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terça-feira, março 29, 2016

Como fazer um homem mau

Para fazer um homem mau, tire-lhe os sapatos.
Para fazer um homem mau, tire-lhe o cobertor quente.
Para fazer um homem mau, tire-lhe os livros e a escola.
Para fazer um homem mau, prenda seu pai, pague uma miséria à sua mãe.
Para fazer um homem mau, prenda-o por um nada, dê-lhe companheiros maus.
Para fazer um homem mau, tire-lhe toda a esperança.

Para fazer um homem mau, nunca perdoe. 

Afonso Jr. Lima

domingo, março 27, 2016

A cidade vazia


Elisabete estava sobre o tapete, escrevendo.
Sua mãe disse que tinha de se arrumar, sua tia precisava de companhia para o baile.
Ela odiava os bailes.
Foram. Em frente ao salão, pararam os cavalos. Quando saíam, começa a chover forte. Dentro, já se vê alguns convidados. Elisabete volta correndo para a carruagem.
- Não posso me molhar. Você sabe que minha saúde é frágil.
Voltam sem aproveitar a festa. A tia vai quebrando tudo enquanto sobe as escadas. Elisabete tem um acesso de tosse e todos saem para acudi-la. Subitamente não consegue andar. Chamam o médico.
- Ela não tem nada físico, parece, mas não está fingindo – diz o homem de barbas cinzentas.
Quando a levam até seu escritório improvisado no sótão, restos de manuscritos ardem na lareira.
-
Era dia de Páscoa, mas nada parece ressuscitar. Uma nuvem escura cobre a cidade, o vento inclemente.
Praticamente não sai do sótão. Lê, escreve.
Chegam na cidade inspetores enviados da capital. Algo está errado, os homens morrem cedo, a fumaça invade as casas, mais da metade das crianças morrem antes dos seis anos.  
O pai recebe os inspetores. Precisam analisar o cemitério paroquial, milhares de corpos lá estão há séculos. 
Elisabete observa o movimento desses homens. São altos, carregam maletas. Um deles parece perceber seu olhar.
Ela quer lhes dizer para incendiarem as fábricas.
-

Ela foi carregada até o jantar.
Tia Elda trazia um jovem poeta seu amigo.
A tia parecia quase normal.
- Uma mulher deve saber falar, mas não à ponto de afastar um marido – disse pela milésima vez. Elisabete estava irritada.
A tia continuava sua filosofia de igreja. Perguntou, por fim, quando Elisabete iria casar. 
- Tia, nós não creio que o Criador nos tenha pensado para vivermos numa gaiola. Podemos ler somente até o ponto em que vendemos melhor no mercado?
- Essa sua filha será exatamente o tipo de mulher a quem me refiro. Nenhum homem suporta uma mulher que quer ler versos em latim.
O jovem poeta olhou para Elisabete com um sorriso no olhar.

-
Ele gosta de seus poemas.

- E sobre o quê a senhorita tem lido?
- Estou lendo a história de um príncipe oriental que se apaixona pela pintura de uma mulher. Ele sai pelo mundo e acaba conquistando um tesouro.
- Duvido dessa teoria burguesa de que todos que não conseguiram um certo nível de prosperidade e conforto são preguiçosos e têm algo de errado.
- Concordo. Não acho que metade dessas coisas sejam divinas ou naturais. Os que estão na base da sociedade são menos inteligentes? Tudo num homem é sua força para conquistar? Eu, por exemplo, acho que ninguém tem o direito de condenar as mulheres à eterna bondade.
- Você já leu sobre a Itália?
-
- Os túmulo terão de ser removidos. Árvores serão plantadas no solo – disse o pai.
- A água é que estava contaminada, disseram os inspetores.
A tia encontrara um namorado, desaparecia agora depois do jantar e só era vista chegando às escondidas pelo jardim à meia-noite. Dava um jeito de roubar moedas da mãe.
Ela lia sobre Belacqua, o músico e criador de instrumentos que esperava em uma rocha com outras almas dos mortos no Purgatório - por sua extrema preguiça. Mas afinal, o que o Eterno quer de nós?
Ganhara um livro ilustrado. Copiava cidades-fortaleza no alto de montes. Vales verdejantes, o mar. Pequenas igrejas de pedra. Arcos que davam acesso a cidades medievais. Brasões esculpidos nas paredes.  
Podia sentir o vento fresco, a luz e o cheiro das vinhas que vinham do sul.
Não importava que uma tempestade arrancasse agora raízes antigas. De repente aquela cidade parecia uma cidade vazia e seu coração sentia-se oprimido.
Quem sabe seu destino não era como fugitiva?

-

Afonso Lima 

Rio

Eu ando pela margem do rio
Tudo é cinzento, o horizonte
É uma chama, a glória partiu
Revolta e maldade, indo para onde?

Marcas de insanidade, crianças com medo
Meu coração lembra da aurora antiga
Dos campos verdes, mas o que eu vejo
navios naufragados, homens com medo

Canto uma canção amiga
Tento estender a mão, uma moeda
São os grandes da nação planejando a queda
Cães ladram, a noite cobre as coisas

Anjos, fogo e gritos, e estrelas no céu
O mundo sempre quer a liberdade
Eu ando pelas margens cinzentas
É uma lua pequena, luz escondida

Afonso Lima


A esperança

Caía a pátria
feito um pato
é a ordem
que partiu
os bêbados
sonhando ainda
não aceitam de novo
esse relato
a esperança, que nunca é finda
quem diria nessa linha estranha
avança e a multidão linda
quer outro rumo, em campanha
as estrelas, agora, são lei e papel
que estranha essa escuridão
não com irmão do henfil,
mas com silêncio


Afonso Lima








sexta-feira, março 25, 2016

Black Magic - dramaturgia



Black Magic

Afonso Junior Ferreira de Lima
Prólogo

Vozes? Sem corpo? Uma febre. Estou tendo alucinações.

É o que os ateístas sempre dizem.

Eu por acaso mereço?

O egoísmo e a ambição, a lei agora. Não dou conta de atender os pedidos para pactos. Vamos imaginar que tudo não passa de uma peça. Estamos criando uma peça juntos, tá?

Eu sou apenas um colunista de jornal.

Vamos aos fatos: o presidente tinha 86% de aprovação. Ia fazer reformas profundas. No exterior, debatiam sobre intervenção militar ou apoio com armas, combustível e munição. Espiões entraram no país.

Até o diabo apoia as greves e os radicais de esquerda.

O que o senhor fez foi criar uma história na qual o presidente deposto é um covarde que fugiu para cuidar de suas vacas. Mas, seguindo o correto procedimento legal, o senhor pode ganhar menos anos no caldeirão se servir de testemunha. Vejamos, quem o senhor pode denunciar?

Mas o diabo não sabe tudo?

Sim, mas a testemunha é uma peça fundamental. Na condenação.

Eu posso contar quem quebrou todos os ossos do professor Teixeira. Ele não caiu no buraco do elevador, claro. A aeronáutica tinha ódio a essa coisa de reforma educacional.

Um bom começo.

Quem eram os chefes das prisões?

No navio no porto de Santos?

A prisão da caldeira...

Tortura à cinquenta graus...

A da água gelada no joelho...

E a da merda. Três belas masmorras.

Os nomes daqueles que diziam: "Se me der 10 mil dólares, não torturo sua filha". E dos que bateram nos camponeses que deram comida à luta armada, que viraram mingau de sangue e foram amarrados em sacos e jogados na mata.

Ok. Ok. Vamos negociar. Vamos ter de começar a mandar gente pro Purgatório, para liberar um círculo inteiro para a imprensa.

1
- Eu lhe dei o desejo. Eu lhe dei, lhe dei um desejo.
- Sim, mas quero que você vá embora.
- Você me usou. Eu estaria pronta pronta para fazer tudo por você. Fazer seus inimigos serem, seus inimigos serem sugados por insetos. Fazer seus inimigos ter pesadelos inimagináveis e vomitar sangue.
- Eu pedi que acreditassem em mim. Mas agora...
- Acho que você foi longe demais. Muita fome, muita.
- Eu precisava disso, eu tenho uma missão.
- A lei é uma coisa frágil, como teia de aranha. Você assopra, pluf!
- Por favor, vá embora, vá embora, vá embora!
- No fundo, você é mau, mas não me importa.
- Eu quero ficar sozinho.
- Não.

2
- Filho. Li no jornal. Esse João foi cruel com a gente. Vamos botar na TV.
- Pai, calma. Nem parece... Calma, tô aí, atrás de uns documentos...
- Filho, eu vi no blog do Walter. Não pode nos humilhar assim. Animal.
- Pai, foi vazado de propósito.
- Quero na TV. O destino do dinheiro.
- O carinha já tá aqui na TV.
- Pediu pra ele?
- Sem pressão. Mostrei tudo, falei.
- Pressão não, quero solução. Quero ver beijar a lona.
- Tá saindo no jornal pouco a pouco, a vazada foi planejada. Como vai o túmulo?
- O granito chegou. Mas vem cá, temos de usar a TV, o cara é nosso adversário. Depois a gente fala mais, pega um avião.
- Ah, tá certo. Tô de olho, beijo.

*
- Mas é muita ousadia sua. Eu devia ter percebido. Memória estava cada dia mais pálida.
- Tempo, você sabe que eu apenas sou a personificação da ambição e egoísmo emanados da humanidade. Nem mesmo a Torre Insondável pode me destruir porque também observa Sabedoria que guarda as Leis.
- Eu exijo que você devolva as memórias aprisionadas entre o tempo, tudo aprisionado até agora.
- Seu irmão Espaço não continua se dobrando e seguindo, esquecendo esse infinito entre dois momentos?
- Nós vamos juntos até Memória e você vai restituir o significado perdido.

3
- Olha doutor, o senhor acha que eu vou engolir que sua TV está dizendo que perdi?
- Não é minha TV, é o instituto.
- O Homero me mandou as pesquisas, eu ganho em todas.
- Mudanças. Não enche.
- Olha aqui, o senhor não aceita. Não tem mais bilhetinho de farda, não tem mais eles mandaram. Agora tem de dar explicação.
- Minha paciência está acabando, candidato. Vai em frente vamos ver se acreditam.
- O senhor é parente, mas não é Deus.


4
- Preso pelos pés, pés cortados com unhas finas, nossas línguas venenosas na sua orelha derramando fogo, ondas sobre seu barco, chamas nos portões de sua casa...
- Não. É preciso que seja pela lei.
- Os seres invisíveis gostam disso. Uma caverna escura, um vento pestilento, um tempo sem tempo pode desfazer a alma como neblina cinzenta, puf!
- Prender por muito tempo?
- Seus inimigos são meus inimigos, seres que rastejam, quando a lua coberta de vapores surge no céu, seres que bebem sangue, que alimentam ambição e traição, afiam punhais e enviam sonhos, nós estamos contigo.
- Eu quero que você vá embora.
5
- Mas eu não tenho garantias. Tô devendo até a calça.
- Quem não sabe. Eu sou diretor! Vou te dar crédito.
- Não vão aceitar.
- Vão. Coloco a grana dos fundos dos funcionários.
- O Carlos vai depositar $400 mil dólares na tua empresa. Envio pelo Uruguai. Comprou bem.
- Sim. Pensa bem rapaz, três estatais!
- Agora compro aquela ilha na Bahia.


6
- O chão era coberto de brasas queimando. Cheiro de queimado. Ruínas de casas. Um velho e uma mulher saem da escuridão, carregam pedras. Chamas. Uma criança sai debaixo de uma cama destroçada, estava no hospital.
- Você atribui isso tudo a fada de sua família?
- Foi o que ela disse.
- Que besteira.
- Ela disse.
- Que alguém morreria?
- Sim.
- Você percebe que agora não temos mais um inimigo? Que a Defesa perde orçamento? Que as rebeliões não serão mais subversão comunista?
- Você acha que é apenas culpa pequeno burguesa com nosso império e bases militares?
- Fadas não existem.

*
Quando você abrir esse envelope eu já terei dado um tiro no peito. Como tudo começou? O regime de garantia do trabalho. Forças contra o povo. A oposição fez parecer que eu ordenei um atentado. Eu não ordenei. O pistoleiro atirou foi no segurança. Na base aérea, a tortura gera uma confissão. A oposição quer minha renúncia. Só saio morto, e assim fiz.
7
- Obrigado por vir em meu sonho. Eu vou jogar tudo. Eu vou acabar com essa vaca.
- Eu me orgulho de criar monstros. Antes a gente tinha que fazer sujeira. Que atraso.
- Mestre, lembra quando eu cobrava pedágio dos empresários? Com a Comissão de Fiscalização?
- Arquivamos. Eu me orgulho da magia negra, mas muito mais da magia legal.
- E quando ficamos com o fundo de pensão dos funcionários de Furnas?
- A chantagem é uma arte. Com prejuízo de 300 milhões, tudo no duto do Valério.
- Um pouco de medo.
- Não, os ladrões são de confiança. Em trinta dias o país cai à seus pés.

8
- Eles estão contra mim.
- Sim sim contra mim.
- Eu não sou você, vá embora, você me deu um desejo ruim.
- Você queria queria muito e todo mundo acreditou, você prende, você obriga, você é o rei agora. Não, não, não quero ir embora. Menino mau.
- Eu fui humilhado. Estão me perseguindo. Quero meu pedido.
- Um pedido? Uma cobra venenosa que paralise seus inimigos? O pânico? O manto da santidade? mau, mau menino mau.
- Vá embora. Eles vão me prender. Mas antes eu quero destruir.
- Feio, feio. Os homens nobres eu conheço os sonhos. Eles sonham com ouro e coisas mortas. Os camponeses sonham com brotos e água corrente. Agora não posso. Não está na época.
- Eu precisava disso, eu tenho uma missão.

9
- Não podemos viver sob ameaça, ele dizia. Homens encapuzados nas sombras. Armas. Se nós ficarmos inertes e não atacarmos, nosso inimigo se infiltrará lentamente, acabando com a liberdade e a independência. O fantasma fazia com que eu ficasse preso à minha cama, não podia de fato me mover, mesmo tendo os olhos abertos. A noite era muito fria e um vento passava pelo vidro. É preciso ser agressivo, dizia ele. É preciso salvar os 20 mil soldados mortos, a credibilidade. O fantasma olhou nos meus olhos e sua pupila era brilhante como espelhos. Eu vi fogo e armas nos seus olhos. O petróleo é importante demais para aqueles árabes, ele disse.

*
Na minha peça seria dito -
Ministério da Guerra
Estado Maior
Rio, 20 de março de 1964
Aos Exmos Generais e demais militares do Estado maior do Exército e das organizações subordinadas.
São evidentes duas ameaças: O advento de uma constituinte como caminho para a consecução das reformas de base e o desencadeamento em maior escala de agitações generalizadas do poder ilegal do Comando Geral dos Trabalhadores.
As Forças Armadas são invocadas em apoio a tais propósitos.
A ambicionada constituinte é um objetivo revolucionário pela violência com o fechamento do atual Congresso e a instituição de uma ditadura.
Defender privilégios de classes ricas está na mesma linha antidemocrática de servir a ditaduras fascistas ou síndico comunistas.
O CGT anuncia que vai promover a paralisação do País no quadro do esquema revolucionário.
Entrarem as forças Armadas numa revolução para entregar o Brasil a um grupo que quer dominá-lo para mandar e desmandar e mesmo para gozar o poder? Para garantir a plenitude do grupamento pseudo sindical, cuja cúpula vive na agitação subversiva cada vez mais onerosa aos cofres públicos? Para talvez submeter a Nação ao comunismo de Moscou?
Chefe do Estado maior


10
- Olha aqui, agora é atacar com tudo.
- Entendo.
- Põe um e outro no mesmo saco e acaba com eles.
- Obrigado, doutor.
- Esse traidor, que eu escolhi até ministro dele. Se ele encostar nas classes D e E, você cai.
- Monta um estúdio lá. Ataca o Camões Al Capone pessoalmente.
- Eu chamo de desonesto, fraco, essas coisas?
- Fraco, incompetente, político de segunda... eu, por aqui, acaso com editoriais, caricaturas, chamo juristas.
- Ok, obrigado.
- Vamos lá Caçador de Corruptos. Vamos levar essa.
*
Depois de bem açoitado, o senhor mandava picar o escravo com navalha ou faca que corte bem e dar-lhe com sal, sumo de limão e urina e o meterá alguns dias na corrente... Bacalhau é aquilo que é como se diz?… Como aquilo que é couro… Um relho! Pra quem viu o cativeiro como eu vi… É triste. Olha… se você não queria dançar, você tinha que levar couro. Se não queria fazer qualquer coisa, tinha que apanhar. Tinha tronco. Às vezes, passava mel, os bichos picavam. Tinha tronco de campanha, tinha tronco de botar nos pés, tinha tronco de botar no pescoço, tinha isso tudo.”

11
É um acordo, botar o cara, num grande pacto nacional.
Com o Supremo, com tudo.
Com tudo, aí parava tudo.
É. Delimitava onde está, pronto. Parava toda essa investigação da porra.
Com alguns ministros do Tribunal conversei ontem. Dizem 'só tem condições sem o presidente. Enquanto ele estiver ali, a imprensa, os caras querem tirar ela, essa porra não vai parar nunca’. Entendeu? Então…Estou conversando com os generais, comandantes militares. Está tudo tranquilo, os caras dizem que vão garantir. Estão monitorando tudo, para não perturbar. Eu acho que tem que ter um pacto.
Um caminho é buscar alguém, uma ligação com o relator, mas parece que não tem ninguém.
Não tem. É um cara fechado, foi o presidente que botou, um cara… Burocrata.
- Ex-ministro do Tribunal de Justiça.
Eu ontem fui muito claro. Eu só acho o seguinte: com o presidente não dá, com a situação que está.
*— Ele me disse: “A gente está fazendo uma bancada de 140 deputados, para ele ser presidente da Câmara”. Perguntei: “Ele?”. Ele respondeu: “O Eduardo. O Congresso fica parado, a crise piora. Se der, tiramos o presidente.

12
- Colocou fogo?
- Queimamos e colocamos fogo.
- Agora sim. Só que me faltava. O governador nos liberar a ilha...
- Dois velhos na sombra de uma árvore! Vão pra puta que pariu.
- Puta merda. Já não deu os índios - prefeitura de merda, precisava fazer doação? Sorte que a Procuradoria...
- Esse terreno é pra gente grande. Pra que serve índio Jesus, me fala?
- Quero fazer uma puta mansão! É um dos lugares mais lindos do Atlântico.
- Quero ver não passarem a terra agora. Dou dois meses.
- Tá todos os caras convidados pro churrasco de inauguração da obra! Vou erguer uma mansão de dar inveja ao Demônio.
*
Na minha peça seria dito:
"Portanto, é altamente desejável que, se a ação for tomada pelas forças armadas, tal ação seja precedida ou acompanhada por uma clara demonstração de ações inconstitucionais por parte do presidente ou seus colegas ou que a legitimidade seja confirmada por atos do Congresso (se for livre para agir) ou por expressões dos principais governadores ou por algum outro meio que dê substancial reivindicação de legitimidade ".

13
- Eu temo que seja o próprio demônio.
- E por que não um dos mortos voltando?
- Ele conhecia minha alma. Sabia da minha ambição. Quando meu pai teve de vender sua empresa. A maldita fez com que os negócios se abrissem, a concorrência nos matou. Eu prometi.
- E foi para as Falklands.
- Ele aparecia todas as noites. Eu comecei a trabalhar na espionagem.
- E você ainda ouve essas vozes?

*
- Aqui está você, Solitário. Não basta o trabalho que tenho nestes dias, ajudando a demolir o mundo, tenho que correr pela terra, pelo ar, pelo fogo e pela água em busca do Cão Eterno.
- Suas gentilezas me acariciam, Senhor da Ignorância. Eu junto desses pequenos intervalos destroços. Caminho entre o tempo há tempo suficiente para sentir que a densidade da montanha mudou, as pedras já não têm a mesma gravidade. Você está roubando a pequena memória e, portanto, a contingência.
- Estamos prestes a viver uma Nova Era de Esquecimento. Colonizaremos o mundo como força militar e servidão dos ossos. Mas eu percebo o que você está desejando. Eu lhe afirmo que nosso pacto...
- Eu vou falar com Tempo. Eu vejo as coisas de longe e tudo se torna alegoria. A alma fora do tempo está perdendo espaço. O Sonho tem uma face cinzenta e que crispa-se de ódio. O pulsar foi congelado e criminosos, suicidas e assassinos que andam pela terra abrem as portas do Limiar para demônios e gárgulas.
- A Casa dos Segredos já está crescendo no coração de muitos homens e mulheres. Esse lugar espalha o frio, enquanto eu recolho as memórias entre os tempos. Eu poderia destruir você agora, mas acho que nem mesmo Sabedoria poderá parar o desejo das multidões.
*
Você está me assistindo, eu estou aqui dizendo isso. Poderia ser um filme, um filme de horror, mas não. Nós precisamos apenas ficar aqui e preencher esse tempo. Temos que fazer esse drama. Vamos falar sobre o mal e a justiça.
Eu diria:
De 1960 a 1967, trabalhou com a Polícia, primeiro em Belo Horizonte e depois no Rio de Janeiro. Documentos mostram que ensinava como usar choques elétricos sem deixar marcas. Em suas aulas de treinamento em tortura na polícia de Belo Horizonte, dava "demontrações práticas" de tortura utilizando-se de presos, mendigos e indigentes. Mitrione insistia em utilizar-se dos manuais, os Manuais KUBARK, insistindo que eles refletiam o fato de que tortura eficaz é ciência ("effective torture was science"). Em 1969 foi para o Uruguai onde continuou suas atividades em treinamento de tortura enquanto posava como encarregado de negócios na Embaixada Americana.


14
- Presta atenção, Astro, deu merda lá em São Paulo.
- É? Enquanto não derrubar esse Ministro da Justiça.
- Lá em cima o Juiz amigo negou minha prisão, né?
- É. E deu merda?
- Foi, mas sem problema. Nosso amigo chegou no apartamento, chegaram dois sujeitos com foto, se identificaram como agentes, essa coisa.
- Atrás dele? E a mala que eu dei pra ele?
- Calma, Astro. Mas ele não fez contatos, não tinha nada né? Então só aborta. Aborta tudo. Tá? Tá bom?
- Tá, tá, mas ele tinha alguma coisa?
- Não, nada, só dá uma olhada nas providências. Deixa passar, segunda você faz contato.
- Rapaz, que coisa. E teu pai deve estar preocupado com aquela outra coisa.
- É, a vaca não quer o Edi no ministério, puta de merda. Não tem como. Se não der eles não votam nada.
- Tá, espero você identificar por aí quem fez isso. E quem vai ajudar.
- Pois é. Maior dor de cabeça. Lá bem tranquilo, os caras aparecem, seu Gino escondeu ele e disse "deita aí no quartinho que a polícia está atrás de ti". O Tribunal vai dar habeas quanto for preciso, né? Nem falam com o Ministério Público. Essa investigação morre logo. Vou ver o que faço.

*
Como assim não existe conexão? O Carlos faz parte de um consórcio que ganha uma fatia da privatização e faz, depois, um depósito numa conta do Ricardo. O Gregório, o primo do chefe, leva a privatização da Companhia de Eletricidade – representava no processo da privatização uma empresa espanhola - e paga também. Isso não é conexão? Nós temos que lembrar que Ricardo era um cara totalmente ligado àquele processo. O cara que tinha o domínio da Previ e do Banco, que ajudou a formar os consórcios. Parece haver uma grande má vontade. O consórcio do cara ganha o processo e ele paga para quem faz a privatização. O que se queria: uma guia de depósito que dissesse “pagamento de propina feita pela vitória na privatização”?


15
- Ministro, não dá, como está o negócio? Se querem que eu tire essa vaca...
- A gente segura. A gente inventa de "não judicializar" a política e tal.
- Já vi que tem ministro aí no Supremo alegando que eu atrapalho minhas investigações...
- É, tem, mas a gente resolve. Limpo, limpo.
- Nossa base vai sair do lado da puta e deixamos que o vice assuma.
- Sim.
- Então tá, olha lá.
- Não se preocupe. Vamos falar disso, de que é assunto interno da Câmara.
- Fico contente. Hoje vou até festejar com o diabo.
- Sim, chama uma cachaça. Até.
- Até mais.
Epílogo
Eu disse, vai comigo, vai comigo eu disse. Praça de noite, com chuva, sozinho.
O padre ia na prisão. Eu estaria pronta pronta para fazer tudo por você, eu disse. Ele era padre na universidade. Rapazes, moças, todos, todos desaparecidos. Operários eliminados. Era noite, com chuva, eu falei: um desejo. Eu posso lhe levar para sempre. O padre disse: “Visitei a prisão”. Disse ao jovem: “Coragem”. Ele disse: “Não quiseram soltá-lo”. Um padre foi preso na aula, ele disse. Chovia. Vai comigo eu disse.

Afonso Jr. Lima





quinta-feira, março 24, 2016

Manifesto contra a palhaçada

Quero viver num país sem juízes que prendem para obrigar delação, que deveria ser voluntária.
Quero viver num país onde o presidente da Câmara não seja réu e possa pegar 184 anos de prisão.
Quero viver num país onde o Supremo não evite que o maior líder de esquerda ajude a mudar a situação do governo.

Quero viver num país onde a oposição perdedora não paralise o Congresso criando crise.
Quero viver num país onde os mercados não festejem uma quebra institucional.
Quero viver num país onde a “base aliada” não vire a casaca procurando a melhor negociata.
Quero viver num país onde o jogo não seja jogado na arena sigilosa de vazamentos ilegais sem debate público.

Quero viver num país onde os monopólios de mídia não possam ser usados politicamente e exista pluralidade.
Quero viver num país onde o cidadão não seja grampeado e seja levado de sua casa às seis horas da manhã de modo arbitrário.
Quero viver num país onde a educação não permita que as pessoas agridam as pessoas que pensam diferente.

Quero viver num país onde ladrões não julguem uma presidenta eleita.
Quero viver num país onde um juiz supremo não sente em cima de um projeto que ataca a fonte da corrupção mais torpe.
Quero viver num país onde a concessão pública não prepare a queda dos eleitos falando de crise e corrupção.

Quero viver num país onde a Polícia não faça campanha política.
Quero viver num país onde a lei valha para todos e a justiça não tenha partido.
Quero viver num país onde a palhaçada seja feita no circo e não por membros da Polícia, Ministério Público, juízes, PGR ou qualquer outro poder supremo.
Quero viver num país onde a presidenta eleita continue no cargo até outra decisão popular.


Afonso Lima 

30 dias antes da vergonha

Depois de um giro pela rede, TV e rádio a sensação que se tem é de que a crise existe: falta inteligência no Brasil. É a rádio do estado praticamente dizendo que Dilma é histérica e o processo de Curitiba uma normalidade plena. É o comentarista advogado na TV mais imparcial dizendo: “olha o que esse cidadão (juiz Moro) está fazendo pelo Brasil... é fácil ser pedra, difícil é ser janela”. Então, por que jurista andou pedindo a prisão dele?

Uma rápida olhada no passado colonial nos lembraria que tem coisa que vem desde Brasília:

“Na rodada seguinte de expansão, que é o Programa Grande Carajás, ainda na ditadura... vão construir uma ponta de organização do setor, o lugar em que você pode trazer as construtoras, que vêm para o Maranhão para tocar as obras. Você tem o esquema das construtoras, das licitações pra conseguir esses contratos, e a contrapartida em termos de financiamento de campanha”. (Dória, Palmério. Honoráveis bandidos. São Paulo: geração editorial, 2009)

O que garante uma estabilidade democrática?

Entre outros fatores, a imparcialidade da lei e a publicidade dos fatos discutidos com pluralidade. Ambos parecem em falta. A operação Lava Jato só na aparência tem a ver com corrupção; parece - ainda mais depois desse ato desesperado de evitar a posse de Lula como Ministro cometendo crime - um plano de "impeachment preventivo" Lula-2018.

Imparcialidade – Alguém se lembra que Youssef foi que operou com Mr. Big ou Ricardo Sérgio de Oliveira, ex-tesoureiro das campanhas do PSDB, o coletor de contribuições milionárias para os tucanos e depois – como diretor da área internacional do BB, indicado por FHC - ajudou a usar recursos públicos para as privatizações?

“Em quatro anos, entre 1996 e 2000, Mr. Big teria remetido uma montanha de dinheiro com a altitude de R$ 20 milhões (para contas de Alberto Youssef e Dario Messer, doleiros, na agência nova-iorquina do Banestado). (Ribeiro Junior. A privataria tucana. São Paulo: Geração Editorial, 2011, p. 93).

Mas a operação só foca na Petrobrás, certo e naquela fase na qual os aportes à estatal aumentaram, ou seja, depois de Lula.
Se agora o Brasil parou é porque também o PSDB ajudou sendo uma oposição intransigente. Chegaram ao cúmulo de parar qualquer votação enquanto não fosse votada a comissão de impeachment.

Ainda: “O ex-tesoureiro das campanhas do PSDB recebeu propina de Jereissati, um dos vencedores no leilão da privatização da Telebrás”. Ou: “O dinheiro público financiava a alienação das empresas públicas... a gratidão expressa-se zelosamente nas campanhas eleitorais do PSDB”.
(Ribeiro Junior. p. 65).

Um economista vem dizer que “se esse governo não cair”, “em permanecendo esse governo”... (A crise da China jamais foi lembrada como causa; que, em 2015, um em cada cinco portugueses estava abaixo da linha da pobreza). 

Então são os donos de ações que decidem se um país cai ou não num estado de exceção? A vergonha internacional de ser uma república das bananas onde a oposição não gostou e não deixou governar é desculpável porque “o mercado” ficou contente?
Até o pobre amigo Kotscho, cansado de guerra, chega a dizer que é melhor uma saída, qualquer saída. Qualquer não, amigo.

Um deputado da suposta base aliada, do PMDB-aquele, vendo cifrões já afirma: “Com tanta corrupção e crise. Se trata mais agora de defender nosso país”. É um Maluf de 30 anos.
Nosso diretor geral do golpe, digo, comissão, assegura que tudo está muito dentro da legalidade, pelo rito, etc. Ah, bom.

Até o presidente da Associação dos Magistrados Conservadores de Primeira Instância vem dizer da grandeza e bravura desse sujeito curitibano, de quanto é normal levar pito por “comprometer a segurança nacional” vazando a presidenta.
É uma vergonha que a OAB, que já foi a luz da consciência pública, pareça ter embarcado numa onda conservadora apoiando o impeachment risível.

O pior de tudo é que, se em 13 anos conseguiu-se acabar com a fome, construir casas, criar cotas, criar universidades, as togas, como se dizia na família Sarney, não são “nossas”. O PMDB como partido nacional, mesmo que fragmentado, ainda assusta por poder subitamente, tornar-se um furacão neoliberal como o governo Sartori no RS. A população opta por partidos nanicos com discurso moralizante e simplista, dada que a estrutura do ensino, estadual e municipal, ficou na mesma e o grau de informação da população é baixíssimo. Junto a isso, as Seis Famílias Irmãs mandam em 200 milhões de corações e mentes com suas verdades.

O último que elegeram com esse discurso eletrônico confiscou a poupança de todos os brasileiros e teve gente se matando.
A vida é outra nas redes, é claro. Houve, por fim:

"O Sindicato dos Advogados do Estado de São Paulo protocolou nesta quarta-feira, 23, uma representação no Conselho Nacional de Justiça (CNJ) contra o juiz federal Sérgio Moro."

Pensando bem, com tanto massacre sobre crise e corrupção é incrível que a maior inteligência esteja nas ruas, com as pessoas dizendo: “Não vai ter golpe”.
Em 30 dias uma presidente eleita pode ser destituída por um corrupto histórico e seus aliados.


Mas quem se importa? 

Afonso Lima