Para sempre

O homem alto e forte está sentado no banco. As lojas têm músicas animadas. O mar é um vento salgado e um ruído longínquo. O jovem ouve "I will survive" no walman e carrega um livro, Jung. Seu rápido olhar avalia sentar no banco - camisa xadrez, bermuda, palmeiras selvagens, um monte - e abrir o livro e diz talvez devesse deitar em seu colo e dormir. O homem tem grandes olho verdes, queixo quadrado e levemente esverdeado. Dentro da loja esportiva, um outro rapaz conversa com a dona.
*
Pelo telefone combinam. O outro diz estar excitado. Foi o primeiro dinheiro que ganhou.

*
Ônibus pela noite, por que foi esquecer a água? Vê os fios escorrendo pela janela. Quer pega com a língua.

*
A salada magnífica, beijos, no mar, o passeio delicioso. Você parece assustado, ele diz.

*
Ele comprou ovelhas. Ele não sabia nada de ovelhas. Nunca poderia matá-las. Ele mudou de país.

*
Eu tinha uma enorme auto-suficiência. A natureza era algo sagrado. Nunca imaginei pedir permissão a ninguém. Por sorte, havia filmes, havia revistas, havia Platão. Mas podia saber que não era normal, não era recomendável, não era possível para muitos. O colega alto e rico que zombava; o colega gordo e arrogante que falava entre os dentes. As autoridades de um colégio católico. Havia um vasto campo cheio de ideias antigas e perigosas. Eu sabia que meu pai achava isso apenas coisa de mulher.

*
As amigas riem. Elas lhe devem dinheiro. Não sabem como pagar. Ele, no fundo, está bravo.

*
Caminham nas dunas. Parece agora que não é um hipogrifo. Jantam na casa de amigos. Os homens lhe olham com um olhar que nunca havia percebido.

*
Uma piada na TV sobre amor e ele ri. O outro vê que está secretamente planejando muito.

*
Não seria para sempre. Ele diz que não podem mais ficar juntos. Está sozinho. O cão percebe que seu mundo ruiu e coloca a cabeça no seu colo. Ele sai para caminhar. Liga para casa. A avó atende. Tenta não chorar. Caminha em direção ao ônibus. Liga do terminal. Mas e suas coisas? Fique com elas.

Afonso Jr. Lima

domingo, novembro 19, 2017

a criação do mundo

nada criação
anoto o que passa
os seres no palco escuro
novos modos de ser das flores
deixo as palavras construírem seu mundo
eu pós-produzo, eu coloco sobre a mesa
o que me contaram, o que não me contaram
eu sento na casa de chá e observo o jardim
águas agora no mar comum da língua
o amar a areia e folhas e a casa assim erguida
eu não sou uma boa pessoa viajante no barco
apenas recolho e apresento
do livro antigo e do tempo de luta
rosto que sofre e rosto que repensa
uso vozes e invento máscaras
chegando a Jiao Jiao, a mesa com gigantes e anões
as ruínas arrastadas, mas também os sorrisos
os seres imortais que cantam Sol e Lua
vejo as ilhas nas costas das gigantescas tartarugas
eu sei do outro eu, ambição, espalha-se como fogo
no reino da névoa, vigias por todos os lados
escalo a Via Láctea
produzo máquinas de dúvida novidade
eu sei da sombra, animal recolhido
aos poucos acordo e entendo
ver no mundo da ilusão
eu absorvo o que me contam os fantasmas
faço gestos loucos
a música em que tudo vibra
andaimes aqui, ilusão amiga
terra aberta, semente úmida, madeira e pedra
sei da verdade frágil, da mentira fixa
o povo de Jiao Jiao, ouvindo gigantes e anões
são sons para Sol e Lua
as gigantescas tartarugas alimentam-se de ar
não sou tão imaturo a ponto de ser alguém
romper o silêncio, dar nomes ao ilimitado
sei que o mundo aplaudirá o que já morreu
nada permanece, parar o tempo
o tempo de um novo som nunca será o agora
a luz na escuridão, a noite do dia
deixo que cada ser apresente seu testemunho
apenas recolho e ofereço
eu sigo em frente

Afonso Jr. ferreira de Lima





sábado, novembro 18, 2017

A fuga

Na véspera da fuga, tendo comprado o guia as renas e as peles pra enfrentar a neve, ele começou a parar de fingir-se de doente e procurou o chefe da guarda pra avisar que poderia seguir viagem para o norte. 

O funcionário o convidou para uma peça de Tchékhov. A civilização ainda existia, afinal. 
A peça tinha tido uma estréia pouco favorável e sido responsável pelos sete anos que o autor ficou sem escrever para o teatro.

Oito anos depois, ele a remodelou, tirou metade dos personagens e mudou o final de suicídio para homicídio fracassado. 

Também trocou seu nome de "O Demônio da Madeira" para "Tio Vânia". 
Partiu de noite, e a jornada através de nevascas, sem comida, sem água e sem dormir, esgotou as renas, que morriam. 

O fugitivo, quando parava em cabanas de nativos, pensava por que motivo Tchékhov tinha partido para a Sibéria em 1890, comendo apenas pão, alho selvagem e chá ruim. Foi logo depois do fracasso da peça, contara o funcionário. A maior colônia de trabalhos forçados da Rússia. 

O mundo de Tchékhov já tinha morrido, mas insistia em seguir vivendo, e agora, no julgamento, ficara provado que os terroristas do grupo Cem Negros haviam sido organizados pela polícia política do czar. Pós-vida como terror.

Ele lera, deitado em sua cama, na prisão, todos os clássicos europeus, recebia todos os livros novos, o romance francês moderno. Sua cela era chamada de cela-biblioteca. 
"Por favor, mergulhe no lago, mesmo que seja para se afogar. Consiga para si mesma alguma experiência vital". 

O médico havia escrito tudo aquilo num país em que as cidades nasceram apenas como fortalezas militares e só 13% da população era urbana. Seu avó vivera escravizado. 
"Mergulhe no lago". 
Ao seu redor, os bosques iam se aproximando, os lobos deixavam suas pegadas na neve, os aldeões comiam o peixe vivo em suas mãos. Finalmente chegaram no ponto extremo da estrada de ferro. Os outros condenados chegavam ao círculo polar. 

Afonso Junior Ferreira de Lima

quarta-feira, novembro 15, 2017

como nós

Eles não são como nós
O que ficou também não é igual
o café na xícara
a panela na cozinha
os livros marcados pela metade
que a estrada não comporta

Nós não somos como eles
o que levam também não é igual
medo e a noite de uma criança
muro ou edifício do primeiro beijo
esperança ou céu e orações

mortes em pedra que ficaram sem visita
o sangue que nunca será lavado
o que não cruza as pontes e o silêncio conta

Na estrada, fugindo
na memória, que escoa
no tempo de incertezas
somente os pés na terra
como nós

Afonso Junior Ferreira de Lima



sábado, novembro 11, 2017

ataque: frágil

a agressividade do café da manhã
tão frágil e arrancada cedo
o ataque rápido e o sangue lavado do chão
batem à porta
são os carrascos armados de palavras-bomba
corpo alvejado enquanto florescia
pé atado na árvore, vento contaminado
o nosso novo país nunca deixou
a planta riscada no plano
meu tempo não é de utopias
é de enterro de ossos
as pessoas lembram seus sonhos ressecados
esperanças e verde não nascido

pássaro como metal cego no alvo
viagem como esquecimento para ilimitado mesmo
neve em cada broto que ameaça a dor perene
meu povo já conheceu o sangue
a fome que desfigura toda noite em desespero
os prédios já ruíram em bombas bem calculadas
o vácuo das indizíveis angústias
o sorriso se tornou fileira de facas prontas para o massacre
soneto de lágrimas
gaivotas sem mar
rua cinzenta, passos medrosos
barcos que duvidam do céu
meu tempo não é de raiva ou risco
é cálculo de ossos

Afonso Junior Ferreira de Lima

domingo, novembro 05, 2017

A cooperação

Vejo uma foto. Eles regressam de Weimar. De farda, à esquerda, o general encarregado da censura. De chapéu, o escritor mais furiosamente colaboracionista. O editor do jornal pró-nazista, depois fuzilado, está ao seu lado. O diretor do Instituto que financiava escritores na direita. Ao mesmo tempo, mais de um milhão de soldados eram mantidos prisioneiros na Alemanha.
Ele escreveu que o homem trabalhador e o o pequeno negociante foram mais ajudados por Hitler que por Stalin.
O editor não só publicou seus panfletos, como também estava trazendo literatura racista para a França. As editoras de propriedade de judeus foram logo arianizadas. Galerias de arte, apartamentos, obras de arte também foram roubadas.
A nova lista de livros proibidos tinha 142 títulos. Seus manifestos racistas venderam 40 mil exemplares.
"Se não é uma piada, ele está louco", disse um escritor amigo.
Sua amiga, a atriz Arlette, insistia que aceitasse subsídios do Instituto Alemão. Seu amante, oficial da Luftwaffe dizia não compreender sua recusa, se ele era o mais inovador literato do país.
Sua ferocidade era até mesmo criticada pelo nazista responsável pelo Escritório de Literatura.

Ele diz estar sendo ameaçado pela resistência, pede porte de arma ao governo, é atendido.
Havia mandado moedas de ouro para fora do país, mas elas foram confiscadas pelas autoridades.
"Vocês não percebem quem são seus amigos? Os judeus nos devoram, eles querem tudo, e vocês me roubam"? No momento em que crianças judias eram enviadas aos campos.
Na homenagem ao escultor favorito de Hitler no Museu Rodin, tirou fotos com os oficiais nazistas.
- Gostei de sua resposta à questão "os judeus devem ser exterminados"? - disse Arlette -"Não bastam os meus 3 livros"?
- A prova de que o judeu é um mal reconhecido universalmente é que o senhor já os odiava antes da chegada do Reich, disse um oficial.
- Meu pai odiava judeus. Dreyfus é o símbolo de nossa desgraça - disse o escritor.
Num jantar com o alto escalão alemão, faz comentários críticos à Hitler. Sua amiga, a pianista Lucienne, nazista convicta, consegue contornar o mal-estar geral.
Mas os ventos mudam. Os aliados dos nazistas deixam o país.
Sua amiga pianista foi para a Alemanha tocar para os exilados.
Escreve-lhe:
"Desejo partir o quanto antes, antes que Paris seja bombardeada".
Ela o recebe uma semana depois, e partem juntos para a Dinamarca, onde vive por nove anos.
Seus livros estavam no topo da lista de obras proibidas.
Enquanto isso, escritores colaboracionistas foram encarcerados.
Faltava comida e aquecimento. Os artistas não fugiam mais do fascismo, poucos fugiram do macartismo, os negociantes de arte estavam se mudando.
Seu novo livro é publicado em 1951.

Afonso Jr. Lima



sábado, outubro 28, 2017

da escravidão

Poeta, não tenho a rima, mas o sonho teu por liberdade e
república, o sofrimento do meu povo, tempestade e raio
e exótico desejo de justiça
história que explica, lei que afirma, país que repete
escravidão
quero essas asas
ser irmão do escravo que trabalha

Supermercado vendendo sanduíche
o salário não atinge o filho quer mochila
mudando tudo a aurora mais escura
alguém precisa comprar barato e vender caro
preciso comprar água, preciso comprar sangue
comprar é a alma do mundo

os direitos do povo usurpados
um dia novo e tão velhas correntes
sonhar com outro mundo
navios em terra em telas e no crânio vazio
não é minha a aurora, noite e dia, o mar
quero essas asas
tua arma é a poesia


Afonso Junior Ferreira de Lima


sexta-feira, outubro 27, 2017

Nada

A urgência de não fazer nada.
A pedra que cai bem no fundo.
Nada além de ser.
Para saber que eu sou.
O ritmo da chuva.
Silêncio e não fazer nada.
O caminho do imóvel.
O espaço do nada.
Quero não querer.
Os pingos caem no chão.
A árvore floresceu rompendo o dia.
Para saber que eu sou.

Afonso Junior Lima

domingo, outubro 22, 2017

Gender Free

Eles me chamavam de bichinha e o professor quase ria com eles.
Eu não demonstrava interesse em nenhum gênero, na verdade.
Apenas não queria nenhuma semente de homem em mim, para fazer nascer minha virilidade.
Meu pai me olhava com desprezo por eu não querer um mestre másculo comigo, mas eu achava que podia ser meu próprio mestre, só porque tinha curiosidade suficiente.
Esse jovem delicado estava interessado em desenho e ficava horas inteiras observando a natureza.
Na realidade, eu me apaixonei platonicamente por uma colega, mas ela sequer podia imaginar romper nosso código rígido. Nosso professor da quarta série tinha avisado sobre os perigos do "afeminamento" dos beijos heterossexuais.
Um dia, deixaram no meu livro um panfleto "gender free". Era um lugar longe da cidade.
Fugi.
Uma vila incrível. Muitas flores, o moinho, trabalhávamos no campo e nas oficinas, andávamos à cavalo, caçávamos.
Ambos os sexos faziam as mesmas tarefas e não havia nenhum culto à força, ao falo ou à competição. Mulheres mais velhas eram as líderes, e eu pude até beijar duas garotas da minha idade. Eu me tornei íntimo de outro jovem, Tíron, e dormíamos abraçados como irmãos. Comecei a pintar telas e encantava à todos com as paisagens que fazia.
Mas o que aconteceu?
Depois de um tempo, percebi que vivia numa prisão. Eu estava sendo treinado.
Um dia, fui lavado até a sala da coordenação e me disseram que eu devia seduzir e matar um oficial do primeiro escalão, responsável pelo controle da formação sexual com os mestres.
Eu pensei muito em como sair do reino dessas mulheres dominadoras.
Por fim, coloquei fogo na casa e consegui fugir.
Troquei meu nome, achei um companheiro, me tornei advogado e lutei pelo direito dos homens de escolher sua iniciação sexual, livres de preconceitos.

Afonso Jr. Ferreira de Lima

sábado, outubro 21, 2017

Uma nova paz universal

Estou deixando aqui o começo.
A humanidade é a melhor máquina.
Eles chegaram num dia de primavera, foram recebidos com flores.
Os chefes de governo fizeram discursos.
Eles convidaram a todos para uma recepção.
Nunca mais se ouviu falar deles.
Os novos líderes buscaram parcerias.
Começaram campanhas pela TV e celulares: "Uma nova paz universal"; "Prosperidade com trabalho"; "A nova vida da humanidade".
A cidade grande ficou por algum tempo livre dos toques de recolher e dos estupros.
Logo, as casas foram ocupadas por eles, nós fomos transferidos para regiões ermas.
Livros e tecnologia foram proibidos.
Os homens saudáveis eram recolhidos e levados a campos de trabalho.
Em cinco meses, a humanidade havia sido reduzida à animais de tração.
Idosos e fracos foram transformados em adubo.
Eles explodiam porções gigantescas de terra, extraindo dela o que precisavam no seu planeta.
Nunca antes eu havia imaginado o quão rápido você se torna um objeto se é tratado como um objeto.
Comemos uma espécie de ração, muitos morrem por intoxicação alimentar.
Aos humanos do futuro deixo essas palavras.
Lutem, se puderem, pela liberdade.

Afonso Junior Ferreira de Lima


segunda-feira, outubro 16, 2017

O crime perfeito

Investigador
Aqui estou eu, buscando alguma coisa que dê sentido à essas impressões efêmeras, criando hipóteses, acreditando que as coisas se repetem como antes. O crime tinha sido cometido, mas podia piorar.
Não era como aqueles agentes antigos: alguém tinha que levar a pessoa a um lugar numa certa hora.
Eu estudara isso na feira de ciências, fizera maquetes. O que eu vira era monstros capazes de matar rápido. Agora, metal retorcido, tetos desabados, ondas violentas. Uma cidade em perigo, um animal extinto. Aquelas fotos contavam uma história. 

Crime
Assassinato. A molécula de metano absorve 23 vezes mais os raios infravermelhos que uma molécula de gás carbônico, 8.100 vezes mais uma molécula de CFC-12 da geladeira. Tinha a ver com carvão negro que entrava nas plumas dos pássaros em 1900. Progresso como corte. O nitrogênio, plantas e animais morrem, exagero, eutrofização, a água irreconhecível. E interações complexas, carros, concreto quente, pasto, madeira, investimento no mercado dos combustíveis fósseis, lucro. 

Vítima
Florescendo no outono. A fenda no gelo. O gelo cobre pouco os Alpes. A água quente destruindo corais. Deserto novo. Abandonaram as casas. Máscaras para respirar. Algo no centro disso tudo. Um pensamento. Mistério. 

Afonso Jr. Lima 

sábado, outubro 14, 2017

Livro: "O Jovem Stálin" - Simon Sebag Montefiore


Sobre fascismos e heranças


O cancelamento da exposição contra a homofobia e o boicote contra o blackface numa peça são a mesma coisa?

Nós só podemos pensar assim porque nunca fomos parados pela polícia, discriminados em uma loja ou perdemos um papel por causa da pele.
As questões são opostas: 1) como um grupo no século XXI deixa passar essa (fiquei chocado quando vi o personagem de uma empregada com o rosto pintado de preto) X como o conservadorismo ainda vê a arte como deformadora social ou pedagoga como no século XIX.

É como se todo personagem brasileiro fosse Jeca Tatu, toda mulher burra ou todo latino traficante. Aquilo que aprendemos entre iguais será questionando quando diferentes fazem parte da sociedade, mas o oposto é o fascismo.
Não havia nem um toque de ironia na peça: o personagem podia dizer assim: vou pintar meu rosto de preto porque esse é o lugar de um negro numa sociedade racista.

Penso assim: o conhecimento sobre a máscara negra na commédia dell arte é bem específico. Eu por exemplo, só tenho como referências o que me fez pensar: meus zeus, por que a empregada tem de ser negra?
O negócio é que na cultura existe esse dado herdado de racismo sando esse símbolo.
Não adiantaria apenas dizer: vou usar suástica porque na minha opinião não é antissemitismo.
A questão é, como esse debate não chegou até a esfera pública?
Outra questão: se você me disser que algo que eu fiz te ofende, pedirei desculpa. Isso significa que você é alguém, que seu ponto de vista é válido.
Mas por que eu poderia dizer: não, não é isso?

Outra coisa é a censura com a invasão da exposição no espaço cultural do banco. A arte, depois de anos de autonomia estética, recusando-se a retratar a elite, o passado heroico, o sagrado e depois algo além da própria imaginação, volta a buscar diálogo com o político e o histórico. E os preconceitos nunca questionados se tornam fomento para raiva punitiva. A arte contemporânea exige um contexto histórico: ou um mictório seria só um mictório. O que a ditadura fez: núcleos de pensamento em mares de desconhecimento. Uma vanguarda cosmopolita num cosmos de repressão. A revista M do jornal Le Monde publicou sobre os casos em Porto Alegre e no Rio:

“A interpretação singular destes trabalhos artísticos é o resultado de uma campanha promovida por grupos ultraconservadores onde se encontra arraigado o prefeito do Rio de Janeiro”, analisa a revista. “Na origem disso, um vídeo, filmado por um visitante da exposição patrocinada pelo banco Santander em Porto Alegre (...). Visto mais de um milhão de vezes, o filme amador ‘Exposição criminosa, Santander criminoso’ mostra as obras acompanhadas de comentários como ‘que porcaria’ ou ‘depois de destruírem o gênero, eles atacam a família". 
http://br.rfi.fr/brasil/20171013-censura-no-brasil-e-apoiada-por-extrema-direita-nostalgica-dos-militares-diz-revista

Como reagir? Em 1936, a Frente Popular, eleita na França baniu as ligas fascistas. E nós? A própria estrutura segregacionista de cidade e do modelo (bairros-bolha, sem espaço público, sem educação, sem mídia alternativa) forma essas ilhas conservadoras em que "posição" é incentivo ao ódio, preconceito e raiva do privilegiado. "Expressão" não pode ser recusar o mundo moderno.

Através da ação penal 470, que recebeu a marca de "mensalão", criou-se a revolta moralista que tirou a esquerda do jogo no Congresso e prefeituras. Mesmo eleita, Dilma ficou inoperante. O outro fim do estado vem agora. O que parece mais louco nesse boicote é que a indignação é sobre "a sociedade financiar coisas que ela não aprecia" (justamente, a sociedade já avançou e quer reconhecimento e a exposição estava recebendo em torno de 700 pessoas por dia numa cidade de 1 milhão e 500 mil pessoas). Se as discussões sobre direitos humanos e arte não chegaram ao grande público foi justamente por falta de poder público, organização e planejamento (a arte é fomento, divulgação, educação). 

Se o "dinheiro público" é usado é justamente porque estender as bases de uma República, tolerância, diálogo e reflexão, somente é possível através de um "interesse geral" e não privado (deixemos de lado aqui a questão da Lei Rouanet ser renúncia fiscal como marketing das empresas). É aí que eles entram. Retirando-se o governo, ficam apenas os que podem mais e os que podem menos e seus ódios paroquiais. Os herdeiros em posições de comando, que estão lá por oportunidade e não por excelência, numa sociedade injusta, vão nos governar. Acaba a República.

Afonso Jr. Lima