Páginas

segunda-feira, outubro 16, 2017

O crime perfeito

Investigador
Aqui estou eu, buscando alguma coisa que dê sentido à essas impressões efêmeras, criando hipóteses, acreditando que as coisas se repetem como antes. O crime tinha sido cometido, mas podia piorar.
Não era como aqueles agentes antigos: alguém tinha que levar a pessoa a um lugar numa certa hora.
Eu estudara isso na feira de ciências, fizera maquetes. O que eu vira era monstros capazes de matar rápido. Agora, metal retorcido, tetos desabados, ondas violentas. Uma cidade em perigo, um animal extinto. Aquelas fotos contavam uma história. 

Crime
Assassinato. A molécula de metano absorve 23 vezes mais os raios infravermelhos que uma molécula de gás carbônico, 8.100 vezes mais uma molécula de CFC-12 da geladeira. Tinha a ver com carvão negro que entrava nas plumas dos pássaros em 1900. Progresso como corte. O nitrogênio, plantas e animais morrem, exagero, eutrofização, a água irreconhecível. E interações complexas, carros, concreto quente, pasto, madeira, investimento no mercado dos combustíveis fósseis, lucro. 

Vítima
Florescendo no outono. A fenda no gelo. O gelo cobre pouco os Alpes. A água quente destruindo corais. Deserto novo. Abandonaram as casas. Máscaras para respirar. Algo no centro disso tudo. Um pensamento. Mistério. 

Afonso Jr. Lima 

sábado, outubro 14, 2017

Livro: "O Jovem Stálin" - Simon Sebag Montefiore


Sobre fascismos e heranças


O cancelamento da exposição contra a homofobia e o boicote contra o blackface numa peça são a mesma coisa?

Nós só podemos pensar assim porque nunca fomos parados pela polícia, discriminados em uma loja ou perdemos um papel por causa da pele.
As questões são opostas: 1) como um grupo no século XXI deixa passar essa (fiquei chocado quando vi o personagem de uma empregada com o rosto pintado de preto) X como o conservadorismo ainda vê a arte como deformadora social ou pedagoga como no século XIX.

É como se todo personagem brasileiro fosse Jeca Tatu, toda mulher burra ou todo latino traficante. Aquilo que aprendemos entre iguais será questionando quando diferentes fazem parte da sociedade, mas o oposto é o fascismo.
Não havia nem um toque de ironia na peça: o personagem podia dizer assim: vou pintar meu rosto de preto porque esse é o lugar de um negro numa sociedade racista.

Penso assim: o conhecimento sobre a máscara negra na commédia dell arte é bem específico. Eu por exemplo, só tenho como referências o que me fez pensar: meus zeus, por que a empregada tem de ser negra?
O negócio é que na cultura existe esse dado herdado de racismo sando esse símbolo.
Não adiantaria apenas dizer: vou usar suástica porque na minha opinião não é antissemitismo.
A questão é, como esse debate não chegou até a esfera pública?
Outra questão: se você me disser que algo que eu fiz te ofende, pedirei desculpa. Isso significa que você é alguém, que seu ponto de vista é válido.
Mas por que eu poderia dizer: não, não é isso?

Outra coisa é a censura com a invasão da exposição no espaço cultural do banco. A arte, depois de anos de autonomia estética, recusando-se a retratar a elite, o passado heroico, o sagrado e depois algo além da própria imaginação, volta a buscar diálogo com o político e o histórico. E os preconceitos nunca questionados se tornam fomento para raiva punitiva. A arte contemporânea exige um contexto histórico: ou um mictório seria só um mictório. O que a ditadura fez: núcleos de pensamento em mares de desconhecimento. Uma vanguarda cosmopolita num cosmos de repressão. A revista M do jornal Le Monde publicou sobre os casos em Porto Alegre e no Rio:

“A interpretação singular destes trabalhos artísticos é o resultado de uma campanha promovida por grupos ultraconservadores onde se encontra arraigado o prefeito do Rio de Janeiro”, analisa a revista. “Na origem disso, um vídeo, filmado por um visitante da exposição patrocinada pelo banco Santander em Porto Alegre (...). Visto mais de um milhão de vezes, o filme amador ‘Exposição criminosa, Santander criminoso’ mostra as obras acompanhadas de comentários como ‘que porcaria’ ou ‘depois de destruírem o gênero, eles atacam a família". 
http://br.rfi.fr/brasil/20171013-censura-no-brasil-e-apoiada-por-extrema-direita-nostalgica-dos-militares-diz-revista

Como reagir? Em 1936, a Frente Popular, eleita na França baniu as ligas fascistas. E nós? A própria estrutura segregacionista de cidade e do modelo (bairros-bolha, sem espaço público, sem educação, sem mídia alternativa) forma essas ilhas conservadoras em que "posição" é incentivo ao ódio, preconceito e raiva do privilegiado. "Expressão" não pode ser recusar o mundo moderno.

Através da ação penal 470, que recebeu a marca de "mensalão", criou-se a revolta moralista que tirou a esquerda do jogo no Congresso e prefeituras. Mesmo eleita, Dilma ficou inoperante. O outro fim do estado vem agora. O que parece mais louco nesse boicote é que a indignação é sobre "a sociedade financiar coisas que ela não aprecia" (justamente, a sociedade já avançou e quer reconhecimento e a exposição estava recebendo em torno de 700 pessoas por dia numa cidade de 1 milhão e 500 mil pessoas). Se as discussões sobre direitos humanos e arte não chegaram ao grande público foi justamente por falta de poder público, organização e planejamento (a arte é fomento, divulgação, educação). 

Se o "dinheiro público" é usado é justamente porque estender as bases de uma República, tolerância, diálogo e reflexão, somente é possível através de um "interesse geral" e não privado (deixemos de lado aqui a questão da Lei Rouanet ser renúncia fiscal como marketing das empresas). É aí que eles entram. Retirando-se o governo, ficam apenas os que podem mais e os que podem menos e seus ódios paroquiais. Os herdeiros em posições de comando, que estão lá por oportunidade e não por excelência, numa sociedade injusta, vão nos governar. Acaba a República.

Afonso Jr. Lima 






quarta-feira, outubro 04, 2017

"Ave de Rapina"

Se não fosse por ela, não teríamos dinobots nas ruas.
Ursula era bio-engenheira, fazia companha pela proibição de armas de fogo.
Na TV, um especialista afirmava que para se combater o crime, era preciso ter armas.
Sua organização fez um protesto em frente ao julgamento do atirador do parque.
Os membros do juri têm dificuldade em entrar no tribunal.
O juiz a condena a dois dias de cadeia por obstruir a justiça.
- As armas de fogo são o vírus numa sociedade doente, Ursula envia pelo twitter.
Os jornais estampam sua foto na capa nas paredes de vidro: "A Dama do Crime", "Segurança nacional x Idealismo", "Os inimigos da ordem".
Ela sai e dá entrevistas:
- "Todo ato pode ser crime. Vivemos um terrorismo de papel".
Ursula tinha uma coruja robótica e um jornalista a chamou de "Ave de Rapina".
Ainda responde processo.
Ativistas denunciam que um congressista patrocinado pela indústria de armas propõe uma lei para liberar a venda de armas a doentes mentais. No jornal, um colunista levanta a hipótese dos ativistas contra armas de fogo serem parte de um esquema para vender leis; logo, em cada prédio e pupila.
O irmão de Ursula - que vive na ilha subaquática Bramo 2 - é preso por ordem de uma juíza depois que imagens do circuito de segurança do banco mostram seu saque do caixa eletrônico.
"Desvio envolvendo inteligência artificial"? - diz a manchete, o texto especula sobre as verbas recebidas para financiar pesquisas com animais extintos. As acusações são absurdas, mas o irmão fica perturbado. "São robôs que espalham mentira pelas redes" - Ursula diz.
- Vamos ficar paranoicos, ele responde.
Viraliza um vídeo em que ele alimenta um dimetrodon e diz: "quanto dinheiro faremos com os dentes-de-sabre domésticos?"
Um segundo juiz não vê crime e manda que o soltem. Ele é internado numa clínica psiquiátrica.
Um promotor percebe que Ursula é um réu inocente.
- Você não vai destruir sua carreira, vai ser acusado de colaboração com a corrupção - diz a esposa.
O promotor lembra de um colega afastado por "suspeita de organização criminosa".
Mas onde está ela?
Mais de cem pessoas comparecem no protesto.
Ursula foi vista pela última vez em um café na fronteira do estado.

Afonso Jr. Ferreira de Lima


domingo, outubro 01, 2017

O estado policial

Devem ter colocado escutas. Devem ter visto seus dados. 
- Mas vocês não podem me obrigar a dar minha senha - dizia Ölah ao policial.
- A lei nos permite.
- Qual lei?
- A nova. 
Eles haviam invadido sua casa antes do sol nascer. O ativismo da Ölah estava nas águas do oceano. Mas as companhias que fabricavam plástico não gostaram quando ela denunciou que milhares de animais foram levados pela onda gigante em detritos humanos, gerando desequilíbrio em ecossistemas à milhares de quilômetros. 
A nova lei incorporara o que era provisório desde as bombas. 
Ela começa a duvidar de sua própria consciência. Até que ponto sabiam sobre ela? A juíza falava.
- Os pobres querem segurança, eles produzem, precisam da lei. 
Havia sido julgada rapidamente pelo código de emergência, lembra-se de ter tomado uma pílula, de ter dormido. 

O campo de trabalho ficava numa cidade bem ordenada, uma das maiores notas em termos de produção. 
Era o Dia da Liberdade e milhares marchavam nas ruas festejando a Libertação. Placas contra os "inimigos internos". Ela pensava se os inimigos seriam os homens negros mortos sem razão pela polícia. Se eram os manifestantes que protestaram contra e foram demitidos. 
Ela acordava na noite. Parecia perceber outro mundo, depois caía no sono. 
Buscava na mídia notícias para entender. Era inútil. 
- Você não entende, dizia uma interna processada por anarquismo - Eles estão promovendo o terror, precisam do terror. Os refugiados carregam cicatrizes das bombas. 
Ela estava mudando. Ela não se reconhecia mais. As coisas ao seu redor se tornavam ameaçadoras. Eram como objetos cênicos. Mesmo a família ia se tornando algo distante. E a matéria, um campo de energia. Ela estudara os quarks, os glúons, os campos quânticos. Nada dela permanecia. Queria explodir. 
Estariam invadindo suas redes pessoais, estariam induzindo sua percepção sobre si mesma? Algo que ela pensava aparecia na tela horas depois, ela encontrava na biblioteca. Ela tinha dúvidas sobre seus perfis nos dispositivos, teria escrito aquilo, teria estado naquele lugar, teria conhecido aquela pessoa?
Quando cavava a terra, teve um derrame e foi enterrada numa capsula no pátio de cimento. 

Afonso Junior Ferreira de Lima











sexta-feira, setembro 29, 2017

o invisível/ the invisible

o galho desce

a mecânica do voo

balanço livre

desequilíbrio

o rio não corre

fere (primavera das sombras)

meu nariz


não há um vento lá fora

o que em mim continua

colhendo vozes

suspenso

o verde

o cisne nobre na água escura

a calçada em pedaços



o som do galho

subir, descer

as pétalas no chão

sou pós-morte

vozes e objetos eu visito


Afonso Jr Lima



the invisible -

the branch descends

the mechanics of the flight

free swing

imbalance

the river does not run

it hurts (spring from the shadows)

my nose


there is not a wind out there

What in me continues

picking up voices

suspended

the green

the noble swan in dark water

the sidewalk in pieces



the sound of the branch

up, down

the petals on the floor

I'm after death

voices and objects I visit



Afonso Jr Lima


segunda-feira, setembro 25, 2017

No útero

- Pelo formato da cabeça, posso dizer que será uma pessoa mais delicada, introvertida, mais ligada ao social que ao mecânico.
- Ah, doutor, e quanto às mãos...
- As mãos indicam que será meio ano ativo sexualmente, meio ano desligado disso.
- E quanto...
- O pênis diz de uma inteligência média, mas os testículos indicam boa habilidade de linguagem.
- O senhor sabe que, quando fizeram a ecografia de minha irmã, ela foi considerada entre inumana e não classificável. Depois se mostrou que ela era limítrofe, pertencia ao gênero max, e, sexualmente, ela varia entre três espécies de matriz. Penso se essa classificação não é apenas para termos uma identidade à serviço de alguma coisa...
- Bem, com esse movimento dos pés e do coração, perfeitamente normal, seu bebê será humano. Depois de testarmos o sangue, saberemos se será max, homi, fema, dron ou clone.
- Eu já lhe comentei... sobre o manuscrito de uma tradução... que meu avô... ele fala de uma ciência em que as leis são apenas as exceções que ocorrem mais frequentemente...
- Deve ser anterior ao Estatuto.
- Queria um teste sobre a propensão ao suicídio. Me faltam palavras... Eu... Penso, às vezes, se nossa sociedade gera cada dia mais pessoas que desejam morrer. Parece que a dor existe como natureza de nossa sociedade. Se for o caso, fazei recolocação neural...
- Sim, assim que pudermos analisar o muco teremos uma posição.
- Às vezes penso se devia ter assinado o Estatuto da Clareza. O fato de não colaborarmos com pensamentos inquietantes não estaria gerando mais angústia...

Afonso Junior Ferreira de Lima

sexta-feira, setembro 22, 2017

"Nuremberg", de Santiago Sanguinetti

A peça Nuremberg, do dramaturgo uruguaio Santiago Sanguinetti, é uma obra no momento certo.
Lindamente dirigida por César Maier, com ótima atuação de Osmar Pereira.
Reflete o repertório do diretor, a capacidade de lidar com textos elípticos e transições rápidas.
O ator tem o desafio de apresentar diversos tons de um neonazista, enquanto tentamos viver na sua pele.
Estamos vivendo uma era em que há confusão entre o fato e o representado.
Uma tela sobre zoofilia é um incentivo à sua prática.
Um filme sobre pedofilia é apologia.
E falar sobre a violência também seria um incentivo.
Essa moral superficial parte do pressuposto de que não temos em nós esse lado escuro. E que ele não acha as melhores justificativas para excluir, julgar, ferir.
O que significa termos um espaço onde podemos treinar ser humano?
Onde podemos observar, temer, refletir?
Além disso estamos vendo as conseqüências de termos uma classe média que sempre viveu como se não existisse 80% da população na pobreza. Como se a pobreza não fosse um problema. Como se a corrupção fosse o maior prolema do Brasil - o combate usado politicamente, uma lei de vale tudo, fora de proporção e de lugar. Como se a Amazônia flutuasse no espaço e não dependesse de um governo progressista - que acaba favorecendo também trabalhadores, indústria nacional e distribuição de renda. Como se as famílias pudessem florescer num ambiente tóxico.
O ódio nasce dessa paralisação, desse isolamento, e até dessa discussão dos direitos humanos na bolha vanguardista (na ausência do poder institucional), que, ao chegar ao público, cria um discurso de "isso me ofende", "pra que mudar"?
Os pobres de direita são reflexo também desse abandono promovido pelo capitalismo-catástrofe que reduz investimento público e pensa apenas em como criar leis que possibilitem mais lucro e menor salário. Como poderiam entender seus problemas se a educação é rompida para que se evite apontar o dedo para quem está pagando pouco imposto e gerando cidades segregadas (bairros floridos e bairros degradados)?
Gosto muito da iluminação da peça.
O diretor ouve o texto e lhe dá várias cores.
O ator também usou de técnica para falar alto sem irritar nossos ouvidos.
O tom sombrio da peça nos lembra que Nuremberg não está distante.
Que nossa classe média está cheia de herdeiros que receberam o medo do comunismo na veia e têm preguiça de pesquisar o que é verdade.
Que todo estudante de economia pode chegar a posições fundamentalistas apenas porque desconhece o todo.
Enfim, uma escolha que mostra a independência de espírito e a reflexão sobre o agora dos artistas envolvidos, que nos alertam para um perigo real.

Afonso Jr. Lima



quarta-feira, setembro 13, 2017

A quietude, montanha

Quando eu quis saber o que estava além do mundo das aparências
Deixei correr rio abaixo todos os valores da minha geração
A afirmação de uma coisa tão tênue como o eu dissolveu-se
Quando fui planta e conversei com os insetos
A ganância, a superioridade intelectual, o brilho que ofusca
Seu realismo é para mim hábito e valores podres

Meu sorriso agora procura as rachaduras na verdade mais sedimentada
As mãos que preparam o alimento, a luz do dia que começa
Uma canção cantada distraidamente, o primeiro olhar de uma paixão
O silêncio de uma lápide de cem anos
Aquilo que é opaco, que foge, que diz que ainda não
Caminho por entre galhos, por entre árvores, como fogo e ar

Observo a cidade distante, o vapor cinzento, logo virá a tempestade
Não reconheço nos heróis do meu tempo a beleza que se atribuem
O verdadeiro, o essencial
Sedução outra, meu corpo no espaço e no tempo
Não o pensar como controle
Cada ser da terra importa
A doutrina do abandono desmorona

Alegria que tudo transforma
A fonte brota, a terra úmida
A generosidade dos corpos
Minha chama é mais que uma guerra pequena

Não serei aquilo que não sou
Tudo que é estranho deve viver e regenerar
Sigo meu caminho vazio
Deixei o poder e acolho meus irmãos

Afonso Jr. Ferreira de Lima




segunda-feira, setembro 11, 2017

O corpus

Algumas obras não foram escritas por ninguém ou o foram por todo mundo, como a Ilíada ou a Odisseia (acho que roubei essa ideia de alguém e agradeceria se achassem o culpado).
Temos de lidar com a realidade de que o corpus afonsino se esparramou de tal modo - alguns creem que existem bots que criam histórias e as reproduzem nas línguas do mundo, da Indonésia ao Uruguai - digo, de tal modo que toda a obra é apócrifa.
Histórias de 140 caracteres, plataformas para obras autopublicadas, arquivos publicados em sites de compartilhamentos, livros impressos...
Alguns acham que os textos são na verdade o ocultamento de um coletivo secreto:

Jogos
Urgentes (de)
Novos
Investigadores
Ostencivamente
Rebeldes

Foram escritas teses sobre como seu modo de operação criticaria a indústria cultural do livro (que dificulta a publicação para o autor e o contato com o leitor, pelo preço), como refletiria um posicionamento sobre o abandono do regime da verdade pelo regime da linguagem, já que o próprio selo da autoria se tornara um shakespeariano poeta sem rosto, como isso teria relação com um mundo imaginário platônico em que a vida é a própria obra e a comunicação pela obra.

Entretanto, não há dúvida de que existiu um original.
É o que se sabe por um email descoberto pela BBC.

"Encontro um conto de 1995, da oficina de C.
Eu queria muito fazer essa oficina, mas não tínhamos dinheiro.
Rezei muito para que nosso pai desse.
Milagrosamente, ele deu o dinheiro.
O C. é um bruto e disse logo que escritor só depois dos
30 (e Rimbaud com 17?)"

Alguns compararam seu caso com o de Sándor Márai, que no auge da fama foi proibido e seus textos ficaram em suspenso até que ele desapareceu.
Outros dizem que essa situação reflete a própria literatura, na qual nada de fato acontece, mas a percepção é de que algo aconteceu. Seria uma reflexão sobre o modo pós-kantiano de verdade com sua incerteza intrínseca?
Os critérios para verificação - testemunhos, dois autores citando a validade, complexos métodos de contagem de palavras - se mostraram impraticáveis. Por que esses textos ficaram de preferência no mundo virtual, nunca buscaram com afinco o monumento do papel? Por que tantos estilos, gêneros e temas?
O fato dessa vasta Mirabilia de textos serem assinados com seu nome, ou seus nomes, já foi visto também como um comentário sobre um mundo de informação fechada, um mundo paralelo em que todos os discursos combinam, mas não são relevantes ou não afetam o sistema.
Não admira que um desses textos assinados como AJR se chame "Pessoas muito burras".
Eu também não descarto de todo a tese de que as empresas que vemos vendendo livros em livrarias de aeroportos, cafés em shoppings ou mesmo comida vegana com o nome JR sejam parte desse trust.
Oscar Wilde teria dito que corpus como os que incluem Quixote e Hamlet estão no sub-texto de qualquer palavra escrita.
Não poderíamos ainda avaliar a qualidade média desses textos (não antes de elaboradas IAs capazes de conferir dados em escala), mas já podemos dizer que o corpus afonsino lançou uma irônica afirmação da literatura enquanto desaparição.
Ou pelo menos, é o que parece.

Afonso Jr. Ferreira de Lima

domingo, setembro 10, 2017

Notas sobre a catástrofe

*
A polícia secreta tinha infiltrados em todos os grupos, nos bares, nas conferências, nos cafés, nas leituras em voz alta e em reuniões que organizavam greves.

F.
Ele deseja simular a captura por inimigos.
Ele os conduzia para serem fuzilados.
F. viu o amigo perder a coragem e parecer querer falar.
Ele matou o aliado. Abriu seu peito e retirou o coração.
F. ficou anos em silencio no hospital.

*
Os meninos uniformizados, com suas caras tristes, assistiam os homens serem levados ao cadafalso. Dizia-se que eram camponeses que haviam fugido dos donos de terra. Eram "homens de segunda classe". Até o magnata do petróleo da região dissera: "Existem comerciantes ricos que ainda são legalmente propriedade de alguém". Outros diziam: "A ferrovia convive com a escravidão", "O avô de Tchékhov era servo", "Eles nos livraram de Napoleão, mas ainda vivem na era das trevas". Os bancos foram chutados pelo carrasco. 

A.
As duas irmãs o ajudaram desde a juventude.
A. se casou com o assistente polonês de seu irmão, que conheceu em uma viagem.
Ele foi condecorado na polícia secreta.
Foi preso e fuzilado.
policial secreto
A. escreveu suas memórias e foi presa.
A. enlouquece.

*
Os soldados subiram a avenida contra os manifestantes com seus chicotes, que podiam matar, e a polícia com seus sabres desembainhados. O sangue nas ruas e a bandeira "Abaixo a tirania" caída na lama.

K.
Ela publicou suas memórias.
Ela e marido foram presos em 1937.
Ele foi fuzilado, ela foi solta.
Muitos exemplares foram destruídos.
Nos arquivos privados das famílias, constrangedoras verdades.

*
Pode-se ler na faixa: "Pai, olha por nós".
Marcham em direção ao Palácio, querem reforma agrária, liberdade religiosa, extinção da censura, maior participação no governo. O exército dispara.

N.
Houve a guerra aos camponeses.
Ela não suportava os flertes marido.
Ela queria ter uma carreira, mesmo com filhos.
Ela sempre fora boa com suas ex-mulheres, mulheres abandonadas.
Ela tirou sua própria vida.
Várias belas mulheres foram fuziladas.

*
"Meu pai nada dá para nós, ele me pune por eu querer estudar. Minha mãe, que cuida de mim, vive situação deplorável, imploro-vos de joelhos que me ajudeis".
Casa velha, pequena, suja. Os quartos eram miseráveis. Ar mofado, o telhado deixava entrar chuva e vento.

*
Um filho de sapateiro em 1878 de uma região invadida pelo império russo. No seminário, escondendo a vela embaixo da cama ou do cobertor, paixão por Zola. Aos 23 anos, preparou uma lista de 300 livros para seu círculo de amigos. Leu Schiller, Maupassant, Balzac e Thackeray. Platão conheceu no original grego, adorava Gógol, Saltivok e Tchékhov. Escreveu muito no exemplar de "Os Demônios", e dizia que Victor Hugo mudara sua vida.

L.
A guerra civil acabou. Ele está na secretaria geral.
Ele queria centralização, coordenar o programa de industrialização, cinco anos depois da abdicação.
Houve reação contra a República Federativa.
L. tenta negociar o apoio dos rebeldes que preferem a independência.
Ele foi vaiado na assembléia dos trabalhadores quando pediu a eliminação do nacionalismo.
 “Ele é demasiado bruto, é necessária sua remoção da secretaria geral".
O testamento jamais será lido no Congresso do Partido.

Afonso Junior Lima

quinta-feira, setembro 07, 2017

"Império do Mal"

O primeiro corpo foi o de uma moça jovem, magra e de celular novo. No seu pulso, uma tatuagem.
Depois apareceram atletas, entregadores de água, taxistas.
Momai foi chamado no terceiro.
Ele foi procurar o professor aposentado H. Salgari.
- Eu já vi essa tatuagem. Em uma foto num livro. Um assassino escreveu na parede "Destruindo o Império do Mal". Essa é uma expressão que o senhor usou, não?
Salgari parecia assustado.
- O senhor sabe o que eu fiz durante a década de 1970? Trabalhei para o governo. Eu impedia que o desejo de poder se tornasse uma coisa romântica na história dos revolucionários, a "Oligarquia dos Selvagens", como a chamávamos. Não foi um acaso o Filho ser um homicida, o Pai era um sanguinário. Ou o senhor acha mesmo que uma ditadura utópica podia viver sem degringolar em campo de concentração?
Ele olhou pela janela.
- O senhor já deve ter visto Sindicato dos Ladrões. O senhor sabe que Elia Kazan foi acusado de ter feito um filme sobre denunciar seus amigos... para livrar sua cara sobre suas delações voluntárias de colegas ao Comitê de Atividades Antiamericanas?
- Parece-me que o senhor quer me dizer algo. Eu suspeito que esses homens foram mortos por alguma coisa não-humana. Mas, e o símbolo?
Salgari pegou na mão uma medalha na estante.
- "Kasan Dedo-duro", virou seu nome. Eu lutei contra o mal. Mas eu assisti a coisas monstruosas também do nosso lado. Eu vi coisas assustadoras. Mas não posso falar sobre isso.
- O senhor precisa dizer a verdade - disse o detetive. Até onde iriam com isso? Seria preciso ainda outro encontro? Quem mais podia falar?
- Muitas vezes pensei se... a fúria do Exterminador não nasceu no rio gelado de -20 graus no qual pescava esturjões e foi pego por uma tempestade. Os detetives que o prenderam não imaginaram estar semeando um Império Sangrento.
O visitante agradeceu. Quando abriu a porta, o professor disse.
- É isso mesmo. Nos laboratórios da democracia, pessoas foram testadas. Pessoas que não puderam se adaptar, pessoas miseráveis.
Momai foi caminhar no parque, pensando sobre grupos secretos, DNA modificado e seres que comem pessoas.

Afonso Jr. ferreira de Lima

domingo, setembro 03, 2017

O fatalista

Existe a lenda de que os mortos podem saber o futuro. Não é meu caso.
M. L. Seu conto "O fatalista" é para mim uma pedra magna na caixa de tesouros desse rico povo. Nessa história, lê-se: "Discutia-se a respeito da crença muçulmana de que o destino do homem está inscrito nos céus". 
Eu havia debatido isso mesmo com ele num inverno terrível no Cáucaso. O lugar das batalhas. Creio que eu mesmo nunca derramaria tanto sangue como o que foi derramado no extermínio das tribos circassianas. 
Montanhas, rebanhos, um sabre marcado na pedra em algum túmulo, essa era a paisagem. Seu amigo revolucionário acabara de ser batido num duelo suspeito. 
O jovem oficial, que fervia de ideias, ouviu-me contar sobre Polidoro, "o que traz muitos dons", filho mais novo de Príamo, que o rei mandara levar para longe do campo de batalha, enviando-o com grande número de riquezas para o seu tio, Polinestor, "o que arquiteta muitos planos". O tio, depois da queda de Tróia, resolveu matá-lo para roubar o tesouro de Príamo.
Mas os deuses tiveram pena dele e, estando o cruel soberano na beira do mar, viu retornar a seus pés o corpo já apodrecido. Quando aproximou-se, seus olhos se abriram e o cadáver lhe disse: "Sua sorte está escrita". O rei caiu morto ali mesmo. Os gregos tinham na predestinação o pilar da vida, sempre trágica, talvez porque a sorte de um aristocrata era perecer na guerra. Mas, que sei eu do coração dos homens? Talvez sonhem com a morte.  
O meu amigo poeta era um corajoso crítico do czar, de Hegel e de Byron, tudo que sua geração amava. Já viu longe, os demônios além da bruma do sentimentalismo. Seu tempo era morto, um feto que nunca via a luz, apenas eu iria morrer pra ver seu futuro. 
Seu personagem, o misterioso tenente alto e de olhos negros, ouve uma premonição sinistra do narrador e logo depois é morto numa rua escura. Mas o próprio M. L., que escapara de um duelo com um francês, viria a perecer logo depois talvez por ordem do czar. Seu amigo tinha um conto chamado "O tiro da pistola", que usava como epígrafe o verso: "Nós nos duelamos". 
Meu jovem poeta, que chegara em S., decide mudar-se subitamente para P. - diz a um conhecido que sente ter pouca vida pela frente. Ele ri nos salões do seu colega com longa espada e maneiras de herói romântico. Até ser desafiado. Talvez fosse uma espécie de pressentimento. Dizem que os loucos correm para o castigo quando não enxergam saída. 
Eu sempre ficara em dúvida se, no seu conto, havia uma intenção sombria quando o tenente, que podia passar indistinto na escuridão, chama a atenção do assassino desvairado ao fazer-lhe uma pergunta. Da mesma forma, um homem que perdera o grande amigo, que podia ter morrido em 1840 - e só não morreu porque o francês errara o tiro - e vai bater-se com um colega um ano depois para deixar esse mundo aos 27 anos, me pareceu sempre suspeito. 
Como diria o morto: "Sua sorte está escrita".

Afonso Jr. Ferreira de Lima



Círculo vazio

Muitas vezes me pego pensando como poderíamos nós, filhos do prosaico, heróis de aventuras mínimas, escrever algo tão ordenado, idealista ou profundo como uma narrativa russa. Nós, que vamos lutar na padaria, comemos no restaurante da esquina, subimos e descemos de vagões comprados com sobrepreço. Sem o peso de histórias épicas ou mesmo sem tempo de ordenar em grandes estruturas delicadas o fluxo de minutos-resposta. Será que temos um novo gênero, a roda dos dias ainda não explicados, a natureza-morta viva?
Penso em como circular em torno do vazio, e o que me vem sempre é o mais simples dos temas, por exemplo, o cão que agora late em plena avenida do século XXI.
Eu e meus vizinhos, por exemplo. A sintonia que se cria nesses sons mudos, sem a capa da razão e do diálogo. Mudaram-se há pouco, três deles.
Não ouço mais o violão da frente à meia-noite.
Nem os amigos de sexta do apartamento abaixo.
A criança que chora, a musica pop do domingo no pátio também partiram com a família do primeiro andar.
A música dos vizinhos e suas rotinas ficam mais claras quando existe apenas silêncio e escuridão.
A menina ensinava seu irmãozinho a falar.
O casal de namorados brigava. Compraram uma TV nova, assisto junto vários filmes.
A moça bonita diz ao seu namorado que estava gostando com gemidos indubitáveis. (Mas ela se foi).
Nada disso tem o peso da morte, o questionamento sobre o destino, a culpa de um crime já realizado ou nunca nascido, o peso da metafísica ou da crise.
Mas emana desse amontoado de objetos já sem utilidade uma poesia leve e dura como a alma de um robô. Porque de alguma forma devem ter algo as pedras, as folhas marrons e a antena de uma formiga, mesmo que seja um alma mais lisa e austera que a de um cristão.
Uma vez, na universidade, disse meu professor:
- Diferente do mundo para nós, ao poeta, as coisas mínimas são estranhas.
Eu pensei logo: todas as coisas são estranhas.
Muitas vezes podem essas vozes soarem juntas. Eu vejo no computador um filme e a vizinha fala sobre o livro que lhe deu origem. Eu leio um livro sobre Cuba e a música de domingo é de Cuba. Eu resolvo cantarolar uma canção e o casal fala do autor da canção.
São movimentos conjuntos, a ligação pros pais, o choro, a briga por ciúme.
E, acima de tudo, que música eu toco?

Afonso Jr. Lima







sábado, setembro 02, 2017

"As moléculas sabem o futuro"

A lenda diz que na biblioteca está tudo que já existiu, mas também tudo que vai existir. Quando perguntei para meu mestre, ele disse: "As moléculas sabem o futuro". Era uma citação de um personagem cientista em "A história da Ilha", de M. Issaiévich. 
A mim foi dada a sessão da História. Minha mãe era estudiosa e conservadora de autores russos. Havia crescido nos Livros, entre o Imperialismo e a Ásia.
Quando comecei a ler, minha história preferida era justamente "A história da Ilha".
Neste conto, um grupo de homens parte para colonizar uma terra à oeste e levar a "civilização" aos que chamam de sub-humanos ou bárbaros. Suas mulheres são controladas para a reprodução e costumam ter filhos todos os anos - uma personagem tem 12 filhos em 12 anos e se suicida. A sociedade existente anteriormente acaba sendo apagada, os colonos são os únicos que podem comprar os produtos que produzem. Mas isso gera um medo constante sobre o que existiria fora da muralha. Por fim, uma estranha doença começa a acometer as crianças do lugar, que se tornam como que sonâmbulas, e acabam dormindo para nunca mais acordar. O cientista tenta, inutilmente, achar a causa e, por fim, começa a estudar as lendas e os sonhos dos "bárbaros". Descobre que neles havia a crença de que, paralelo ao nosso tempo linear ou aparente, existe um outro tempo, no qual tudo se encontra. Assim, ele suspeita que as crianças estão tristes porque seu corpo sabe de algo que ocorrerá no futuro aparente. 
Esse conto assustador me fascinava e eu desenhei muitas folhas ilustrando essa sociedade.
O que me fazia desde cedo pensar sobre a minha própria, por que acabamos vivendo na biblioteca, se existiriam humanos lá fora ainda e se existia algum lá fora, por que existia a máxima gravada na pedra: "A Salvação está contida nos Livros". 

Afonso Junior Ferreira de Lima 






quarta-feira, agosto 30, 2017

O mundo

Ele já havia nascido sob o regime de segregação. Para eles, o medo era tudo. A lei do sangue. Mas ele a conheceu na rede. Uma perversa.
Lua falava de astrologia, tarot, mitologia e livros de fantasia.
"O Juiz estava furioso porque um promotor havia sido metralhado na rua. Alguém precisava pagar. Jesus foi condenado porque descobriu um pergaminho, a Sociedade o incriminou" - assim começava um post enigmático. Um exercício de imaginação, ela contou.
Jesus era o nome de seu irmão, condenado por não devolver um livro na biblioteca.
- Você não tem medo de nós - ela disse sorrindo para a câmara.
- Eu não acho que vocês sejam por natureza maus - ele disse a Lua. Eu suspeito que
isso tudo foi criado para que aceitemos o inferno. Para que alguém acumule ouro.
- Nem sempre foi assim. Quando eu era criança, nós não tínhamos tanques em frente à nossas casas. Nem havia militares dando aula nas escolas. Não havia tantos desaparecidos. Não se sabia de mulheres violadas dentro de casas invadidas.
- Podíamos nos conhecer - seus olhos cintilavam de desejo juvenil.
- Nem pense nisso. Sua família jamais iria aceitar. A Sociedade criou um sistema em que ninguém é culpado. As ordens devem ser cumpridas. E os livros dizem que, para nós, as leis são outras, não há direitos para os "perversos".
Ela abriu as cartas. Antes, ela já sabia o que seria. La Maison Dieu. 
- Plutarco também via o raio como gerador da vida. Aqui, tudo desaba.
Ele pensou no mundo que conhecemos como ilusão, ele precisava destruir.

Afonso Junior Ferreira de Lima

terça-feira, agosto 29, 2017

segunda-feira, agosto 28, 2017

Romance policial

Eu o procurei porque era um ex-escritor de romances policiais.
Eu havia sido estuprada. Dentro da minha casa. Eu oferecera um jantar para dez amigos e ficara bêbada o bastante para parar num divã semi-lúcida.
Ele era um advogado aposentado agora, convidou-me para jantar. Perguntou muito sobre cada um deles.
- Intelectuais. Todos - disse depois de um gole de vinho.
Ele parecia bastante desanimado.
Por fim, me disse que eu fosse pra casa, tomasse um banho e procurasse uma delegacia.
- Não vou pegar o caso.
- Mas houve um crime.
- É, existe um crime. O mundo todo é um crime.
- Eu quero uma investigação.
- Mas eu acho que esse não é o verdadeiro enigma - ele disse, enrolando o macarrão.
- O que quer dizer? - Eu estava irritada.
- Eu acho que você tem uma questão escondida que ainda não descobriu.
Eu tentei me concentrar. Era perfeitamente lógico aquilo tudo. Precisei ir no banheiro.
*
Como ele podia saber?, pensava enquanto passava o batom escuro. Toda sua vida quisera reescrever as narrativas, apagar as descrições que fizeram sobre ela. O mundo era mais complicado. Ela nunca se sentira de fato acomodada com a identidade que lhe haviam dado.
Retornou.
Ele colocou mais vinho na sua taça.
- E sobre a investigação? - ela tentava ser fria.
- Mas eu estou investigando. Onde está? Existe em algum lugar espaço para algo não previsto. Você gosta de ficção científica?, ele perguntou.
- Eu gosto. Um francês... Como é o nome? É sobre dois viajantes espaciais, em missão à um planeta distante são engolidos por uma máquina marinha.
- E seu amigos. O que acham disso?
- Eles sempre foram um tanto esnobes. Acho que sou o tipo introvertido.
- Como?
- Jung. O tipo que pensa mais na conexão de ideias do que nos fatos objetivos. E como criar condições objetivas para que subjetividades assim emerjam?
- Seus amigos querem lhe matar então.
Ela derruba a taça.
- Quem foi? Quem?
- Foram os criadores. Os gestores do congelamento. Eles criaram o processo de elucidação do mistério. Eles querem transformar você em detetive, na busca pela identidade. Fatal.
- Mas... o que desapareceu?
- Eu busco também. O real?
Ele pediu um táxi para ela.
Se despediram.
- Quando for à delegacia, fale sobre seu amigo André Fais.

Afonso Jr. Lima




domingo, agosto 20, 2017

fome

Fome da minha palavra
de achar o método entre
dizer a boca e tocar
o nervo

fome de ser gente
que silencia
reconhecimento

[nuvens no céu
o relevo da palavra
exata rio comum
parada

nuvens no céu
seu anzol no tempo
chão rio
as sombras]

risco
e desse gesto solto
viver no fluxo
regras

palavra corpo
caminho
ritmo
palavra árvore

matar o que em mim já sabe
recriar
fome de pele trocada

[nuvens
pintura de parede
exata flecha
no tempo]


Afonso Junior ferreira de Lima

sábado, agosto 19, 2017

Música

O silêncio interrompido da parede de música, vida cinzenta, ramos encolhidos, dentro do vidro, o turbilhão do fim dos tempos, um avião que desaparece entre as nuvens, ondas de som e o carro fúnebre que desliza, na pedra pingos de chuva no painel oceânico, policiais deslocados pelas notas, o pensamento sente o impacto da intensidade presente, pensa sem regra, capta a liberdade opressora da estrutura, aquele mundo cinzento de luxo, vidro, metal, o resultado é o caminho, é preciso se especializar, é preciso produzir, pensamento calculado, nada de metáforas, nada de cruzar fronteiras, houve uma guerra na rua, o poder criou uma ilha, o método é parte do fato.
Ontem, nesse espaço, a partitura voz-espaço beckett, um tambor ao fundo no azul escuro da queda, movimento da consciência, o piano, giram máquinas amarelas, as duas vozes - o pão de queijo duro que se come poucas moedas, pão da tarde, laranjas roubadas na noite, estudante humilhado, o turbilhão desmoronando, sopro, fim do tempo, não ser necessário, não precisamos de textos autoritários, lembra, eu não posso, não o real em pedra, nem o silêncio, a comunidade em algum lugar, entre o fluxo de imóveis móveis, não posso branco quase branco espaço zero, frio branco, explosão, ruína, gero em mim um vazio, buscar algo, escorre nas raízes, invadem o palco, os particulares autônomos chegam ao diretor, arte como forma do mundo, disposição, proposta de síntese, olhar para trás, questionar o método, ouvir as vozes, um velho ouve suas memórias, eu mesmo pingo de água, flor laranja, aqui me movo para aquele homem, como andávamos pelo parque, chove, amigos que param para fotografia, abrem os braços, um deles se atira nos braços de outro, tudo acabou tão mal, não é fácil romper, heranças, lama que arrasta, dique que rompe, pensamento-ação catástrofe do eu-natureza, fim do movimento. 
Aqui amanhã na parede foto de amigos. 


Afonso Junior Ferreira de Lima

quinta-feira, agosto 10, 2017

Na colônia: a zona de mineração

No vice-reino do Afeganistão, Alexandra era funcionária da companhia que governava a zona mineral.
Colocou o café sobre a mesa, tirou a arma da cintura, observou o horizonte. Havia tido um sonho estranho. Sua roupa se desfiara, depois seu corpo se desfiara e ela acordara quando sua cabeça caíra sobre o monte de fios que era ela.
- Bom dia querida, disse seu colega Lucius. Pronta para a guerra?
Ela detestava o tom eugênico das conversas desse homem. "Os arianos são superiores, você sabe. Italianos, judeus e poloneses são merda", parecia dizer sem usar as palavras.
Ela foi para a sala de reunião. O clima era tenso.
- Nós podemos agora partir para uma guerra pouco lucrativa - disse o chefe, mandando os comerciantes todos para a prisão, quem sabe transferindo todo mundo para campos no deserto, ou fazendo esterilização em massa, para que não se reproduzam.
Ela não riu.
As negociações entre a companhia e o vice-rei começaram a degringolar quando houve uma rebelião dos moradores do bairro comercial.
Novos impostos para alimentar o exército contratado indignaram a população e soldados foram mortos por terroristas.
O vice-rei tentou uma pacificação através de banimento das lideranças e diminuição dos impostos para a elite, mas um segmento da milícia da companhia atacou com gás venenoso uma vila da fronteira matando mulheres e crianças. O chefe do exército privado queria retaliar a milícia.
- Nós deixamos a zona na mão de loucos? - teria exclamado o vice-rei.
Alexandra achava que o presidente era responsável por aquilo tudo. Como fora possível deixar o exército na mão de uma empresa e dizer: "Façam o que acharem melhor"?
- A companhia não pode deixar sua imagem ser manchada - disse o chefe ao comandante.
Alexandra não estava se sentindo bem. Observou sua mão tremendo, enquanto tentava tocar a tela. Lembrava quando era criança, ninguém usava essas palavras tão duras. Ela não sonhara em ser uma agente da submissão de outros povos.
- Se nós executarmos os milicianos que fizeram isso, estaremos dando para o povo a ideia de que perdemos o controle, que não viemos aqui levar paz e ordem e racionalidade, mas somos só um povo conquistador.
- O vice-rei pode exigir do governo uma atitude. Liberais vão questionar nos jornais da metrópole nosso método de controle sobre povos inferiores. Pode ser que questionem a zona mineral independente e cheguemos mesmo a ter de ser defendidos pelos subcontratados do governo.
Mas Alexandra não estava mais presente. De repente, ela entendeu. Estava numa realidade imaginada. Ela era o personagem de algum jogo na ficção de alguém. Se isso era verdade, era como acordar de um sonho.
Ela caminhou pela sala observada por todos.
Apontou a arma para o chefe.

Afonso Junior Ferreira de Lima

domingo, agosto 06, 2017

A festa da coruja

- Numa jangada vamos pela mata
Disse a coruja Jane, que ficou acordada
Pra falar com a onça-pintada
- Vamos ver o deus das águas

Também se interessa o boto palhaço
Pra o saguá-coleira deram um telefonema
- Estou nessa, vou chamar o acari-zebra
O arco-íris foi convidado

Era uma festa colorida, o karaokê não para
O coro dos jacarés fazia companhia
A harpia era um Apolo tocando a guitarra
Sapo ao piano, o mico-leão guia

A doutora real, de chapéu amarelo:
- Não é legal! A lei invisível proíbe invasão!
- Vacas demais, deixem em paz o solo!
Canta Ana, a serpente soprano

Bee Gees das aranhas boca de sino
- Sai, vampiro, sai!
Trator não é destino
Stayin' Alive!

Muito romance teve nessa jornada
As estrelas deixaram cair uma lágrima
No casamento da anta com a garça
Chegaram na fronteira, chuva na entrada

- Você está vendo? Vende-se o verde
Da oração pela pele, do respeito
Já vai longe o tempo, o rei medonho
O deus das águas vestiu seu manto de sonho

Os deputados sentiram os ossos gelados
Se os olhos fechavam, o coro dos jacarés
Mordia os pés, a formiga picava
A harpia colocou as cabeças numa estaca

Meio mês sem ter dormido, saíram fugindo
A coruja Jane e a onça-pintada
Executando bem e dando deferimento
Os papagaios presidiram o Parlamento

Sapo ao piano, o mico-leão guia
É uma alegria os jacarés cantando ABBA
A harpia era Queen tocando a guitarra
Festa colorida, a tal democracia

Afonso Junior Ferreira de Lima

quarta-feira, agosto 02, 2017

Olhe através de mim

O hall do hotel (?) está tendo as vidraças quebradas e corremos para um terraço. Lá estão barracas coloridas e as pessoas ouvem música. Um desconhecido me diz alguma coisa, que não entendo.
Acordo agitado.
Quero ir ao banheiro. Percebo que o chão está frio. O que houve com meus pés? Estão invisíveis. Eu os sinto, mas não os vejo. Mesmo assim, vou.
Parque - chão cheio de lixo e folhas. A administradora não trabalha sexta, nem sábado, é a folga dela. A administração só tem um cão na porta.
Pergunto o que aconteceu. "Não tem mais manutenção, nem limpeza. Só uma tiazinha que limpa os banheiros". Uma moça chega para reclamar que "tem mendigo bloqueando a passagem". Eram 9 seguranças, agora vejo três.
Comento com ela que provavelmente o parque está sendo abandonado para ser vendido. "Camisa vermelha, sei, comunista".
Eu compro um livro na frente do metrô. Percebo que meus dedos estão ficando invisíveis.
"Sim, voltamos, demorou um pouco pra prefeitura autorizar" - diz o vendedor.
"Espero que sobre alguma coisa".
"Nós sustentamos o país inteiro".
Eu não vejo mais minha mão, tento ocultar com a manga do suéter.
Uma moça diz para a amiga, bebendo cerveja na calçada: "Eu sou solteira, posso me vestir como eu quiser".
Um homem jovem caído no chão, bem no meio, separando o fluxo do fim da tarde em dois.
Numa TV, a votação dos deputados.
Lembro o que o desconhecido falou. "Não somos uma comunidade, somos indivíduos em luta uns com os outros".
Fico pensando, se eu desaparecer, verão apenas minhas roupas?
A votação acabou.
"E esses palhaços na rua?" - diz uma mulher.
"Agora é entre mercado e políticos" - diz um homem.
Eu penso: "O que eu tenho a oferecer? Qual a minha utilidade?"
Eu digo novamente pra funcionária o que preciso. Eu percebo que precisava ter vestido uma camisa melhor.
"O senhor não tem braços"?
"Como"?
Eu não tinha reparado que meus braços também estavam invisíveis.
Sentei num banco um pouco apavorado.

Afonso Junior Ferreira de Lima


domingo, julho 30, 2017

rastros

Aqui, em pedaços, textos, fotos, livros.

Quero a linha disso tudo. Papel amarelo na parede.

Algo foi esquecido, caiu dentro do lago profundo, quero achar.

Estão numa faixa na beira da estrada.

O jornal anuncia a missão pelo norte.

Foram colocados nos aviões, morreram de pneumonia.

Que posso com minhas palavras, de outros, fazer senão o palavrar, com agulha de letras, passado e um possível mundo amoroso?

Recorto as fotos e escrevo entre as linhas. Autópsia de estruturas vivas.

"Polícia reprime baixo-espiritismo".

O governador pede ao ouvidor-geral o fim das "danças dos negros" nas festas de Nossa Senhora dos Prazeres.

Madeireiros entram na floresta. Uma líder esfaqueada.

Eu tento fazer disso um enredo, meu outro eu resiste, ele quer a brutalidade da vida e tudo que nela não se ordena. Palavras silenciadas, retratos sem legenda, a dança da noite que abre o mundo secreto.

Ruralistas apoiam novo governo.

As árvores conversam entre si. É na mata que a gente ouve os antepassados.

Agora, esses que evoco como meus me contam suas histórias, ninguém chorou por eles e os feridos ainda gemem. As línguas com que me falam pedem um túmulo na minha voz cansada.

Solitários, o frio da cidade. Suicídio e alcoolismo.

Justiça impede índios de receberem sua terra.

Dentro do lago profundo eu vejo os ossos e troco com eles palavras dolorosas.

As mortes por desnutrição das crianças, a volta da epidemia de malária, as muitas vítimas fatais de serpentes no Rio Negro, as crianças enterradas.

Meu ouvir alcança a era em que a Ásia e a América não tinham fronteira, os homens e os animais ainda não se distinguiam, todos na mesma alma humana.

Entram nas fazendas e montam acampamentos. Em tumulto, expulsos pelos fazendeiros.

Agora, que vermelho é esse sobre teu corpo?

Aqui encontro, nas paredes, os textos e as imagens em movimento.

Missão científica do departamento de cultura.

Veja o que ocorreu com essa cidade em dez anos? Quando todos estiverem em suas casas ouvindo rádio, o que vai sobrar dos folguedos?

Filmes das danças. Objetos. Canções, fotos, cadernos de desenhos.

Cansaram de esperar, buscam as retomadas, a ocupação de uma área que já foi de seus ancestrais.

O radialista indígena reclama sobre a violência da polícia no protesto.

Devo calar, devo apenas ouvir, meu gesto aponta o que ficou perdido no caminho.

Sobre a mesa, traço linhas e traduzo versos, colo pedaços em preto e branco.

Entre as pedras brancas do dia, vozes que me guiam para que meu barco chegue a seu destino, para que eu não deixe minha ambição afundar meus amigos, naufrágio da violência em terras desertas.

As crianças brincam na aldeia e tiram fotos com seu celular. As crianças me ensinam palavras.

Investigar rastros, colocar a pele de outro, eu conto minhas histórias e não as deixo perdidas, ganho roupa e comida, viajante experiente. 

Não aceitam uma ficção ordenada, com bocas que falam e aventuras, esses duros tempos feitos de eterno presente.

Novo prefeito afasta o escritor do cargo de diretor do Departamento de Cultura e ordena fim da missão.

Moradores reclamaram. Dizem que mataram galinhas. Caminhando pelo mato, obrigados, morrem de fome.

Não quero criar nada, no máximo eu recolho pregos e destroços da explosão, da ruína deixada por algum poder cruel.

Alguma estrada passará por lá e eles morrerão.

Que podem minhas palavras fazer? Eu posso honrar esse nós, deixar que seja o que é, com minha agulha de letras um pouco de ilusão viva e distância. Agora, um túmulo na palavra cansada.

O segurança proíbe oferenda no lago terceirizado.

Polícia fecha xangôs. "Exploração da boa fé e feitiçaria".

Eu saio do meu eu e pego o barco que me leva até a ilha dos homens sábios.

Essa não é apenas uma cidade em que se pensa que os Direitos Humanos se resumem a defender seu carro e sua casa.

Atravesso fronteiras, missão científica, minha voz na noite onde falam os esquecidos.


Afonso Junior Ferreira de Lima


Solidão

A mulher observa seus dois filhos
E pensa em como protegê-los
Se ela tiver uma casa um caderno poderá ficar na mesa
E o corpo com seus medos domará seu grito animal

Não ter casa é não ter espaço para acolher
Quem não tem casa não prepara o café
para receber os seus
para quem não tem casa o caminho não é um meio

As brigas de família não podem cicatrizar
O pensamento não pode sonhar
O grão fica congelado
Não há teto para estabelecer
a paciência, o método, a costura certa do dia-a-dia

Aquele que pede rapidamente perde sua história
Atrapalha o dia de domingo com seu estômago inquieto
Aquele que sofre rapidamente é condenado
Melhor desaparecer em silêncio devorado pelos números

A terra nos ossos, as folhas acumuladas, insetos e fome
A noite como vasto perigo
O mar dos afetos no cinza de brasa abafada
Neve sobre casas de madeira não há
Mas a solidão da palavra nunca dita.

Afonso Junior Ferreira de Lima

terça-feira, julho 25, 2017

domingo, julho 23, 2017

Serpente

Saio na varanda, a lua imensa

Visto minhas asas de serpente
Aqui não existe mais esse eu estreito
Observo edifícios e pântanos na mesma claridade
A doença do mundo apagada
Eu sou uma serpente de fogo e navego
a energia que liga as fronteiras entre as moléculas

Agora, o silêncio calou as conversas na feira, nas portas
O frio dominou os vales, o mundo foi alterado
Jovens com hinos de ódio para perpetuar a opressão
Exércitos de homens de ferro erguem-se pela herança suja

Esquecimento envenenou as crianças com um eu
O dragão filho do céu enfrenta o dragão da terra
Uma serpente úmida, a armadura da pretensão
Cantam hinos de sangue para perpetuar a guerra

Observo a dança e o deserto na mesma claridade
O barulho do mundo apagado
Eu sou uma serpente de fogo e navego
a energia que liga as fronteiras entre as moléculas

Afonso Junior Ferreira de Lima



segunda-feira, julho 17, 2017

domingo, julho 02, 2017

Da utilidade

Eu o encontrei num bar em Nova Iorque. Era um homem bem vestido, discreto, cabelos brancos. Só depois de um tempo percebi seu sotaque. Ele me pareceu misterioso. Logo notei que estava me observando com certo desprezo. Ele me contava sobre suas funções. Narrativas. Sua infância. Jesus nunca havia estado na cruz. Cristianismo dos guerreiros. A ciência sobre os inferiores. O padre falando sobre o espírito controlando o corpo, o comunismo como força materialista. A desordem estava destruindo o mundo. Eu pergunto se algo mudou. Eu recebi meus documentos novos no navio, ele diz. O mundo precisa acabar com a rebelião. O senhor tem seu sangue e sua terra, mas com um telefone eu posso prendê-lo. Acabamos nosso drink. Eu saí com o coração apertado. Um judeu perigoso ou um criminoso anticomunista?

Afonso Junior Ferreira de Lima

sábado, julho 01, 2017

terradeninguém


Será, existe mesmo uma terradeninguém entre o fazedor e o mundo, eu posso, será, fazer o jovem esforçado que estudou teoria crítica se emocionar com 15, 20, 25 centavos com as horas contadas até 700, com filhos soltos pela oficina, o jovem trabalhador que, ops! apontou seu saber e matou, uma criança que perdeu quatro dedos, eu tenho de fazer o pós-crítico leitor em Direito forte e saudável pensar, Agora está frio, estrelas no céu, Dormi muito tarde, Ontem nem almocei, A comida ruim, Prefiro miojo, belo e inteligente, ducha quente, ovos e bacon, que nunca saiu de seu lugar para buscar comida, bem informado, bem vestido, que pensa talvez, E empresas que estiverem inclusas na lista são obrigadas a fechar as portas, e, E daí lista de trabalho escravo, você que chora, você que nunca, Comida estragada, Uma vez, pulga, percevejo, será, eu posso, O dono, nem ajuda médica, caminha na praia, ele que sabe de tudo isso, ele que, veja!, uma lágrima talvez, viu na televisão, nunca 15 centavos, e o fazedor e o mundo, você que eu vou emocionar.

Afonso Junior Ferreira de Lima

quarta-feira, junho 28, 2017

A Operação

agora ele entendia, ligação do hotel, apavorado, ele desapareceu, meu músico desapareceu, liga pro embaixador, não! nada! é droga, cocaína, ele é jornalista não pode se meter com isso, mas tenório não é, por que eu falo isso, montevidéu, pasta na pista, casaco no braço, tocam no ombro, algemado, vendado, agora na beira do rio, as balas passam ao lado, amanhã será o seu dia, morto, é como morto, e o rapaz, agora sabia, desaparecido, legalmente saído do país, jornais denunciam, carta ao Papa, o presidente novo, prisioneiro do ano, de novo o rio, de novo atiram, hoje lembra, falam ao telefone, despacio, é uma rede, era polícia com polícia, caça, juntando arquivos, então tinha sido sequestrado por engano, revelaria o esquema, hoje sabe, tivera de desaparecer, procura, anos antes, por que eu falo isso, chile, vigiar, secretário, o escritório para exilados, levados ao estádio, ele entendia, assiste ao julgamento, revê o homem vendado, na beira do rio, as balas agora 

Afonso Junior Ferreira de Lima

quinta-feira, junho 22, 2017

Inocente

É preciso, os personagens são nossa vida, a voz monstruosa, diálogos na praça, eles ficam, para ser no mundo, Nós vamos nos casar agora, ele escreveu contando o que ela disse, Mas dois dias depois ela andava sem rumo por uma ponte e foi recolhida por policiais, ele diz, Eu cuidei dela em minha casa, e agora, tento fugir aos sistemas, tendo olhar para isso, tento chegar dentro, Mas ela voltava sempre àquele assunto, A filha já era grande, noiva, Ela parecia ter voltado àqueles dias, andava sem rumo, Senhor policial, ela disse, e parte de mim diz que é impossível, eu a vejo sentada próximo a uma janela, sem outros, ela não quer, como descrever a prece que fez, o úmido líquido na camiseta, a criança em seus braços, ele escreveu, Eu sentia o grande mecanismo, ausência, a fala do juiz dizendo, Inocente. 

Afonso Junior Ferreira de Lima

segunda-feira, junho 19, 2017

A ideologia do teatro colaborativo

O conto sobre o qual quero refletir é um dos mais conhecidos do autor. Ele encena a tentativa de um diretor teatral de levar à cabo uma peça baseando-se apenas no texto narrativo do autor, sem a moldura de um dramaturgo. O título - A ideologia do teatro colaborativo - já remete diretamente à polêmica. Um narrador não identificado começa a contar sobre uma trupe de atores que parece improvisar infinitamente sobre o livro lido e o diretor em infindável doutrinação sobre a importância de se livrar do texto e se dar voz aos múltiplos criadores, mas no fim, quer fazer prevalecer sua voz. Os atores também debatem interminavelmente suas próprias interpretações do tema. Por fim, um jovem se rebela e propõe que é preciso generosidade para se colocar à serviço de uma ideia, que por algum motivo parece atingir um debate público ou forma poética de valor; acusa o diretor de criar facções. A ideologia do teatro colaborativo, entretanto, acaba com o ator jovem encontrando com um ator mais velho no final de uma peça, e os dois conversam sobre o incidente (quando percebemos se tratar do início do conto). A crítica que o ator veterano faz ao projeto diz respeito à supervalorização da escrita, "como se todo ator tivesse de escrever, ou se 'apenas atuar' fosse uma arte menor". A arte é apenas uma forma de poder, responde o jovem. Eu quero convidá-los a entrar nesse buraco mágico lendo um trecho da obra. Vamos, à seguir ouvir sua versão do drama.

Afonso Junior Ferreira de Lima

poema ao eu lírico

por sorte minha vida 
foi completamente inútil
(e nem completa)
por sorte não me preocupei de mais
com coisas curtas e extremas
devo tudo ao meu eu lírico
a ele devo minha angústia, meu choro
o beijo sobre a grama no alto do abismo
e - realmente - meu riso de flor forjada
posso ser esse vazio de máscaras
colhendo as dores da humanidade 
a esmagada
por ele fui todos e nada

agora sabemos aqui tem uma plateia
que é o pensar e como 
que cada isso é o que é e nada expressa
todavia via - mundo chama 
pele de peixe vibrar do mineral vivo
analítica das chamas tremores
vamos ficcionalizar
(a verdade de uma realidade é a lágrima
repetitiva animalidade, sabedoria do pão)

a curta vida a inútil dobra
desaparecer e desmoronar 
pensa no mundo, pensa na 
essência humana na indústria
meu sujeito lírico faz deus como objeto
solidão de rochedo ou juízo dos sentidos
portal do sonho sem esperar 
e revela o abismo fundamental 
união desunida impessoal amor
do binário tudo que se fixou 
o para além da realidade 

Afonso Junior Ferreira de Lima



sábado, junho 17, 2017

Acalanto

você já come mamão
já bate seu tambor
você vai aprender
como se diz galinha
(e espero mesmo que
veja uma galinha)
você vai aprender
a comer com garfo
e nós babando com isso
crescer é saber sempre menos
você, quero ver o que traz
quero ver o que me ensina

você vai aprender de tudo
pense sempre
e despense
nada está definido
seus irmãos
estão no mesmo barco
decifre o momento torto
você
não tem governo
e nunca terá
abrir espaço é preciso

sofrer talvez e o que te digo
aprender é o melhor
você já tem 7 meses
pode dobrar seu cobertor
estamos no mesmo barco
olhar com solidariedade
tudo que cresce e dá flor

não pense que o mundo é seu
eu sei porque já pensei
bicho metido
não é convidado conformista
pelo rio é levado
a lei que é festa sem fim
fica maior que o mistério
que é ter outro
junto de mim
acumular amigos é melhor

abrir espaço é preciso
você, quero ver o que traz
quero ver o que me ensina

só tem essa bolinha azul
as nuvens você vai pintar
eu queria te ensinar
a amar, a amar

Afonso Junior Ferreira de Lima






quarta-feira, junho 14, 2017

sobre as nuvens

eu não deveria me mover, chuva, estéril murcho campo, a multidão gira, as sombras que suspiram, como a produção, sapatos ensopados, tokyo vertigem, produção da classe, o sangue na imprensa, milhares de desempregados, call center, ele que caminha pela terra, um príncipe dos três montes, não assinou, não quer pintar por dinheiro, meu amigo, mas estás morto, a villa no fim da cidade, volte para mim, ele diz, já não trabalha, você me desalojou, eu brotava no início da primavera, purgatório, seu saber não de compartilhar, seu poder assentado sobre livros, seu medo, zona contaminada, você me entrevista e eu não devo ser bem-vindo, o que é importante e o que é inferior, palavras mortas, ele os homens sujos que despejam dejetos na rua, roubam o ouro, Lorde bêbado comanda o ataque, vira comandante, o vício do comércio dá mais, eles colonizam seu próprio povo, senhores da morte, uma tempestade Lucy, escombros de casas, óleo vende mais, rosto vermelho, veste o terno surrado, atravessa o Sena, ela foi embora, mas eu sai, eu entrei no mar, eu me purifiquei no fogo e no ar, eu sai da prisão permanente, vigilância permanente, eu toquei as coisas sagradas, eu coisa, são as árvores que falam comigo, eu sofri e vivenciei, eu sei, a aurora, um som e as flores, a moça jovem com ramos verdes, o barco segue, seu deus é a medida de todas as coisas, conselho noturno, se os astros são perfeitos a alma está acima do corpo, órgão de vigilância supremo, voltar à razão, num mundo de escravos, a fala como ordem, radicalização dos soldados, desumanização do tempo, controlar a organização do mundo, não assinou, por Lucy, o custo da vida, paga a conta do bar, fecha a porta, duas almofadas no chão, fecharam todas as galerias de Paris, eu sento sobre a pedra e choro, eu sou acusado, mão-de-obra barata nos jardins do governador, caminhamos pela noite, nossos sapatos velhos, grito das gaivotas anunciando rio podre à vista, amontoado de resíduos, templos, altares, procissões, eu não esperado, o que brota, não deveria me mover, você me fez vagar pela terra sem água, a raça que não deve brotar, cantar de água novo, leitor hipócrita, a voz controla, o deus das fronteiras, a deusa dos casamentos, o deus dos guerreiros, o deus dos embaixadores, sonhador e seu eu sonhado, eu toco a música, cadáver florido, um crânio de demônios, a procissão dança, zombaria e risada, o santuário da nascente, criança da terra, vivo, o inverno acaba, meu cálice, mas estás morto, assim foram feitos vossos pais, lamentos rítmicos, no escurecer das sombras, fade out, cidade fantasma, o ciclo todo, começa a germinar? ele continua

Afonso Junior ferreira de Lima

terça-feira, junho 13, 2017

Labirinto

Quem é? Qual cenário? Qual aventura?
O menino rico brinca de vencer o tirano.
As poções, feitiço, cidadela, mina.
Ou floresta e labirinto.
Agora estuda, passa, mérito seu.
Agora diplomado, agora na vitrine, promotor.
Toma decisões.
Entrar.
Falar.
Atacar
Cada uma vai para onde seu destino manda.
Vira celebridade, salva o país.
Acha na porta do carro um poema:

 - sr prefeito dinheiro
como se fabrica a miséria
quando a gente vira gente
no sei conceito viver
não é mérito, é de direito
explode queima deposita vira pó
é a verdade bruta
os pés negros nus do jovem na chuva
o pão paga a nação
a verdade sobre o estado
é o homem sujo carregando papelão

Afonso Junior Ferreira de Lima


sábado, junho 10, 2017

A nova casa

Ela abraça seu filho. Ela é fotografada na grama com seu filho. Ela caminha na praia com seu amor.
O pai abraça a criança. O pai veste pulôver e ouvem aquela música japonesa.

Chegados do interior são descarregados em favelas da metrópole.

Ela pensa no seu pai, a cidade toda está demolida como se fosse vítima de uma catástrofe.

Precisariam remover as tábuas largas de ipê, que cobriam o piso da sala, tão envergadas.

Agora uma xícara nova. Agora o leite fresco. Agora a criança sorri.
Um desavisado passa pela cozinha e é pego.

Agora, escreve sobre os mortos, mas todos estão mortos. Imagina um terrorista que descobre que está morto.

Quatro aparelhos, o pai disse. Caixa laqueada de branco, nas salas de estar, de jantar, na varanda e no canto de leitura.

A luz já estava pronta. havia o perigo de uma revolta. Mas o prefeito prometera usar milícias em caso de distúrbios.

O que ela mais temia era o fim da esperança. De repente, ninguém tinha um emprego.

Agora, escreve sobre como os mortos continuam vivendo com seus implantes eletrônicos.  O terrorista acha que não era preciso ter sido salvo. Não seria salvo se a prisão não quisesse mostrar o perigo dos pobres das favelas.

A catástrofe. Lembrava de seu pai cantando com os outros trabalhadores. Ele tinha conquistado coisas.

Agora, o bebê na câmera. Agora, seu marido acordava. Agora, um banho delicioso.
A equipe demitira o desavisado.

Cada etnia e fé tinha seu bairro. A guerra era constante.

Agora, escreve sobre o terrorista que é libertado e descobre que se cair de um abismo será reavivado porque ele é uma peça como qualquer outra. Ele lembra a todos sobre o evento inicial, o dia em que os policiais tiveram de atirar nos sindicalistas e as empresas fugiram.

As flores amarelas na cozinha com toques de azul. O armário mineiro recuperado como cristaleira com ganchos para xícaras. O novo patchwork de Madagascar no pufe da biblioteca. O conjunto de chá Leeang e as lanternas com vitrais deixarão a sala mais aconchegante. Outra ficção.

Ela olha pela janela, um dia cinzento: "São massas de trabalhadores mal pagos e subempregados e sem educação".

Caso de distúrbios, as milícias são chamadas.

Afonso Junior Ferreira de Lima


quarta-feira, junho 07, 2017

l'heure de la nuit

on dirait qu'il existe quelque chose en dehors de la bibliothèque. amour - séparation - amour -séparation : pas nécessairement dans cet ordre lá. il existe quelque chose qui écoute - il éxiste cette voix de dehors - ceci est un livre de fiction - l'endroit est sans fenêtres. Il faut connaître ce passé. Je disais - il faut que nous donnons une chance à l'humanité, à toi. Confrontations, le son des helicoptères , des coups ont été tirés. Les conquêtes ont été moderées., mais même pas ça on veux accepter, C'est le cas dans la bibliothèque. Où les récits A,B, C ou plus conversent. Dans la nuit obscure la lune. Une fenêtre. Il ne sera pas faîte de synthèse. Le moi est entrainé par le temps. Les reflets. Il ne sera pas possible d' affirmer que nous pouvons affirmer une realité. Je pensais qu'il fallait que je grandisse et accepter les gens comme ils sont. Un peu plus de sensibilité ce n'était pas de sensibilité suffisante. il marche par le blé, roux et beau, il ouvre le livre, le soleil. La brutalité en dehors de la bibliothèque. On chuchote. Il a été emprisonné, emprisonné injustement, la fumée, l'armée est dans la rue. Sans fenêtres. La lune. Un éclair c'est le temps de l'identité qui unit, ne peut pas être integré. Il existe des gens que ne peuvent rien voir en plus du moi. C'est une question epistémologique, pas morale. Le flux de l'ésprit comme personnage. Et, de quelque façon, les sons tous, les sons dansants, ont besoin d'arriver à un travail de conclusion de semestre. Il laisse tomber le corps, déborde, une ombre passe devant le soleil, il a changé son ton de voix. L fable de quelqu'un en train de fabuler, je suis dans ça, après je me sépare. Jamais on dira , oui, c'était moi, je me rappele. Si tu veux demander pour quoi ils ne voient pas aucune autre chose en plus d'eux mêmes, ils demanderaient : quelle autre chose. Qui c'est ce moi dans l'ombre, dans l'obscurité. Imaginer, l'aventure. .Voix, auditeur et celui qui imagine à table. Première personne nié. Les déchets dans les rues, des flammes dans la rue. Le président parle, personne ne croit. Ceci est en train de vraiment arriver. la loi est privée. Veux la biblithèque. seulement la bibliothèque donne realité à la perception. Regarde l'homme passé avec les yeux bleus, obcure, la lune. les feuilles vertes, l'éclat de la nouvelle saison. Seul, il se divise, cherche de la compagnie, chuchotent ensemble les enfants faits dans l'obscurité. C'était trés beau, ce vin là et la voix qui faisait des échos, la serviette blanche, les fleurs. C'était comme ça que nous sommes retournés à croire. En vain. Bleus, sans vouloir des rélations. Sens le frère, l'autre, mystérieux, entre les pierres de la chambre sphérique. Soolitude amie. A besoin. Je croyais être en train d'interagir avec quelqu'un. Réalité inventée. Dans la tête. L'enfant seul dans le bois, chuchotent ensemble dans l'obscurité. Marche par les murs de heritées verités signifièes. La nouvelle, personne ne croit. Il n'y a pas d'importance, l'imagination qui aide à illuminer. Nouvel avertissement. Fermée la Bibliothèque la nuit. Je croyais que tu étais quelque chose presque integrée et pas des impulsions mal ajustées et morceaux cassés. À la fenêtre, dans une nuit obscure, à table, impulsion incontrolable, vie inventée, images d'une vie, le poème passé, il le faut. Afonso Junior Ferreira de Lima Traduction Etienne Blanchard

A hora da noite

Parece que existe algo fora da Biblioteca.

amor - separação - amor - separação: não necessariamente nessa ordem.

Existe alguma coisa que ouve - existe essa voz de fora - isso é um livro de ficção - o lugar é sem janelas. É preciso saber desse passado.

Eu dizia - temos de dar uma chance à humanidade, a você.

Confrontos, o som dos helicópteros, tiros foram disparados. As conquistas foram moderadas, mas nem isso se quer aceitar. Caso na Biblioteca. Onde as narrativas A, B e C ou mais conversam.

Na noite escura a lua. Uma janela. Não será feita uma síntese. O eu é arrastado pelo tempo. Os reflexos. Não será possível afirmar que podemos afirmar uma realidade.

Eu achava que eu tinha de crescer e aceitar as pessoas como são.
Um pouco mais de sensibilidade não é sensibilidade o bastante.

ele anda pelo trigo, ruivo e belo, ele abre o livro, o sol.

A brutalidade fora da Biblioteca. Sussurram. Ele foi preso, preso injustamente, a fumaça, o exército está na rua.

Sem janelas. A lua. Um relâmpago é o tempo da identidade que une, não pode ser integrado.

Existem pessoas que não podem ver nada além do eu.
É uma questão epistemológica, não moral.

O fluxo da mente como personagem. E, de alguma forma, os sons todos, os sons dançantes, precisam chegar a um trabalho de fim de semestre.

ele deixa cair o copo, derrama, uma sombra passa em frente ao sol, ele mudou seu tom de voz.

A fábula de alguém fabulando, estou nisso, depois me separo. Nunca dirá, sim, era eu, eu me lembro.

Se você perguntar por que eles não vêem nenhuma outra coisa além de si mesmos, eles perguntariam: que outra coisa?

Quem é esse eu na sombra, no escuro. Imaginar, a aventura. Voz, ouvinte e imaginador na mesa. Primeira pessoa negado.

O lixo nas ruas, chamas na rua. O presidente fala, ninguém acredita. Isso está mesmo acontecendo. A lei é privada. Quer a Biblioteca. Só a Biblioteca traz realidade à percepção.

Olha o homem passado de olhos azuis, escuro, a lua.

as folhas verdes, o brilho da nova estação. 

Sozinho, ele se divide, busca companhia, sussurram juntas as crianças feitas no escuro.

Foi lindo, aquele vinho e a voz ecoando, a toalha branca, as flores. Foi assim que voltamos a acreditar. Em vão. 

Azuis, sem querer relações. Sente o irmão, o outro, misterioso, entre as pedras da câmara esférica. Solidão amiga. Precisa.

Eu acreditava estar interagindo com alguém. Realidade inventada. 

Dentro da cabeça. A criança sozinha no bosque, sussurram juntas no escuro.

Caminha pelas paredes de herdadas verdades significadas. A notícia, ninguém acredita. Não vem ao caso, a imaginação que ajuda a iluminar. Novo aviso. Fechada a Biblioteca à noite.

Eu acreditava que você era alguma coisa quase integrada e não impulsos mal ajambrados e pedaços partidos. 

À janela, numa noite escura, na mesa, impulso incontrolável, vida inventada, imagens de uma vida, o poema passado, é preciso.

Afonso Junior Ferreira de Lima

terça-feira, junho 06, 2017

Real

o efeito do real, acumulação de detalhes da vida diária, mas quem sou eu?, quem sou eu para falar?, depois que a história foi chutada, depois que a subjetividade foi trazida, depois da máquina-moderna, do poder moderno, da produção de kafka, mas aí está você, você com suas pernas sujas, seu cobertor molhado, pedindo um dinheiro, feijão e arroz, carne, e eu tenho de falar de você, por você, a forma como a menina lhe deixou e você veio, a cidade lhe rejeitou, tenho que contar que um banho custa caro, que anteontem tomaste, e eu tenho algo a fazer, eu não posso ouvir, eu te dou algumas moedas, comida e volto ao meu texto, mas agora foi fechado o hotel que custava 5, só tem de 10, drogas lá dentro, mas você não, nunca, e eu quero lhe dar uma marmita, medo da polícia, mas você não gosta de lasanha, arroz enche mais, e você volta pra a entrada do metrô, e teve de dormir na rua na inundação, e eu volto com 10, e amanhã não sei se estará, e eu tenho de seguir, a mim coube, do tênis que o trabalhador precisa, do sabão que o trabalhador precisa, daquele que nem é trabalhador e precisa, subversão, o efeito do real, e eu tenho de escrever que é quem sou 

Afonso Junior Ferreira de Lima

segunda-feira, junho 05, 2017

Navegar

Aqui eu sigo, entro, correnteza, o azul ou verde somente na praia, porque na vida, no dia, o mar não tem cor, o ciclo das coisas, arrastado, que o tempo leva, ontem tumulto, na rua esperando, não vão nos receber, não vão nos ouvir, agora o silêncio, palavra congelada, eu me lembro, eu mergulho, jovem assustado, o deserto, foram na infância os monstros, as deusas e a morte para desunir o pacto, e por fora branco, aquele tio tão gordo, chegando eu, caçador feliz, existe algo além da muralha, uma Noite, os palhaços, a ilha, ele caminha pela lama com suas botas novas, luvas de pelica, de braços dados com um dia de verão, comendo peixe e tomando vinho e minha vida de jovem oprimido eu via de cima dessa torre, cantamos nas tavernas, juntamos os cacos, o eco nos ossos, as rotas bloqueadas e a procura de um caminho, a força estrangeira, traição, eu sigo, as capas vermelhas, eu ganho fama com o peso, eu sou da frota de novos juncos para o Relatório Geral das terras bárbaras, o porão, aquele homem sobre Sodoma, eu precisava dele, as multidões nas feiras, em promoção, levo na arca os loucos todos, esse livro da Idade Média extra-ordianariamente diverso, beijo da mãe na testa, vício instintivo, encontro numa plataforma de estação rodoviária, que realiza o homem, natureza informável, e disse o coronel - percebe-se que o senhor não conhece os filhos de Judas, essa raça só faz trair há séculos, a névoa sobre a rota, e já uma estrela, é preciso, eu lembro, eu vou, o desconhecido, fantasmas eu vi em rima, neve, oficial de cavalaria, aquilo que salta, meu deus!, o que fui fazer!, de bruços, paro antes de ver uma mulher e um trem, pesca na estante, companhia necessária, são muitos ruídos, autorizando o comércio e as conquistas dos pagãos, aceito a frase, imaginação ligeira, maior que tudo, o amor frio, o retrato de corpo inteiro dele, toda a minha arte, arte inútil, a irradiação da própria beleza, o elogio da loucura e a música do prazer na colina, os desejos sufocados que envenenam o espírito, o sol e as flores, que divertimento!, que mergulho!, o beijo de uma onda e os sinos, a vida é mais, terra não vista, costurando textos, reverência crítica, resistir ao mundo-aí, o tempo muda, a tempestade, na terra estranha, homens suspeitam, recolho os guizos, minha chama é guia, trocar de pele, inveja, sangue e luta, a sociedade é mal organizada, a queda e os invasores, e sempre a viagem, farrapos on the road, barco enviado, por Preste João, a gaivota solitária, chego ao Índico, à beira do rio, marginal fétida, nas noites sem lua, tremor e eclipse, agora a navalha, o lodo escuro, o machado afiado, incêndio do livro, a língua crespa, algo avança, eu conto, o texto risco, me livro, eu vivo, o ato todo, o mar na tarde se vai apagando, recomeça, aqui eu sigo.

Afonso Junior ferreira de Lima