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domingo, agosto 20, 2017

fome

Fome da minha palavra
de achar o método entre
dizer a boca e tocar
o nervo

fome de ser gente
que silencia
reconhecimento

[nuvens no céu
o relevo da palavra
exata rio comum
parada

nuvens no céu
seu anzol no tempo
chão rio
as sombras]

risco
e desse gesto solto
viver no fluxo
regras

palavra corpo
caminho
fala ritmo
palavra árvore

matar o que em mim já sabe
recriar
fome de pele trocada

[nuvens
pintura de parede
exata flecha
no tempo]


Afonso Junior ferreira de Lima

sábado, agosto 19, 2017

Música

O silêncio interrompido da parede de música, vida cinzenta, ramos encolhidos, dentro do vidro, o turbilhão do fim dos tempos, um avião que desaparece entre as nuvens, ondas de som e o carro fúnebre que desliza, na pedra pingos de chuva no painel oceânico, policiais deslocados pelas notas, o pensamento sente o impacto da intensidade presente, pensa sem regra, capta a liberdade opressora da estrutura, aquele mundo cinzento de luxo, vidro, metal, o resultado é o caminho, é preciso se especializar, é preciso produzir, pensamento calculado, nada de metáforas, nada de cruzar fronteiras, houve uma guerra na rua, o poder criou uma ilha, o método é parte do fato.
Ontem, nesse espaço, a partitura voz-espaço beckett, um tambor ao fundo no azul escuro da queda, movimento da consciência, o piano, giram máquinas amarelas, as duas vozes - o pão de queijo duro que se come poucas moedas, pão da tarde, laranjas roubadas na noite, estudante humilhado, o turbilhão desmoronando, sopro, fim do tempo, não ser necessário, não precisamos de textos autoritários, lembra, eu não posso, não o real em pedra, nem o silêncio, a comunidade em algum lugar, entre o fluxo de imóveis móveis, não posso branco quase branco espaço zero, frio branco, explosão, ruína, gero em mim um vazio, buscar algo, escorre nas raízes, invadem o palco, os particulares autônomos chegam ao diretor, arte como forma do mundo, disposição, proposta de síntese, olhar para trás, questionar o método, ouvir as vozes, um velho ouve suas memórias, eu mesmo pingo de água, flor laranja, aqui me movo para aquele homem, como andávamos pelo parque, chove, amigos que param para fotografia, abrem os braços, um deles se atira nos braços de outro, tudo acabou tão mal, não é fácil romper, heranças, lama que arrasta, dique que rompe, pensamento-ação catástrofe do eu-natureza, fim do movimento. 
Aqui amanhã na parede foto de amigos. 


Afonso Junior Ferreira de Lima

quinta-feira, agosto 10, 2017

Na colônia: a zona de mineração

No vice-reino do Afeganistão, Alexandra era funcionária da companhia que governava a zona mineral.
Colocou o café sobre a mesa, tirou a arma da cintura, observou o horizonte. Havia tido um sonho estranho. Sua roupa se desfiara, depois seu corpo se desfiara e ela acordara quando sua cabeça caíra sobre o monte de fios que era ela.
- Bom dia querida, disse seu colega Lucius. Pronta para a guerra?
Ela detestava o tom eugênico das conversas desse homem. "Os arianos são superiores, você sabe. Italianos, judeus e poloneses são merda", parecia dizer sem usar as palavras.
Ela foi para a sala de reunião. O clima era tenso.
- Nós podemos agora partir para uma guerra pouco lucrativa - disse o chefe, mandando os comerciantes todos para a prisão, quem sabe transferindo todo mundo para campos no deserto, ou fazendo esterilização em massa, para que não se reproduzam.
Ela não riu.
As negociações entre a companhia e o vice-rei começaram a degringolar quando houve uma rebelião dos moradores do bairro comercial.
Novos impostos para alimentar o exército contratado indignaram a população e soldados foram mortos por terroristas.
O vice-rei tentou uma pacificação através de banimento das lideranças e diminuição dos impostos para a elite, mas um segmento da milícia da companhia atacou com gás venenoso uma vila da fronteira matando mulheres e crianças. O chefe do exército privado queria retaliar a milícia.
- Nós deixamos a zona na mão de loucos? - teria exclamado o vice-rei.
Alexandra achava que o presidente era responsável por aquilo tudo. Como fora possível deixar o exército na mão de uma empresa e dizer: "Façam o que acharem melhor"?
- A companhia não pode deixar sua imagem ser manchada - disse o chefe ao comandante.
Alexandra não estava se sentindo bem. Observou sua mão tremendo, enquanto tentava tocar a tela. Lembrava quando era criança, ninguém usava essas palavras tão duras. Ela não sonhara em ser uma agente da submissão de outros povos.
- Se nós executarmos os milicianos que fizeram isso, estaremos dando para o povo a ideia de que perdemos o controle, que não viemos aqui levar paz e ordem e racionalidade, mas somos só um povo conquistador.
- O vice-rei pode exigir do governo uma atitude. Liberais vão questionar nos jornais da metrópole nosso método de controle sobre povos inferiores. Pode ser que questionem a zona mineral independente e cheguemos mesmo a ter de ser defendidos pelos subcontratados do governo.
Mas Alexandra não estava mais presente. De repente, ela entendeu. Estava numa realidade imaginada. Ela era o personagem de algum jogo na ficção de alguém. Se isso era verdade, era como acordar de um sonho.
Ela caminhou pela sala observada por todos.
Apontou a arma para o chefe.

Afonso Junior Ferreira de Lima

domingo, agosto 06, 2017

A festa da coruja

- Numa jangada vamos pela mata
Disse a coruja Jane, que ficou acordada
Pra falar com a onça-pintada
- Vamos ver o deus das águas

Também se interessa o boto palhaço
Pra o saguá-coleira deram um telefonema
- Estou nessa, vou chamar o acari-zebra
O arco-íris foi convidado

Era uma festa colorida, o karaokê não para
O coro dos jacarés fazia companhia
A harpia era um Apolo tocando a guitarra
Sapo ao piano, o mico-leão guia

A doutora real, de chapéu amarelo:
- Não é legal! A lei invisível proíbe invasão!
- Vacas demais, deixem em paz o solo!
Canta Ana, a serpente soprano

Bee Gees das aranhas boca de sino
- Sai, vampiro, sai!
Trator não é destino
Stayin' Alive!

Muito romance teve nessa jornada
As estrelas deixaram cair uma lágrima
No casamento da anta com a garça
Chegaram na fronteira, chuva na entrada

- Você está vendo? Vende-se o verde
Da oração pela pele, do respeito
Já vai longe o tempo, o rei medonho
O deus das águas vestiu seu manto de sonho

Os deputados sentiram os ossos gelados
Se os olhos fechavam, o coro dos jacarés
Mordia os pés, a formiga picava
A harpia colocou as cabeças numa estaca

Meio mês sem ter dormido, saíram fugindo
A coruja Jane e a onça-pintada
Executando bem e dando deferimento
Os papagaios presidiram o Parlamento

Sapo ao piano, o mico-leão guia
É uma alegria os jacarés cantando ABBA
A harpia era Queen tocando a guitarra
Festa colorida, a tal democracia

Afonso Junior Ferreira de Lima

quarta-feira, agosto 02, 2017

Olhe através de mim

O hall do hotel (?) está tendo as vidraças quebradas e corremos para um terraço. Lá estão barracas coloridas e as pessoas ouvem música. Um desconhecido me diz alguma coisa, que não entendo.
Acordo agitado.
Quero ir ao banheiro. Percebo que o chão está frio. O que houve com meus pés? Estão invisíveis. Eu os sinto, mas não os vejo. Mesmo assim, vou.
Parque - chão cheio de lixo e folhas. A administradora não trabalha sexta, nem sábado, é a folga dela. A administração só tem um cão na porta.
Pergunto o que aconteceu. "Não tem mais manutenção, nem limpeza. Só uma tiazinha que limpa os banheiros". Uma moça chega para reclamar que "tem mendigo bloqueando a passagem". Eram 9 seguranças, agora vejo três.
Comento com ela que provavelmente o parque está sendo abandonado para ser vendido. "Camisa vermelha, sei, comunista".
Eu compro um livro na frente do metrô. Percebo que meus dedos estão ficando invisíveis.
"Sim, voltamos, demorou um pouco pra prefeitura autorizar" - diz o vendedor.
"Espero que sobre alguma coisa".
"Nós sustentamos o país inteiro".
Eu não vejo mais minha mão, tento ocultar com a manga do suéter.
Uma moça diz para a amiga, bebendo cerveja na calçada: "Eu sou solteira, posso me vestir como eu quiser".
Um homem jovem caído no chão, bem no meio, separando o fluxo do fim da tarde em dois.
Numa TV, a votação dos deputados.
Lembro o que o desconhecido falou. "Não somos uma comunidade, somos indivíduos em luta uns com os outros".
Fico pensando, se eu desaparecer, verão apenas minhas roupas?
A votação acabou.
"E esses palhaços na rua?" - diz uma mulher.
"Agora é entre mercado e políticos" - diz um homem.
Eu penso: "O que eu tenho a oferecer? Qual a minha utilidade?"
Eu digo novamente pra funcionária o que preciso. Eu percebo que precisava ter vestido uma camisa melhor.
"O senhor não tem braços"?
"Como"?
Eu não tinha reparado que meus braços também estavam invisíveis.
Sentei num banco um pouco apavorado.

Afonso Junior Ferreira de Lima


domingo, julho 30, 2017

rastros

Aqui, em pedaços, textos, fotos, livros.

Quero a linha disso tudo. Papel amarelo na parede.

Algo foi esquecido, caiu dentro do lago profundo, quero achar.

Estão numa faixa na beira da estrada.

O jornal anuncia a missão pelo norte.

Foram colocados nos aviões, morreram de pneumonia.

Que posso com minhas palavras, de outros, fazer senão o palavrar, com agulha de letras, passado e um possível mundo amoroso?

Recorto as fotos e escrevo entre as linhas. Autópsia de estruturas vivas.

"Polícia reprime baixo-espiritismo".

O governador pede ao ouvidor-geral o fim das "danças dos negros" nas festas de Nossa Senhora dos Prazeres.

Madeireiros entram na floresta. Uma líder esfaqueada.

Eu tento fazer disso um enredo, meu outro eu resiste, ele quer a brutalidade da vida e tudo que nela não se ordena. Palavras silenciadas, retratos sem legenda, a dança da noite que abre o mundo secreto.

Ruralistas apoiam novo governo.

As árvores conversam entre si. É na mata que a gente ouve os antepassados.

Agora, esses que evoco como meus me contam suas histórias, ninguém chorou por eles e os feridos ainda gemem. As línguas com que me falam pedem um túmulo na minha voz cansada.

Solitários, o frio da cidade. Suicídio e alcoolismo.

Justiça impede índios de receberem sua terra.

Dentro do lago profundo eu vejo os ossos e troco com eles palavras dolorosas.

As mortes por desnutrição das crianças, a volta da epidemia de malária, as muitas vítimas fatais de serpentes no Rio Negro, as crianças enterradas.

Meu ouvir alcança a era em que a Ásia e a América não tinham fronteira, os homens e os animais ainda não se distinguiam, todos na mesma alma humana.

Entram nas fazendas e montam acampamentos. Em tumulto, expulsos pelos fazendeiros.

Agora, que vermelho é esse sobre teu corpo?

Aqui encontro, nas paredes, os textos e as imagens em movimento.

Missão científica do departamento de cultura.

Veja o que ocorreu com essa cidade em dez anos? Quando todos estiverem em suas casas ouvindo rádio, o que vai sobrar dos folguedos?

Filmes das danças. Objetos. Canções, fotos, cadernos de desenhos.

Cansaram de esperar, buscam as retomadas, a ocupação de uma área que já foi de seus ancestrais.

O radialista indígena reclama sobre a violência da polícia no protesto.

Devo calar, devo apenas ouvir, meu gesto aponta o que ficou perdido no caminho.

Sobre a mesa, traço linhas e traduzo versos, colo pedaços em preto e branco.

Entre as pedras brancas do dia, vozes que me guiam para que meu barco chegue a seu destino, para que eu não deixe minha ambição afundar meus amigos, naufrágio da violência em terras desertas.

As crianças brincam na aldeia e tiram fotos com seu celular. As crianças me ensinam palavras.

Investigar rastros, colocar a pele de outro, eu conto minhas histórias e não as deixo perdidas, ganho roupa e comida, viajante experiente. 

Não aceitam uma ficção ordenada, com bocas que falam e aventuras, esses duros tempos feitos de eterno presente.

Novo prefeito afasta o escritor do cargo de diretor do Departamento de Cultura e ordena fim da missão.

Moradores reclamaram. Dizem que mataram galinhas. Caminhando pelo mato, obrigados, morrem de fome.

Não quero criar nada, no máximo eu recolho pregos e destroços da explosão, da ruína deixada por algum poder cruel.

Alguma estrada passará por lá e eles morrerão.

Que podem minhas palavras fazer? Eu posso honrar esse nós, deixar que seja o que é, com minha agulha de letras um pouco de ilusão viva e distância. Agora, um túmulo na palavra cansada.

O segurança proíbe oferenda no lago terceirizado.

Polícia fecha xangôs. "Exploração da boa fé e feitiçaria".

Eu saio do meu eu e pego o barco que me leva até a ilha dos homens sábios.

Essa não é apenas uma cidade em que se pensa que os Direitos Humanos se resumem a defender seu carro e sua casa.

Atravesso fronteiras, missão científica, minha voz na noite onde falam os esquecidos.


Afonso Junior Ferreira de Lima


Solidão

A mulher observa seus dois filhos
E pensa em como protegê-los
Se ela tiver uma casa um caderno poderá ficar na mesa
E o corpo com seus medos domará seu grito animal

Não ter casa é não ter espaço para acolher
Quem não tem casa não prepara o café
para receber os seus
para quem não tem casa o caminho não é um meio

As brigas de família não podem cicatrizar
O pensamento não pode sonhar
O grão fica congelado
Não há teto para estabelecer
a paciência, o método, a costura certa do dia-a-dia

Aquele que pede rapidamente perde sua história
Atrapalha o dia de domingo com seu estômago inquieto
Aquele que sofre rapidamente é condenado
Melhor desaparecer em silêncio devorado pelos números

A terra nos ossos, as folhas acumuladas, insetos e fome
A noite como vasto perigo
O mar dos afetos no cinza de brasa abafada
Neve sobre casas de madeira não há
Mas a solidão da palavra nunca dita.

Afonso Junior Ferreira de Lima

terça-feira, julho 25, 2017

domingo, julho 23, 2017

Serpente

Saio na varanda, a lua imensa

Visto minhas asas de serpente
Aqui não existe mais esse eu estreito
Observo edifícios e pântanos na mesma claridade
A doença do mundo apagada
Eu sou uma serpente de fogo e navego
a energia que liga as fronteiras entre as moléculas

Agora, o silêncio calou as conversas na feira, nas portas
O frio dominou os vales, o mundo foi alterado
Jovens com hinos de ódio para perpetuar a opressão
Exércitos de homens de ferro erguem-se pela herança suja

Esquecimento envenenou as crianças com um eu
O dragão filho do céu enfrenta o dragão da terra
Uma serpente úmida, a armadura da pretensão
Cantam hinos de sangue para perpetuar a guerra

Observo a dança e o deserto na mesma claridade
O barulho do mundo apagado
Eu sou uma serpente de fogo e navego
a energia que liga as fronteiras entre as moléculas

Afonso Junior Ferreira de Lima



segunda-feira, julho 17, 2017

domingo, julho 02, 2017

Da utilidade

Eu o encontrei num bar em Nova Iorque. Era um homem bem vestido, discreto, cabelos brancos. Só depois de um tempo percebi seu sotaque. Ele me pareceu misterioso. Logo notei que estava me observando com certo desprezo. Ele me contava sobre suas funções. Narrativas. Sua infância. Jesus nunca havia estado na cruz. Cristianismo dos guerreiros. A ciência sobre os inferiores. O padre falando sobre o espírito controlando o corpo, o comunismo como força materialista. A desordem estava destruindo o mundo. Eu pergunto se algo mudou. Eu recebi meus documentos novos no navio, ele diz. O mundo precisa acabar com a rebelião. O senhor tem seu sangue e sua terra, mas com um telefone eu posso prendê-lo. Acabamos nosso drink. Eu saí com o coração apertado. Um judeu perigoso ou um criminoso anticomunista?

Afonso Junior Ferreira de Lima

sábado, julho 01, 2017

terradeninguém


Será, existe mesmo uma terradeninguém entre o fazedor e o mundo, eu posso, será, fazer o jovem esforçado que estudou teoria crítica se emocionar com 15, 20, 25 centavos com as horas contadas até 700, com filhos soltos pela oficina, o jovem trabalhador que, ops! apontou seu saber e matou, uma criança que perdeu quatro dedos, eu tenho de fazer o pós-crítico leitor em Direito forte e saudável pensar, Agora está frio, estrelas no céu, Dormi muito tarde, Ontem nem almocei, A comida ruim, Prefiro miojo, belo e inteligente, ducha quente, ovos e bacon, que nunca saiu de seu lugar para buscar comida, bem informado, bem vestido, que pensa talvez, E empresas que estiverem inclusas na lista são obrigadas a fechar as portas, e, E daí lista de trabalho escravo, você que chora, você que nunca, Comida estragada, Uma vez, pulga, percevejo, será, eu posso, O dono, nem ajuda médica, caminha na praia, ele que sabe de tudo isso, ele que, veja!, uma lágrima talvez, viu na televisão, nunca 15 centavos, e o fazedor e o mundo, você que eu vou emocionar.

Afonso Junior Ferreira de Lima

quarta-feira, junho 28, 2017

A Operação

agora ele entendia, ligação do hotel, apavorado, ele desapareceu, meu músico desapareceu, liga pro embaixador, não! nada! é droga, cocaína, ele é jornalista não pode se meter com isso, mas tenório não é, por que eu falo isso, montevidéu, pasta na pista, casaco no braço, tocam no ombro, algemado, vendado, agora na beira do rio, as balas passam ao lado, amanhã será o seu dia, morto, é como morto, e o rapaz, agora sabia, desaparecido, legalmente saído do país, jornais denunciam, carta ao Papa, o presidente novo, prisioneiro do ano, de novo o rio, de novo atiram, hoje lembra, falam ao telefone, despacio, é uma rede, era polícia com polícia, caça, juntando arquivos, então tinha sido sequestrado por engano, revelaria o esquema, hoje sabe, tivera de desaparecer, procura, anos antes, por que eu falo isso, chile, vigiar, secretário, o escritório para exilados, levados ao estádio, ele entendia, assiste ao julgamento, revê o homem vendado, na beira do rio, as balas agora 

Afonso Junior Ferreira de Lima

quinta-feira, junho 22, 2017

Inocente

É preciso, os personagens são nossa vida, a voz monstruosa, diálogos na praça, eles ficam, para ser no mundo, Nós vamos nos casar agora, ele escreveu contando o que ela disse, Mas dois dias depois ela andava sem rumo por uma ponte e foi recolhida por policiais, ele diz, Eu cuidei dela em minha casa, e agora, tento fugir aos sistemas, tendo olhar para isso, tento chegar dentro, Mas ela voltava sempre àquele assunto, A filha já era grande, noiva, Ela parecia ter voltado àqueles dias, andava sem rumo, Senhor policial, ela disse, e parte de mim diz que é impossível, eu a vejo sentada próximo a uma janela, sem outros, ela não quer, como descrever a prece que fez, o úmido líquido na camiseta, a criança em seus braços, ele escreveu, Eu sentia o grande mecanismo, ausência, a fala do juiz dizendo, Inocente. 

Afonso Junior Ferreira de Lima

segunda-feira, junho 19, 2017

A ideologia do teatro colaborativo

O conto sobre o qual quero refletir é um dos mais conhecidos do autor. Ele encena a tentativa de um diretor teatral de levar à cabo uma peça baseando-se apenas no texto narrativo do autor, sem a moldura de um dramaturgo. O título - A ideologia do teatro colaborativo - já remete diretamente à polêmica. Um narrador não identificado começa a contar sobre uma trupe de atores que parece improvisar infinitamente sobre o livro lido e o diretor em infindável doutrinação sobre a importância de se livrar do texto e se dar voz aos múltiplos criadores, mas no fim, quer fazer prevalecer sua voz. Os atores também debatem interminavelmente suas próprias interpretações do tema. Por fim, um jovem se rebela e propõe que é preciso generosidade para se colocar à serviço de uma ideia, que por algum motivo parece atingir um debate público ou forma poética de valor; acusa o diretor de criar facções. A ideologia do teatro colaborativo, entretanto, acaba com o ator jovem encontrando com um ator mais velho no final de uma peça, e os dois conversam sobre o incidente (quando percebemos se tratar do início do conto). A crítica que o ator veterano faz ao projeto diz respeito à supervalorização da escrita, "como se todo ator tivesse de escrever, ou se 'apenas atuar' fosse uma arte menor". A arte é apenas uma forma de poder, responde o jovem. Eu quero convidá-los a entrar nesse buraco mágico lendo um trecho da obra. Vamos, à seguir ouvir sua versão do drama.

Afonso Junior Ferreira de Lima

poema ao eu lírico

por sorte minha vida 
foi completamente inútil
(e nem completa)
por sorte não me preocupei de mais
com coisas curtas e extremas
devo tudo ao meu eu lírico
a ele devo minha angústia, meu choro
o beijo sobre a grama no alto do abismo
e - realmente - meu riso de flor forjada
posso ser esse vazio de máscaras
colhendo as dores da humanidade 
a esmagada
por ele fui todos e nada

agora sabemos aqui tem uma plateia
que é o pensar e como 
que cada isso é o que é e nada expressa
todavia via - mundo chama 
pele de peixe vibrar do mineral vivo
analítica das chamas tremores
vamos ficcionalizar
(a verdade de uma realidade é a lágrima
repetitiva animalidade, sabedoria do pão)

a curta vida a inútil dobra
desaparecer e desmoronar 
pensa no mundo, pensa na 
essência humana na indústria
meu sujeito lírico faz deus como objeto
solidão de rochedo ou juízo dos sentidos
portal do sonho sem esperar 
e revela o abismo fundamental 
união desunida impessoal amor
do binário tudo que se fixou 
o para além da realidade 

Afonso Junior Ferreira de Lima



sábado, junho 17, 2017

Acalanto

você já come mamão
já bate seu tambor
você vai aprender
como se diz galinha
(e espero mesmo que
veja uma galinha)
você vai aprender
a comer com garfo
e nós babando com isso
crescer é saber sempre menos
você, quero ver o que traz
quero ver o que me ensina

você vai aprender de tudo
pense sempre
e despense
nada está definido
seus irmãos
estão no mesmo barco
decifre o momento torto
você
não tem governo
e nunca terá
abrir espaço é preciso

sofrer talvez e o que te digo
aprender é o melhor
você já tem 7 meses
pode dobrar seu cobertor
estamos no mesmo barco
olhar com solidariedade
tudo que cresce e dá flor

não pense que o mundo é seu
eu sei porque já pensei
bicho metido
não é convidado conformista
pelo rio é levado
a lei que é festa sem fim
fica maior que o mistério
que é ter outro
junto de mim
acumular amigos é melhor

abrir espaço é preciso
você, quero ver o que traz
quero ver o que me ensina

só tem essa bolinha azul
as nuvens você vai pintar
eu queria te ensinar
a amar, a amar

Afonso Junior Ferreira de Lima






quarta-feira, junho 14, 2017

sobre as nuvens

eu não deveria me mover, chuva, estéril murcho campo, a multidão gira, as sombras que suspiram, como a produção, sapatos ensopados, tokyo vertigem, produção da classe, o sangue na imprensa, milhares de desempregados, call center, ele que caminha pela terra, um príncipe dos três montes, não assinou, não quer pintar por dinheiro, meu amigo, mas estás morto, a villa no fim da cidade, volte para mim, ele diz, já não trabalha, você me desalojou, eu brotava no início da primavera, purgatório, seu saber não de compartilhar, seu poder assentado sobre livros, seu medo, zona contaminada, você me entrevista e eu não devo ser bem-vindo, o que é importante e o que é inferior, palavras mortas, ele os homens sujos que despejam dejetos na rua, roubam o ouro, Lorde bêbado comanda o ataque, vira comandante, o vício do comércio dá mais, eles colonizam seu próprio povo, senhores da morte, uma tempestade Lucy, escombros de casas, óleo vende mais, rosto vermelho, veste o terno surrado, atravessa o Sena, ela foi embora, mas eu sai, eu entrei no mar, eu me purifiquei no fogo e no ar, eu sai da prisão permanente, vigilância permanente, eu toquei as coisas sagradas, eu coisa, são as árvores que falam comigo, eu sofri e vivenciei, eu sei, a aurora, um som e as flores, a moça jovem com ramos verdes, o barco segue, seu deus é a medida de todas as coisas, conselho noturno, se os astros são perfeitos a alma está acima do corpo, órgão de vigilância supremo, voltar à razão, num mundo de escravos, a fala como ordem, radicalização dos soldados, desumanização do tempo, controlar a organização do mundo, não assinou, por Lucy, o custo da vida, paga a conta do bar, fecha a porta, duas almofadas no chão, fecharam todas as galerias de Paris, eu sento sobre a pedra e choro, eu sou acusado, mão-de-obra barata nos jardins do governador, caminhamos pela noite, nossos sapatos velhos, grito das gaivotas anunciando rio podre à vista, amontoado de resíduos, templos, altares, procissões, eu não esperado, o que brota, não deveria me mover, você me fez vagar pela terra sem água, a raça que não deve brotar, cantar de água novo, leitor hipócrita, a voz controla, o deus das fronteiras, a deusa dos casamentos, o deus dos guerreiros, o deus dos embaixadores, sonhador e seu eu sonhado, eu toco a música, cadáver florido, um crânio de demônios, a procissão dança, zombaria e risada, o santuário da nascente, criança da terra, vivo, o inverno acaba, meu cálice, mas estás morto, assim foram feitos vossos pais, lamentos rítmicos, no escurecer das sombras, fade out, cidade fantasma, o ciclo todo, começa a germinar? ele continua

Afonso Junior ferreira de Lima

terça-feira, junho 13, 2017

Labirinto

Quem é? Qual cenário? Qual aventura?
O menino rico brinca de vencer o tirano.
As poções, feitiço, cidadela, mina.
Ou floresta e labirinto.
Agora estuda, passa, mérito seu.
Agora diplomado, agora na vitrine, promotor.
Toma decisões.
Entrar.
Falar.
Atacar
Cada uma vai para onde seu destino manda.
Vira celebridade, salva o país.
Acha na porta do carro um poema:

 - sr prefeito dinheiro
como se fabrica a miséria
quando a gente vira gente
no sei conceito viver
não é mérito, é de direito
explode queima deposita vira pó
é a verdade bruta
os pés negros nus do jovem na chuva
o pão paga a nação
a verdade sobre o estado
é o homem sujo carregando papelão

Afonso Junior Ferreira de Lima


sábado, junho 10, 2017

A nova casa

Ela abraça seu filho. Ela é fotografada na grama com seu filho. Ela caminha na praia com seu amor.
O pai abraça a criança. O pai veste pulôver e ouvem aquela música japonesa.

Chegados do interior são descarregados em favelas da metrópole.

Ela pensa no seu pai, a cidade toda está demolida como se fosse vítima de uma catástrofe.

Precisariam remover as tábuas largas de ipê, que cobriam o piso da sala, tão envergadas.

Agora uma xícara nova. Agora o leite fresco. Agora a criança sorri.
Um desavisado passa pela cozinha e é pego.

Agora, escreve sobre os mortos, mas todos estão mortos. Imagina um terrorista que descobre que está morto.

Quatro aparelhos, o pai disse. Caixa laqueada de branco, nas salas de estar, de jantar, na varanda e no canto de leitura.

A luz já estava pronta. havia o perigo de uma revolta. Mas o prefeito prometera usar milícias em caso de distúrbios.

O que ela mais temia era o fim da esperança. De repente, ninguém tinha um emprego.

Agora, escreve sobre como os mortos continuam vivendo com seus implantes eletrônicos.  O terrorista acha que não era preciso ter sido salvo. Não seria salvo se a prisão não quisesse mostrar o perigo dos pobres das favelas.

A catástrofe. Lembrava de seu pai cantando com os outros trabalhadores. Ele tinha conquistado coisas.

Agora, o bebê na câmera. Agora, seu marido acordava. Agora, um banho delicioso.
A equipe demitira o desavisado.

Cada etnia e fé tinha seu bairro. A guerra era constante.

Agora, escreve sobre o terrorista que é libertado e descobre que se cair de um abismo será reavivado porque ele é uma peça como qualquer outra. Ele lembra a todos sobre o evento inicial, o dia em que os policiais tiveram de atirar nos sindicalistas e as empresas fugiram.

As flores amarelas na cozinha com toques de azul. O armário mineiro recuperado como cristaleira com ganchos para xícaras. O novo patchwork de Madagascar no pufe da biblioteca. O conjunto de chá Leeang e as lanternas com vitrais deixarão a sala mais aconchegante. Outra ficção.

Ela olha pela janela, um dia cinzento: "São massas de trabalhadores mal pagos e subempregados e sem educação".

Caso de distúrbios, as milícias são chamadas.

Afonso Junior Ferreira de Lima


quarta-feira, junho 07, 2017

l'heure de la nuit

on dirait qu'il existe quelque chose en dehors de la bibliothèque. amour - séparation - amour -séparation : pas nécessairement dans cet ordre lá. il existe quelque chose qui écoute - il éxiste cette voix de dehors - ceci est un livre de fiction - l'endroit est sans fenêtres. Il faut connaître ce passé. Je disais - il faut que nous donnons une chance à l'humanité, à toi. Confrontations, le son des helicoptères , des coups ont été tirés. Les conquêtes ont été moderées., mais même pas ça on veux accepter, C'est le cas dans la bibliothèque. Où les récits A,B, C ou plus conversent. Dans la nuit obscure la lune. Une fenêtre. Il ne sera pas faîte de synthèse. Le moi est entrainé par le temps. Les reflets. Il ne sera pas possible d' affirmer que nous pouvons affirmer une realité. Je pensais qu'il fallait que je grandisse et accepter les gens comme ils sont. Un peu plus de sensibilité ce n'était pas de sensibilité suffisante. il marche par le blé, roux et beau, il ouvre le livre, le soleil. La brutalité en dehors de la bibliothèque. On chuchote. Il a été emprisonné, emprisonné injustement, la fumée, l'armée est dans la rue. Sans fenêtres. La lune. Un éclair c'est le temps de l'identité qui unit, ne peut pas être integré. Il existe des gens que ne peuvent rien voir en plus du moi. C'est une question epistémologique, pas morale. Le flux de l'ésprit comme personnage. Et, de quelque façon, les sons tous, les sons dansants, ont besoin d'arriver à un travail de conclusion de semestre. Il laisse tomber le corps, déborde, une ombre passe devant le soleil, il a changé son ton de voix. L fable de quelqu'un en train de fabuler, je suis dans ça, après je me sépare. Jamais on dira , oui, c'était moi, je me rappele. Si tu veux demander pour quoi ils ne voient pas aucune autre chose en plus d'eux mêmes, ils demanderaient : quelle autre chose. Qui c'est ce moi dans l'ombre, dans l'obscurité. Imaginer, l'aventure. .Voix, auditeur et celui qui imagine à table. Première personne nié. Les déchets dans les rues, des flammes dans la rue. Le président parle, personne ne croit. Ceci est en train de vraiment arriver. la loi est privée. Veux la biblithèque. seulement la bibliothèque donne realité à la perception. Regarde l'homme passé avec les yeux bleus, obcure, la lune. les feuilles vertes, l'éclat de la nouvelle saison. Seul, il se divise, cherche de la compagnie, chuchotent ensemble les enfants faits dans l'obscurité. C'était trés beau, ce vin là et la voix qui faisait des échos, la serviette blanche, les fleurs. C'était comme ça que nous sommes retournés à croire. En vain. Bleus, sans vouloir des rélations. Sens le frère, l'autre, mystérieux, entre les pierres de la chambre sphérique. Soolitude amie. A besoin. Je croyais être en train d'interagir avec quelqu'un. Réalité inventée. Dans la tête. L'enfant seul dans le bois, chuchotent ensemble dans l'obscurité. Marche par les murs de heritées verités signifièes. La nouvelle, personne ne croit. Il n'y a pas d'importance, l'imagination qui aide à illuminer. Nouvel avertissement. Fermée la Bibliothèque la nuit. Je croyais que tu étais quelque chose presque integrée et pas des impulsions mal ajustées et morceaux cassés. À la fenêtre, dans une nuit obscure, à table, impulsion incontrolable, vie inventée, images d'une vie, le poème passé, il le faut. Afonso Junior Ferreira de Lima Traduction Etienne Blanchard

A hora da noite

Parece que existe algo fora da Biblioteca.

amor - separação - amor - separação: não necessariamente nessa ordem.

Existe alguma coisa que ouve - existe essa voz de fora - isso é um livro de ficção - o lugar é sem janelas. É preciso saber desse passado.

Eu dizia - temos de dar uma chance à humanidade, a você.

Confrontos, o som dos helicópteros, tiros foram disparados. As conquistas foram moderadas, mas nem isso se quer aceitar. Caso na Biblioteca. Onde as narrativas A, B e C ou mais conversam.

Na noite escura a lua. Uma janela. Não será feita uma síntese. O eu é arrastado pelo tempo. Os reflexos. Não será possível afirmar que podemos afirmar uma realidade.

Eu achava que eu tinha de crescer e aceitar as pessoas como são.
Um pouco mais de sensibilidade não é sensibilidade o bastante.

ele anda pelo trigo, ruivo e belo, ele abre o livro, o sol.

A brutalidade fora da Biblioteca. Sussurram. Ele foi preso, preso injustamente, a fumaça, o exército está na rua.

Sem janelas. A lua. Um relâmpago é o tempo da identidade que une, não pode ser integrado.

Existem pessoas que não podem ver nada além do eu.
É uma questão epistemológica, não moral.

O fluxo da mente como personagem. E, de alguma forma, os sons todos, os sons dançantes, precisam chegar a um trabalho de fim de semestre.

ele deixa cair o copo, derrama, uma sombra passa em frente ao sol, ele mudou seu tom de voz.

A fábula de alguém fabulando, estou nisso, depois me separo. Nunca dirá, sim, era eu, eu me lembro.

Se você perguntar por que eles não vêem nenhuma outra coisa além de si mesmos, eles perguntariam: que outra coisa?

Quem é esse eu na sombra, no escuro. Imaginar, a aventura. Voz, ouvinte e imaginador na mesa. Primeira pessoa negado.

O lixo nas ruas, chamas na rua. O presidente fala, ninguém acredita. Isso está mesmo acontecendo. A lei é privada. Quer a Biblioteca. Só a Biblioteca traz realidade à percepção.

Olha o homem passado de olhos azuis, escuro, a lua.

as folhas verdes, o brilho da nova estação. 

Sozinho, ele se divide, busca companhia, sussurram juntas as crianças feitas no escuro.

Foi lindo, aquele vinho e a voz ecoando, a toalha branca, as flores. Foi assim que voltamos a acreditar. Em vão. 

Azuis, sem querer relações. Sente o irmão, o outro, misterioso, entre as pedras da câmara esférica. Solidão amiga. Precisa.

Eu acreditava estar interagindo com alguém. Realidade inventada. 

Dentro da cabeça. A criança sozinha no bosque, sussurram juntas no escuro.

Caminha pelas paredes de herdadas verdades significadas. A notícia, ninguém acredita. Não vem ao caso, a imaginação que ajuda a iluminar. Novo aviso. Fechada a Biblioteca à noite.

Eu acreditava que você era alguma coisa quase integrada e não impulsos mal ajambrados e pedaços partidos. 

À janela, numa noite escura, na mesa, impulso incontrolável, vida inventada, imagens de uma vida, o poema passado, é preciso.

Afonso Junior Ferreira de Lima

terça-feira, junho 06, 2017

Real

o efeito do real, acumulação de detalhes da vida diária, mas quem sou eu?, quem sou eu para falar?, depois que a história foi chutada, depois que a subjetividade foi trazida, depois da máquina-moderna, do poder moderno, da produção de kafka, mas aí está você, você com suas pernas sujas, seu cobertor molhado, pedindo um dinheiro, feijão e arroz, carne, e eu tenho de falar de você, por você, a forma como a menina lhe deixou e você veio, a cidade lhe rejeitou, tenho que contar que um banho custa caro, que anteontem tomaste, e eu tenho algo a fazer, eu não posso ouvir, eu te dou algumas moedas, comida e volto ao meu texto, mas agora foi fechado o hotel que custava 5, só tem de 10, drogas lá dentro, mas você não, nunca, e eu quero lhe dar uma marmita, medo da polícia, mas você não gosta de lasanha, arroz enche mais, e você volta pra a entrada do metrô, e teve de dormir na rua na inundação, e eu volto com 10, e amanhã não sei se estará, e eu tenho de seguir, a mim coube, do tênis que o trabalhador precisa, do sabão que o trabalhador precisa, daquele que nem é trabalhador e precisa, subversão, o efeito do real, e eu tenho de escrever que é quem sou 

Afonso Junior Ferreira de Lima

segunda-feira, junho 05, 2017

Navegar

Aqui eu sigo, entro, correnteza, o azul ou verde somente na praia, porque na vida, no dia, o mar não tem cor, o ciclo das coisas, arrastado, que o tempo leva, ontem tumulto, na rua esperando, não vão nos receber, não vão nos ouvir, agora o silêncio, palavra congelada, eu me lembro, eu mergulho, jovem assustado, o deserto, foram na infância os monstros, as deusas e a morte para desunir o pacto, e por fora branco, aquele tio tão gordo, chegando eu, caçador feliz, existe algo além da muralha, uma Noite, os palhaços, a ilha, ele caminha pela lama com suas botas novas, luvas de pelica, de braços dados com um dia de verão, comendo peixe e tomando vinho e minha vida de jovem oprimido eu via de cima dessa torre, cantamos nas tavernas, juntamos os cacos, o eco nos ossos, as rotas bloqueadas e a procura de um caminho, a força estrangeira, traição, eu sigo, as capas vermelhas, eu ganho fama com o peso, eu sou da frota de novos juncos para o Relatório Geral das terras bárbaras, o porão, aquele homem sobre Sodoma, eu precisava dele, as multidões nas feiras, em promoção, levo na arca os loucos todos, esse livro da Idade Média extra-ordianariamente diverso, beijo da mãe na testa, vício instintivo, encontro numa plataforma de estação rodoviária, que realiza o homem, natureza informável, e disse o coronel - percebe-se que o senhor não conhece os filhos de Judas, essa raça só faz trair há séculos, a névoa sobre a rota, e já uma estrela, é preciso, eu lembro, eu vou, o desconhecido, fantasmas eu vi em rima, neve, oficial de cavalaria, aquilo que salta, meu deus!, o que fui fazer!, de bruços, paro antes de ver uma mulher e um trem, pesca na estante, companhia necessária, são muitos ruídos, autorizando o comércio e as conquistas dos pagãos, aceito a frase, imaginação ligeira, maior que tudo, o amor frio, o retrato de corpo inteiro dele, toda a minha arte, arte inútil, a irradiação da própria beleza, o elogio da loucura e a música do prazer na colina, os desejos sufocados que envenenam o espírito, o sol e as flores, que divertimento!, que mergulho!, o beijo de uma onda e os sinos, a vida é mais, terra não vista, costurando textos, reverência crítica, resistir ao mundo-aí, o tempo muda, a tempestade, na terra estranha, homens suspeitam, recolho os guizos, minha chama é guia, trocar de pele, inveja, sangue e luta, a sociedade é mal organizada, a queda e os invasores, e sempre a viagem, farrapos on the road, barco enviado, por Preste João, a gaivota solitária, chego ao Índico, à beira do rio, marginal fétida, nas noites sem lua, tremor e eclipse, agora a navalha, o lodo escuro, o machado afiado, incêndio do livro, a língua crespa, algo avança, eu conto, o texto risco, me livro, eu vivo, o ato todo, o mar na tarde se vai apagando, recomeça, aqui eu sigo.

Afonso Junior ferreira de Lima

domingo, junho 04, 2017

O amanhã

chega disso
o moinho tem que parar
muitos solitários
calçadas levam o país
é a luz azul da aurora
o novo não desiste
é geração e geração sufocada
é plano projeto notícia o punho
não aceito não respeito
a planilha sofrimento fabricação do fracasso
não aceito seus
cálculos brutais cortesia cruel
lixo lâmpada quebrada memória de menino morto
na quebrada
chega de sair quatro da manhã
resistir e chegar à uma
não aceito
o povo em movimento dança de fora
meu samba tem história
o tempo é luxo acúmulo
pátria sem nome
velocidade dentro do ferro
eu centauro dançarino
reconstruído voltando ao vivo
cada ovo novo no seu quadrado porta fechada
todos os homens velhos me embalaram no colo
o moinho vai parar tem um barulho
a máquina pele como destino
minhas palavras-flecha contra o desamor
dois braços dois olhos crescendo no chão
esperança nada e não se sabe
fluxo abre braços não dominados
eu respeito aqueles que tijolo com tijolo sua vida
não aceito chega disso que não vai
respeito cimento dentro depois da queda
parede favelado metalúrgico preto parado
abortado depois de grande e poeta ainda
mas todo labirinto tem de ter uma saída
é desenho de mão o tempo quebra
meu samba tem história
não é de agora
o tempo é luxo
chega disso

Afonso Junior Ferreira de Lima

segunda-feira, maio 29, 2017

A hora da noite

Parece que existe algo fora da Biblioteca.

amor - separação - amor - separação: não necessariamente nessa ordem.

Existe alguma coisa que ouve - existe essa voz de fora - isso é um livro de ficção - o lugar é sem janelas. É preciso saber desse passado.

Eu dizia - temos de dar uma chance à humanidade, a você.

Confrontos, o som dos helicópteros, tiros foram disparados. As conquistas foram moderadas, mas nem isso se quer aceitar. Caso na Biblioteca. Onde as narrativas A, B e C ou mais conversam.

Na noite escura a lua. Uma janela. Não será feita uma síntese. O eu é arrastado pelo tempo. Os reflexos. Não será possível afirmar que podemos afirmar uma realidade.

Eu achava que eu tinha de crescer e aceitar as pessoas como são.
Um pouco mais de sensibilidade não é sensibilidade o bastante.

ele anda pelo trigo, ruivo e belo, ele abre o livro, o sol.

A brutalidade fora da Biblioteca. Sussurram. Ele foi preso, preso injustamente, a fumaça, o exército está na rua.

Sem janelas. A lua. Um relâmpago é o tempo da identidade que une, não pode ser integrado.

Existem pessoas que não podem ver nada além do eu.
É uma questão epistemológica, não moral.

O fluxo da mente como personagem. E, de alguma forma, os sons todos, os sons dançantes, precisam chegar a um trabalho de fim de semestre.

ele deixa cair o copo, derrama, uma sombra passa em frente ao sol, ele mudou seu tom de voz.

A fábula de alguém fabulando, estou nisso, depois me separo. Nunca dirá, sim, era eu, eu me lembro.

Se você perguntar por que eles não vêem nenhuma outra coisa além de si mesmos, eles perguntariam: que outra coisa?

Quem é esse eu na sombra, no escuro. Imaginar, a aventura. Voz, ouvinte e imaginador na mesa. Primeira pessoa negado.

O lixo nas ruas, chamas na rua. O presidente fala, ninguém acredita. Isso está mesmo acontecendo. A lei é privada. Quer a Biblioteca. Só a Biblioteca traz realidade à percepção.

Olha o homem passado de olhos azuis, escuro, a lua.

as folhas verdes, o brilho da nova estação. 

Sozinho, ele se divide, busca companhia, sussurram juntas as crianças feitas no escuro.

Foi lindo, aquele vinho e a voz ecoando, a toalha branca, as flores. Foi assim que voltamos a acreditar. Em vão. 

Azuis, sem querer relações. Sente o irmão, o outro, misterioso, entre as pedras da câmara esférica. Solidão amiga. Precisa.

Eu acreditava estar interagindo com alguém. Realidade inventada. 

Dentro da cabeça. A criança sozinha no bosque, sussurram juntas no escuro.

Caminha pelas paredes de herdadas verdades significadas. A notícia, ninguém acredita. Não vem ao caso, a imaginação que ajuda a iluminar. Novo aviso. Fechada a Biblioteca à noite.

Eu acreditava que você era alguma coisa quase integrada e não impulsos mal ajambrados e pedaços partidos. 

À janela, numa noite escura, na mesa, impulso incontrolável, vida inventada, imagens de uma vida, o poema passado, é preciso.

Afonso Junior Ferreira de Lima

sábado, maio 27, 2017

A lenda de Torryl Negal

A máquina era impressionante. Shama estava eufórico. O bairro estava completamente abandonado. Ele teve a visão apenas por dois minutos, mas tinha certeza de que havia pessoas por ali. 
Ele procurou seu pai, o melhor adivinho dos sacerdotes do oráculo, e contou sobre a visão transtemporal.
- Eu o proíbo de qualquer tentativa de alterar as coisas, ele disse.
- Mas pai, estamos sob um regime de força. A lenda de Torryl Negal, como livraram o mundo de um domínio do crime. 
- Não se sabe o que pode acontecer.
- O senhor, por anos, tem citado o oráculo: "O significado de todas as coisas é que elas já aconteceram antes". 
Todas as pessoas usavam o oráculo para ouvir o que os mitos explicavam sobre o presente. Seu pai era um desses novos sacerdotes, um pioneiro da neurofísica, da computação robótica, um descobridor. O que acontecera era que a guerra às drogas levara a uma divisão da sociedade entre gente pobre e gente que têm meios de sobrevivência. O efeito do vício foi usado como justificativa para a eliminação de usuários. A única liberdade restante foi a escolha entre as marcas dos produtos. 
Ele prosseguiu seus experimentos. Conseguiu materializar-se na rua na época em que se aprovou o fim dos impostos. Seu plano era matar o senador que desencadeou a guerra às drogas. 
O oráculo sempre disse que a realidade era uma ilusão, que os seres estavam ligados, que a energia podia ser transformada e a matéria era energia. Shama sabia isso em seu corpo. 
Teve a visão do senador em sua sala observando a cidade. Materializou-se no corredor. 
- Quem o teria matado? - perguntou o homem ao telefone.
Shama ficou ouvindo. 
- Nós sabemos que futuro nos esperava. Bairros dominados por criminosos. Nossa força repousa sobre a ordem. Agora que ele está morto, teremos de manter viva a memória do crime para organizar a sociedade. Prender os estranhos. 
Só então Shama entendeu. "Elas já aconteceram antes". Seu pai havia matado o maior traficante do mundo. 

Afonso Junior Ferreira de Lima









quinta-feira, maio 18, 2017

Spectacles/ Paisagens - texto de afonso jr traduçao et blanchard

Je me reveille .les oiseaux me donnent de l espoir encore, tant.

les helicopeteres me font paniquer et ont des soins étrangement reconfortants.

le vert me tire du fil invisible dont je desire me servir quand je saute du batiment le plus haut de la ville.

les helices conversent entre elles, regardant au lieu de Dieu, conversent avec le concret, l horizon legerement orangé, j essaye de laisser le reve assez angoissepenser -et aujourd hui pour quoi?

comment continuer a vivre avec la traquee et les yeux humides dans l ocean de metal et pierre?

mais la machine aussi c est de la vie. ou sont seulement les hommes puissants qui nous trainent et les machines nous tombent des mains?

connaissance c est du pouvoir et je peux vouloir ne pas savoir

il faut que je sois au courant ou je perdrai quelque chose

la vie

*
nous sommes si sophistiqués que nous perdons le contact avec les choses les plus evidentes

une vieille dort a la porte de ma maison avec son edredon rouge. Froid

alors nous sommes mouvements mais les choses demandent de l eau

souffrance dans la forme d oiseau traverse par fleche quel est la mode maintenant, quel est le dogme?

les insects magnetisés montent l escalator, nouveau, brillant. imaginer la vie pour cette personne la, c etait comme si elle vraiment en avait une

et pas seulement une blouse jaune avec des listes blanches, une bequille , des ecouteurs ronds avec un air d annes 80, un livre epais et seduction bougeant dans le sac.

*

accablant .apres ecouter les bruits son esprit s amplifie, le frigo de l autre cote de la maison ecrase infinimment

et, soudain quelqu un parle a coté de moi. je suis fatiguée de trop pour comprendre. pour répondre.

Ça peut être mon amour, possible bon père, travailleur, que je connais de quelque part. Ça peut être moi, que je ne connais pas et ne veux pas.

mon désir s est eloigne de moi et moi de lui. ça devrait c etait peu.

*

je produit de la musique a partir du bruit. Cet aujourd hui c etait le jour que j ai deecidé monter sur le batiemnt le plus haut de la ville et ouvrir la fenetre

je peux seulement voir le monstre blanc d une immense vague entrainer une ville c est ce que je vois

tomber pas a pas du 101er bruit du Italia-dans une mer de gens , qui crie.

alors j ouvrait la fenetre

ce n etait pas la voix cosmique inhumaine qui avale- et sa poesie harmonique de l efficacité-comme le metro

je sentais seulement les poils en chair de poule et les goutes froides exciter mes nerfs de mamifere

plusieurs morceaux ne font pas une vie

c etait seulement pour qu on voit la realité comprendre ça et sentir ça besoin de representation

la somme des perspectives d un bar nous donne ce que la photographie parfaite ne nous donne pas. notre paysage est ecrit en fiction

et , comme je tombais, j entendais les mouvements de la masse, quelque peu instinctif et geant, intensité que reconstruit les molecules du béton.

*

j ai toujours eu une attraction etrange pour ces machines la qui ecrasent les dechets. 13 mil tonnes par jour et aucun systeme digne de séparation.

alors c est ça, mélange tout e nous voyons ce que ça genère

et ces hommes toujours heureux, courant et criant, toujours gagnants et nettoyants nos fautes.

et um de ceux la dans ma rue etait sambeur. la rue est jaune de la pluie de l apres midi.

Il a fondé l École e de temps en temps il faisait du bruit avec le metal , entre le verre et la tasse cassée
dont cette femme la a laissé tomber pendant qu elle cherchait desesperée un billet d amour ou une facture a payer

et, soudain, je me transformait cet écraser quotidien en sens

Presque une couleur, un sens même d organisation.

et les sons les plus divers sont en train de jouer les familles, sont en combustion dans l espace, dispersés, brulants, comme une particule métaphysique quelconque avec son tressage intrinsèque avec d autres- qui est et n est pas prête en rélation en création

Feu au Bras. Un bus a été incendié par des hommes qui crevaient de faim. le gouvernement a favorisé ceux-la qui ont donné des millions en campagne. 2600 favelas a sao paulo, qui grandit.

et les oiseaux chantent. canette. métal.

et tout ce que je peux voir c est une vague géante qui entraine tous mes sens , avec soleil, pluie,dans le jaune, dieux helicopteres, le chien et des paysages de bruit et béton

je veux vouloir transformer tout. et ce que je veux c est seulement un silence ici dedans


Afonso Lima, SP Escola de Teatro - Experimento Módulo Amarelo - 2011 - produzido por Ailton Jose dos Santos, Andréa Fu e Alexandre de Matos

quarta-feira, maio 17, 2017

Os tiros que mataram JY

JY 87L2 foi atingida no pescoço e pernas e caiu no meio da rua. 
900H foi designado para a investigação. 
Estava cada dia mais difícil identificar um alien, um AI ou um carbono. A mestiçagem havia se expandido na última década. 
Com o avanço dos direitos dos seres, leis foram flexibilizadas para tornar nula a diferença na fila de votação. 
O senador conservador KD 99B0 afirmava que isso possibilitou a "infiltração de não-cidadãos" no processo eleitoral e propôs leis que restringissem fortemente os direitos dos aliens e AIs.
O Congresso conservador conseguira, agora, criar uma comissão para investigar o voto de alienígenas. 
JY 87L2, ativista alien, disse na TV:
- Com novas diretrizes de fundo racista, estaremos colocando de fato pessoas que contribuem para nossa sociedade como sub-cidadãos, fazendo com que tenham direito ao trabalho, mas não à decisão política. Em suma, estaremos fortalecendo as heranças mais reacionárias do colonialismo solar e da supremacia do carbono. 
JY 87L2 começou a receber ameaças de morte. O senador passou a dizer que grupos radicais de esquerda estavam gerando caos - eram os hackers que invadiam sites de indústrias e bancos que o financiavam.
900H achou uma testemunha que observou a placa do carro que alvejou JY. 
A investigação levou a um grupo de jovens de extrema-direita, que apoiara a campanha de KD. A comissão para investigar o voto de alienígenas foi envolta em polêmica e encerrada. 

Afonso Junior Ferreira de Lima







domingo, maio 14, 2017

De volta à barbárie

Ela pensava sempre que havia esquecido alguma coisa. Tamia era alta, olhos negros, sempre de roupa preta e com uma energia móvel como o fogo. Sua inteligência fazia com que desconfiasse de todo o sistema de propaganda. Ela criara uma máscara digital, que podia confundir a Máquina, a rede que localizava cada indivíduo pela sua numeração. 
Ela encontrou um homem que havia sido um rebelde. No apartamento desbotado e coberto de livros, morava em prisão domiciliar desde que fora condenado. 
- Sim houve campos e judeus mortos. Sim, há culpa. Mas a propaganda condenou meu nome, de modo que tudo que eu falo é mal visto. Eu chamo essa nova configuração de "república das startups". 
- Eu desconfiei porque nos últimos dias a presidenta tem falado muito sobre o país ter sido sempre contra o fundamentalismo, desde a guerra. Eu vim porque acho que devemos atacar a filha do Marechal. Até mesmo alguns judeus ricos a estão apoiando porque criminaliza os árabes. Ela vai nos levar de volta à barbárie. 
- A polícia que está aí colaborou com os nazis. Eles ficaram, quando o regime ruiu. A verdade é que eles devem ter usado o pulso para lavar as memórias. 
- Quero provas sobre a ligação do Marechal. Quero gravar conversas privadas da LadyFas. Odeio os autoproclamados "patriotas e republicanos antifundamentalistas".  
- Vamos trabalhar juntos. 

Afonso Junior Ferreira de Lima

domingo, abril 30, 2017

Eternidade

Ninguém pode saber 
Eternidade do céu
Rotação infinita 
Imponderável 

Tempo de deserto e chama
O abandono ocidental
Em cada casa esquecida
Em cada futuro coberto de pó

Alma para protestos
Murmúrios de janelas quebradas
Um coração gentil sob um dia chuvoso
A pálida primavera na cidade quieta

Ou então são homens na praça
Ou então são mulheres que lutam
Ou é a fome de liberdade sufocada
O caminho pelo deserto e as lembranças

A música de nossa juventude
Quando nossos lábios, quentes
Sentíamos, mas não sabíamos 
Uma cidade desaparece lentamente

As vozes poderosas silenciam as cores
O cálculo frio de juízes comprados
A memória de um tempo de misérias 
Quem dará de comer a essa criança?

Rota de sol
Imponderável 
Ninguém definiu 
Eternidade do céu


Afonso Junior Ferreira de Lima 

quinta-feira, abril 27, 2017

Ocupem Wall Street

A fila foi parada pelos guardas na sua vez de entrar. Lá dentro, 300 pessoas representando 11 milhões. 
Algumas pessoas insistiam, os guardas diziam que o telão iria transmitir. Era a última apresentação das metas da Prefeitura. Assistiram um pouco no telão. Toda a cidade em fúria. Mas que importava isso? A comunicação era pelas redes e pela mídia com a "massa". 
Foi tomar um café com um conselheiro de bairro, acabaram de se conhecer na fila.
- É chocante, será que não havia outro espaço? Tanta gente ficou de fora...
- Fizeram 39 audiências em 3 dias. 
- Eu penso no que aconteceu com a política. Os vereadores eleitos pela enxurrada de dinheiro e o prefeito, idem, parecem não se importar em nada com as demandas da sociedade. 
- O que aconteceu foi mercado financeiro. E parece que a elite percebeu que ninguém tem compreensão. A classe media virou tecnocrata, a maioria dos pobres trabalha demais ou se tornou novo rico. O discurso da TV e do jornal pode apagar qualquer alternativa, tudo é culpa da "gastança", da "farra social". 
- Tenho ouvido cada coisa... No grupo do bairro se diz que "cultura de verdade não precisa de investimento público", critica-se o "o vitimismo das minorias", ou se diz que "reduzir investimentos é essencial porque dinheiro não dá em árvores". Ouvi esse provérbio: "Em casa que não tem pão, todos gritam e ninguém tem razão".
- Enquanto isso... Paraísos fiscais. Quando se reduz muito os impostos, os governos ficam miseráveis, surgem bairros sem lei, nos quais o tráfico impera ou outra espécie de máfia.
- A impressão que eu tenho é que nossa sociedade cortou os vínculos. O soldado mata à distância como num jogo da morte. Os acionistas lidam com números, mas esses números são uma mata cortada ou uma barragem que destrói a água de cidades inteiras. A classe A, vivendo em seus palácios cercados, pode apoiar os políticos mais sorridentes na rede, sem ver o que significa o corte que aplicam nos investimentos públicos. 
- Eu estava em Nova Iorque na época do "Ocupem Wall Street". Eles falavam do "cartel dos bancos" e "senhores dos governos". "Eles colocam os seus no governo", "a dívida dos governos é aplicação". Uma jovem disse: "A nova ordem internacional imposta ao mundo foi uma conquista imperial pela abertura dos mercados de capital". As pessoas diziam na praça que cada um dos 28 grupos financeiros que mandam no mundo tem um PIB maior que o do Brasil. Nem Obama conseguiu recriar leis de regulação. O capital é global, o governo é local. Ouço uma mulher gritar para uma manifestante: "Bando de picaretas, vão procurar emprego". E a outra responde: "Eu tenho emprego, o que eu não tenho é uma vida".
Na rua, jovens negras de um coletivo saem da audiência conversando. 
Começava uma fina chuva, mas o sol ainda brilhava. Resolveram ficar mais um pouco.


Afonso Junior ferreira de Lima




segunda-feira, abril 24, 2017

Os quase miseráveis

Dan estava na parada de ônibus; estava preocupado porque tinham que conseguir um novo apartamento. A região havia ficado muito perigosa, a polícia descontrolada. Fora olhar um trailer, mas parecia muito velho. Além disso, o proprietário nunca fazia os consertos necessários. Seu irmão conseguira um novo trabalho, quem sabe podiam ficar num motel alguns dias.
Um rapaz lhe deu um panfleto.
- Queremos proteger as pessoas da globalização, ele disse. Do desemprego e da imigração massiva.
Ele lembrou da conversa que ouvira.
- Você não quer tomar uma cerveja?, perguntou ao rapaz.

Foram. Ele chamou uma amiga, também do partido. Enquanto os ouvia, sua mente divagava. 
Como chegara a isso se trabalhara a vida toda? Não tinha dinheiro para morar com dignidade. Sua mulher só pode fazer metade do tratamento dentário e andava com medo de ter outra crise. Não podia pagar por sua saúde. Acreditava que o esforço de uma pessoa era o que fazia a diferença. Só que teve de aceitar aquele emprego de merda porque quase enlouquecera quando fora demitido - os novos contratados ganhavam ainda menos. Mas... Alguém devia estar ganhando muito com os serviços pelos quais que ele pagava. Começava a pensar que cada vez comprava coisas mais baratas e ganhava menos. Que as escolas públicas estavam fabricando semianalfabetos. 
Naquele dia, voltava de uma loja, pedira folga no serviço. Fora obrigado a comprar uma cama há uma semana. A empresa não entregou uma peça do móvel. Foi reclamar. Alguém ia lhe procurar. Ele lembra que sua imobiliária não conserta o interfone há dois anos. Não tem porteiro. Mas a pessoa não irá lhe ligar, não pode ligar para avisar que está na porta. Essas pequenas humilhações e a sensação de injustiça, de ser uma vítima sem julgamento, o angustiavam. 
Saiu da loja e foi num restaurante barato, tinha 50 pratas na conta. O cara do restaurante debita duas vezes seu almoço. Ele vai no banco e tira um extrato. Não aceita quando lhe mostra o erro. É preciso aparecer o nome da loja, só no outro dia. "O senhor me fará pagar duas passagens para vir aqui reclamar?". 
Ele passa por um sinal estragado, carros não param, as pessoas não conseguem atravessar. "Estragou, consertaram, roubaram, está assim há dois meses". Passou por outro cruzamento. Desligado há dez dias. 
Outra vez abriu a porta do prédio para uma empresa terceirizada de energia, que religaria a conta de um vizinho. Os rapazes nervosos porque a parede era velha e podia haver explosão. O chefe ordena por telefone que faça, caso contrário pagarão multa. "Não se importam se o funcionário morrer", disse um deles. 
Ele começava a sentir que perdia o controle. Quando os filhos ficavam doentes ou a mulher lutava para fazer um miojo diferente, ele se sentia muito mal. Uma vez, quando uma sombra demoníaca passou em sua mente no meio da sujeira e do caos, chegou a pensar que podia livrar os filhos daquilo tudo. Foi apenas um lampejo, um momento em que perdeu a esperança. Por sorte lembrou de seu pai, bêbado e desesperado, e retornou a lucidez. Não podia ser como ele. Mas isso o havia assustado. Ninguém era assim tão forte. 

A amiga do rapaz dizia:
- Eu trabalho para pagar meus estudos. Eu dou duro, mas os estrangeiros recebem do Estado comida e dinheiro. Não quero acordar amanhã e ver que tudo mudou, que nossa cultura mudou.
Contou a conversa que ouvira. A loja faturava 400 mil por semana, ele ganhava 140 pratas em duas semanas.
- Será que não estamos desviando o foco?
Eles pagaram a conta, se despediram, e ele colocou o panfleto no lixo.

Afonso Junior Ferreira de Lima




sexta-feira, abril 21, 2017

Mundo imaginário

- É uma nova era de irracionalismo, parecida com a do fascismo...
Elas estacionaram e caminhavam em frente à Prefeitura, no viaduto, tumulto do meio-dia.
Sentaram no café do centro cultural. Ela iria dar uma palestra sobre seu novo livro.
- Sabe, como escritora, eu sempre desejei que as pessoas entrassem no meu mundo de imaginação. Que as pessoas deixassem suas convicções e mergulhassem no meu sonho. E agora... Parece que a capacidade de analisar a realidade desapareceu.
- Você que dizer... o prefeito?
- Sim, medo.
- Mas ele parece tão enérgico. Tinham muita crítica contra o outro, né?
- Ódio pode ser criado... O plano é reduzir, modificar, vender...
- Ele pode ter feito coisas boas, como na saúde...
- Não podemos ter uma autocomplacência que se deixa enganar... as coisas estão em retrocesso, os planos desmontados, parece que nas reuniões as ideias da população "não interessam".
Estaria sendo injusta? Lembrou de sua vó dizendo: "Não sou democrática com fascistas".
- Quem sabe? Nem conseguimos entender o que está acontecendo tamanha a guerra de propaganda.
A moça trouxe o café. Ela lembrou de quando era jovem e diziam que ocorriam torturas, mas ninguém sabia...
- O que me assusta é que começaram pelas campanhas de rádio e na internet esses fanatismos... Deputados e vereadores foram encurralados pelos moradores. Os meios institucionais não valem, os políticos sérios podem fazer reuniões e falar de números e os jovens vereadores cheios de ódio vão dizer que tudo é comunismo, e fazer uma transmissão ao vivo; você não vai saber a verdade... O dinheiro vai levar a sociedade para seu barco.
Ela pensou sobre toda a filosofia de que a arte tem um espaço próprio, toda linguagem é estilização, dizia um professor. Por outro lado, percebia que a mente havia se fragmentado de forma incrível, blocos de ideias opostas podiam conviver juntos.  De modo geral, ela achava que arte e política eram dois níveis distintos, a imaginação era também algo político, a subjetividade era libertar-se do poder oficial, seja a propaganda, seja o partido, mas não estava certa de nada. Um debate que já existia na Rússia de Dostoiévski. É preciso um certo idealismo para um romance acontecer? É melhor menos reflexão e ações firmes de homens capazes de alterar a realidade? De que modo podíamos nos relacionar com o mundo sem criar uma submissão ou empobrecimento?
- Eu concordo com você no sentido em que acho exagerada essa promoção pessoal. Realmente, parece que a democracia virou isso. Eu tenho aquela amiga que trabalha na Câmara. Havia muita discussão, dinheiro no orçamento para projetos. Para dizer que está fazendo, tem de negar e refazer tudo o que já foi pensado. É uma marca de grande força, o "trabalho e competência".
-  E se, apesar de tudo, ele for menos competente? E se essa gente estiver propagando uma mentira involuntariamente? Eu te juro que nada do que eu vejo parece apontar o contrário. Numa cidade tão injusta, o plano do executivo é reduzir investimentos. Até livros das bibliotecas estão sendo triturados, de humanidades, sobre ditadura... A moça que escreveu um texto denunciando o abandono do plano municipal do livro recebe visita do chefe para intimidá-la. Talvez tenhamos esquecido o quanto é importante sínteses de vida para nos guiar na escuridão.
Alguém veio pedir um autógrafo. Um mundo imaginário que é um sistema de mentiras. Ela pensava que seu mundo imaginário sempre respondeu ao anseio de terra.

Afonso Junior Ferreira de Lima





quinta-feira, abril 20, 2017

A entrevista

Ele pensava se teria imaginado tudo.

Deitado em seu quarto, tentando ler, ele ouviu um menino na janela. Tentou achá-lo, ele corria já longe. Ninguém sabia informar nada sobre os massacres. "A Paixão segundo Mateus" era seu trabalho agora. Ele morava em Marte há mais de cinco anos, tinha a impressão de que mesmo o "inimigo" não existia mais na linguagem.

- Foram duas décadas de apagamento de mentes - finalmente um homem disse.

Reeleito sete vezes. Lembra do que pensou naquela época.

W. Berren. Seria um animador de auditório ou um jornalista?

O que ele estava dizendo? Era preciso derrubar o presidente de outro país para evitar o "perigo chinês" e o "não-alinhamento que disfarça a estatização e os altos impostos"? O nosso presidente ia visitar o país. Depois ia começar testes nucleares na lua.

Entrevista o músico que faria São Mateus para a elite local.

Acabam conversando meio bêbados sob a lua.

- Eu me lembro da rádio falando dia e noite sobre os socialistas, radicais, antipatrióticos e muçulmanos. Como a democracia pode se defender da lavagem-cerebral dos bilionários?

Ele lembrou da época em que resolveu perguntar sobre Berren ao seu velho mestre, jornalista aposentado.

- Você sabe, os herdeiros de castas antigas acabam acreditando que sua casta é superior, e os outros são desumanos - ele acertava a bola robótica no nível 3 no buraco. Ninguém mais era perdedor, depois daquilo.

Observavam os drones de controle sobre suas cabeças. Seu volume estaria ajustado para captar o som de conversar no jardim? O músico continuou:

- São os políticos contratados para evitar que as coisas aconteçam e mudar as leis em favor das empresas.

Uma vez, no campo de golf, ele havia indagado:

- Mas você acha que vamos promover um massacre?

- FMI e o Banco Mundial foram expulsos. Lembra? Passaremos os nomes dos principais líderes inimigos - disse o mestre. E morreram um milhão de pessoas.

Estrelas no céu. O músico tocou Bach. Então, era isso. Passaram-se vinte anos. Ele chegava ao país e não havia impressões digitais em nada.


Afonso Junior Ferreira de Lima 
 




sexta-feira, abril 14, 2017

Ártemis

Ela não compartilhava seu ódio pela humanidade.
- Quando nos encontramos, seu pai tinha falido construindo um navio de 150 pés. Ele foi o mais digno rival de Demóstenes, mas teve de me entregar a filha virgem em troca de dinheiro. 
- O negócio é o seguinte: você está querendo que eu faça por você o mesmo que fui obrigada a fazer com você mil anos atrás. O que eu ganho com isso?
- Você queria que aquele escritor de histórias de aventura terminasse seu livro, que ele fosse publicado e que - quem sabe, virasse um filme. Eu quero que a Comissão nunca crie mais regulações. 
- Eu pensei que jamais tinha lido o manuscrito que lhe dei. Eu amei demais aquela vampira. 
- Eu preciso de alguém capaz de fazer lobby sem assustar demais o senador. Meus outros aliados preferem manchar as cortinas de sangue. 
Assim, Ártemis foi visitar o assessor do senador. 
- Trata-se de fraude, Lilian (era assim que os mortais a chamavam), e a lei, as agências, são patinhos nadando no lago para esse tipo de assassino. Ou algo parecido. 
Ela observava a espada árabe sobre a lareira. Como ele achara essa relíquia do ataque de 1098 aos bizantinos? Ela não estava lá, mas, mais grega que uma ilha, não aprendera apenas filosofia com os árabes. 
- Meu caro, blogueiros anarquistas não vão mudar o sistema. Ninguém pode. São mais de 3 mil lobistas. Nem entrou na pauta em seis meses. Os jornais falando dia e noite nisso. Aceite meu dinheiro e compre uma casa na praia. Em mais uma praia. 
- Eu sei quem vocês são. As pessoas desistiram do poder por causa de vocês. São pessoas que nada produzem. Investem em papéis. Não há governo global, ninguém segura esse monstro. 
- Aceite as coisas como são. Desmembrar os bancos que consomem a riqueza seria mudar preconceitos que nem Einstein imaginou. São predadores. Eles são imortais.
Seu amigo olhou para os prédios - cada andar levemente diverso do outro - e suspirou. 
- Eu quero escrever um livro sobre isso.
- Eu posso publicar.
Ela apagou as luzes.

Afonso Junior Ferreira de Lima




quinta-feira, abril 13, 2017

Porto Alegre antiga

Porto Alegre cidade aberta

na luz vermelha da ponta do rio

mergulho com um finlandês perdido

clarões de um céu inteiro fonte invisível

menino tropeçando nos degraus

mercado marcado explodo a bolha dourada

recebo todos os deuses com minha espada

nas árvores da Redenção

ele odeia comida indiana, ela usa turbante azul

vento na rua solitária de pedras

no sofá com Legião, a geometria judaica

hormônios florescidos na dança da metrópole

rambô toma chimarrão na grama

a sombra do aço lembra

1752 açorianos um rumo novo âncoras 

protesto contra o fluxo dos tiranos de ar

Porto Alegre a paixão descendo a lomba

onde canta o sabiá do samba

e o punk à cavalo Noll de memórias

só eu sozinho solidão simulada sussurros de mata

artista perdido refletido em vidro

na roda do dia da festa 

a água se enfeita de lua

o beijo no cruzamento do Ocidente roubado

o sol do verão me ensinou filosofia 

Buda nos campos do exército imperial e farrapos 

aqui morou o capitão érico, ecoa um riso de poeta

desenho anjos no cais e colo flores fantasiadas

minimalismo e choro naquele banco transfigurado

o alemão grita com a bandeira 

telefonemas suicidas e paixão impossível mais uma

debates e terra, chamado da floresta

jogo de branco em preto e contar moedas pra estudar

a indústria francesa nos degraus, escadas da 24 onde nasci

Porto Alegre cidade vermelha

Porto Alegre os índios do Pará

a árvore milenar da esquina, casario baixo

amor que não dura, o eterno, a separação

o meu mundo interior clarões

os mortos em cada fachada colorida e rococó

nunca adaptado, acreditado herói trovador

espelho caminhando no Beira-Rio

ninguém pode parar 

essa tempestade em que falo com o céu

olhando os aviões e a saudade calculada

coloco a máscara que diz a verdade

Porto Alegre na rua da praia

águas levam à todos os mares

louca fria sereia do inverno

Ofélia afogada, lembrança desregrada 

Porto Alegre cidade sonhadora


Afonso Junior Ferreira de Lima

terça-feira, abril 11, 2017

poesia pós-industrial

à mão as peças da modernidade quebradas
minha arte não tem propriedade definida
a metáfora está em pedaços
a poesia brasileira assim tão pouco brasileira
srta. krupp agora casa-se com o pilar nazista

meu olhar busca o corpo, as flores pintadas
eu ainda acho que temos de viver
com alguma liberdade no tempo de liberdade

sr. krupp gosta de um olhar produtivo
mas a indústria dorme, camponeses escravos
minha época materialista
crime contra a humanidade
é sair das coisas práticas 

roubo uma canção de água em rocha
populismo digital, trabalhador
sai do consumo e se torna apenas produção
o dragão Ying e a inutilidade de um dia incerto

meu olhar busca o passado, o fruto caído
eu ainda acho que temos de sonhar
com alguma verdade no tempo da certeza
das nove às cinco para ser respeitado
as fronteiras devem ser fechadas ele diz

meu olhar busca o invisível, as flores esperadas
eu ainda acho que temos de viver
com alguma suavidade no tempo do medo

comprar suas roupas
comprar sua saúde
comprar sua comida
comprar seus filmes
comprar seu colchão

havia um tempo em que se podia decidir o espaço
os direitos humanos não cabem no orçamento
a metáfora está em pedaços
os direitos do consumidor

meu olhar busca o que não sei
eu ainda acho que temos de viver um novo tempo
com alguma humanidade desconhecida

Afonso Junior Ferreira de Lima

segunda-feira, abril 10, 2017

Um novo céu

Uma vez, parecia valer a pena
acabar com o abrigo inimigo
as folhas se desfizeram em cinzas
as chamas alertaram a rebeldia

Essa gente fugia por caminhos
sem a esperança que os caminhos trazem
rumos de ruínas, futuro de fome
sobre as cabeças os aviões lançam morte

O amigo do presidente
recebeu ajuda no cozido tóxico
hoje aliados, amanhã quem sabe?
por ninguém o efeito foi ouvido

Essa gente fugia com seus filhos
sem a esperança que os caminhos trazem
rumos de ruínas, futuro encontro fatal?
sobre as cabeças os aviões lançam morte

Fósforo branco e o urânio empobrecido
Estão na luta contra o mal
por ninguém o efeito foi ouvido
Hiroshima não faria melhor

Precisamos proteger inocentes
mas se não são os nossos
pura propaganda e silêncio
sobre as cabeças os aviões no novo dia


Afonso Junior Ferreira de Lima

sábado, abril 08, 2017

140

"Vendo uma menina de 13 anos e rapaz robusto que sabe cortar cabelos e uma Nitroan -X nova, cor vermelha, capaz de voar a 120 km/h". 
140 se lembrava de quando, criança, havia sido obrigado pelo senhor a espancar seu pai, de barbas grisalhas. Como tudo isso começara?
Seu avô contava que, na fábrica onde trabalhara, foram cortados 10 mil empregos em 20 anos. Os novos contratados, trabalhavam até 14 horas por dia e não tinham nem férias, nem salários plenos. As fábricas se separaram e propuseram "redução agressiva dos custos". Agora, seu avô dizia, começara a trabalhar em cinco máquinas ao invés de duas. Sua renda caíra de 25 draimas para 13 por hora. Com o novo acordo, não receberiam nem a metade da aposentadoria que planejara. 
Mas seu pai já foi considerado servo. A dívida pública precisava ser paga. As prefeituras não podiam mais arcar com serviços de lixo e luz nos bairros e aumentar impostos acabaria com as empresas, era o que se dizia. O governo alegou que os trabalhadores andavam deixando seus postos de trabalho e uma lei aprovada pelo Congresso deu às empresas a propriedade dos funcionários, desde que obedecido um código de responsabilidade social. Os juízes, entretanto, nunca foram muito exigentes. Logo, as empresas podiam infligir castigos corporais, e com o tempo os acionistas viram os servos como uma sub-raça, um estado natural dado por Deus. 
140 não podia se livrar da lembrança de seu pai chorando depois de ter sido espancado por ele. 
O presidente falou com a nação pela rede:
"Estamos criando o dia do banqueiro. E também faremos uma guerra Deus abençoe etc."
Nesse dia, ele usou suas habilidades de servo digital para mudar a frase:
"Estão canalhas criando dia do banqueiro porque eles tem milhares de servos hipotecados. E também nós servos faremos uma guerra deus abençoe"

Afonso Junior Ferreira de Lima

domingo, abril 02, 2017

Sem nome

Eu a encontro depois de algum tempo. Não está morta.
Carrega duas sacolas.
Pergunto se está dormindo no albergue.
[Brasil tem 12,9 milhões de analfabetos]
- Vou ver se entro, albergue não é a casa da gente.Dou algumas bananas. Qual é mesmo seu nome?
[Moradores de rua estão jogados à própria sorte]
Deixei as compras na porta do prédio.
- Vai dar tudo certo, tudo de bom.
[Ação da prefeitura remove itens de moradores de rua no centro de SP]Pego as chaves e penso que podia ter dado mais. Penso nos servos da Rússia, como ainda estamos nisso?
[Casal de moradores de rua é morto a tiros na Zona Norte]
Qual é mesmo seu nome? 

Afonso Jr. Ferreira de Lima
 

terça-feira, março 28, 2017

Pipa na ocupação

dona juíza tenha piedade
um menino nessa cidade
lua procura no papel
aos sete anos de vida
mãe trabalha mas não pode pagar casa
limpando a sujeira do casarão
ele pintava anjos
crianças que o mundo esqueceu
aos sete e meio anos de vida
pombas e sangue no papel
essa gente que de medo vivia
um dia vem a bomba da polícia
crianças e a pipa voa
em cima do sujo vidro moderno
com o nariz na janela
observam a padaria em frente
pão quente dessa gente bela
aos oito anos vida
pombas e sangue
no desenho talvez
dona juíza tenha piedade
talvez o céu de estrelas
e a noite fria

Afonso Junior Ferreira Lima

quarta-feira, março 22, 2017

descoberta do mundo

meu poema não é sobre nada
é sobre a forma que eu procuro
para ver o que está oculto
para aventuras de ligação
precisei dos livros
é neles que busco o que não acho
conto de viajantes, mascates e ladrões
humilhados pelo ódio ao abstrato
aos poucos é que vejo onde me acho
aos poucos é que sei do que somos feitos
precisei da dúvida
para arrancar das veias a percepção
tudo já montado, tudo preparado
e é mudando as formas que eu procuro
o que as coisas são
debaixo do véu, da inundação
oceano da dominação
para além da automática visão
busco o que não acho


Afonso Junior Ferreira de Lima


domingo, março 19, 2017

Escolhas

Andava pelo aeroporto e parou na livraria. "Economia Socialista de Mercado". Tinha uma semana para ler aquilo. Timor, Filipinas e Birmânia vinham em seguida. Vivia cada semana de uma vez.
A moça que o atendeu, de pele muito branca e olhos verdes orientais, lhe pareceu familiar. Abriu seu 102 e tentou discretamente ver o código dela no crachá. Eles tinham feito amor, estava na sua lista.
Ele realmente tinha a impressão de ter passado por ali antes. Aproveitou para conferir o clima lá fora.

Andava pelo aeroporto e parou no café.
- Frapê de café cubano, por favor - ele abriu a mochila e achou "Economia Socialista de Mercado". Mais um livro que não conseguira ler. Abriu seu 102 e procurou quantos frapês de café cubano havia tomado naquele mês. Talvez fosse a hora de tentar o de morango, estimular o cérebro. Foi conferir o clima lá fora.
Uma moça de pele muito branca e olhos verdes passou e sentou na mesa ao lado. Ele sentiu alguma coisa. Ela pediu um frapê de morango e abriu seu tog. Era um 103, droga.
Tentou discretamente ver o código dela no crachá. Não conseguiu.

Tinha uma semana para ler aquilo. "Economia Socialista de Mercado". O aeroporto da Birmânia parecia familiar. Resolveu procurar na sua lista. Seu 102 estava esquisito. Estava difícil dar sentido àquilo tudo.

A verdade é que, depois que criaram o sistema de armazenamento externo, as pessoas pararam com as brigas inúteis, discussões filosóficas e fantasias sem sentido. Mas era um pouco complicado controlar o tempo. Algumas vezes fantasiava estar desembarcando no futuro ou no passado. Observar seu número na coluna onde suas cinzas seriam armazenadas depois de descontinuado. E se cada segunda-feira estivesse mesmo num lugar-tempo? Mas podia ter lido isso em algum lugar. Por sorte, tinha um dos melhores equipamentos de reanimação diária.

A moça que o atendeu lhe pareceu familiar. Enquanto esperava na fila, abriu o aplicativo para conferir o clima. Ele realmente tinha a impressão de ter passado por ali antes. Alguma coisa estava muito errada. Vivia cada semana de uma vez. Parou no café e pediu um frapê de morango.

Afonso Junior Ferreira de Lima