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segunda-feira, abril 24, 2017

Os quase miseráveis

Dan estava na parada de ônibus; estava preocupado porque tinham que conseguir um novo apartamento. A região havia ficado muito perigosa, a polícia descontrolada. Fora olhar um trailer, mas parecia muito velho. Além disso, o proprietário nunca fazia os consertos necessários. Seu irmão conseguira um novo trabalho, quem sabe podiam ficar num motel alguns dias.
Um rapaz lhe deu um panfleto.
- Queremos proteger as pessoas da globalização, ele disse. Do desemprego e da imigração massiva.
Ele lembrou da conversa que ouvira.
- Você não quer tomar uma cerveja?, perguntou ao rapaz.

Foram. Ele chamou uma amiga, também do partido. Enquanto os ouvia, sua mente divagava. 
Como chegara a isso se trabalhara a vida toda? Não tinha dinheiro para morar com dignidade. Sua mulher só pode fazer metade do tratamento dentário e andava com medo de ter outra crise. Não podia pagar por sua saúde. Acreditava que o esforço de uma pessoa era o que fazia a diferença. Só que teve de aceitar aquele emprego de merda porque quase enlouquecera quando fora demitido - os novos contratados ganhavam ainda menos. Mas... Alguém devia estar ganhando muito com os serviços pelos quais que ele pagava. Começava a pensar que cada vez comprava coisas mais baratas e ganhava menos. Que as escolas públicas estavam fabricando semianalfabetos. 
Naquele dia, voltava de uma loja, pedira folga no serviço. Fora obrigado a comprar uma cama há uma semana. A empresa não entregou uma peça do móvel. Foi reclamar. Alguém ia lhe procurar. Ele lembra que sua imobiliária não conserta o interfone há dois anos. Não tem porteiro. Mas a pessoa não irá lhe ligar, não pode ligar para avisar que está na porta. Essas pequenas humilhações e a sensação de injustiça, de ser uma vítima sem julgamento, o angustiavam. 
Saiu da loja e foi num restaurante barato, tinha 50 pratas na conta. O cara do restaurante debita duas vezes seu almoço. Ele vai no banco e tira um extrato. Não aceita quando lhe mostra o erro. É preciso aparecer o nome da loja, só no outro dia. "O senhor me fará pagar duas passagens para vir aqui reclamar?". 
Ele passa por um sinal estragado, carros não param, as pessoas não conseguem atravessar. "Estragou, consertaram, roubaram, está assim há dois meses". Passou por outro cruzamento. Desligado há dez dias. 
Outra vez abriu a porta do prédio para uma empresa terceirizada de energia, que religaria a conta de um vizinho. Os rapazes nervosos porque a parede era velha e podia haver explosão. O chefe ordena por telefone que faça, caso contrário pagarão multa. "Não se importam se o funcionário morrer", disse um deles. 
Ele começava a sentir que perdia o controle. Quando os filhos ficavam doentes ou a mulher lutava para fazer um miojo diferente, ele se sentia muito mal. Uma vez, quando uma sombra demoníaca passou em sua mente no meio da sujeira e do caos, chegou a pensar que podia livrar os filhos daquilo tudo. Foi apenas um lampejo, um momento em que perdeu a esperança. Por sorte lembrou de seu pai, bêbado e desesperado, e retornou a lucidez. Não podia ser como ele. Mas isso o havia assustado. Ninguém era assim tão forte. 

A amiga do rapaz dizia:
- Eu trabalho para pagar meus estudos. Eu dou duro, mas os estrangeiros recebem do Estado comida e dinheiro. Não quero acordar amanhã e ver que tudo mudou, que nossa cultura mudou.
Contou a conversa que ouvira. A loja faturava 400 mil por semana, ele ganhava 140 pratas em duas semanas.
- Será que não estamos desviando o foco?
Eles pagaram a conta, se despediram, e ele colocou o panfleto no lixo.

Afonso Junior Ferreira de Lima




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