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quarta-feira, junho 28, 2017

A Operação

agora ele entendia, ligação do hotel, apavorado, ele desapareceu, meu músico desapareceu, liga pro embaixador, não! nada! é droga, cocaína, ele é jornalista não pode se meter com isso, mas tenório não é, por que eu falo isso, montevidéu, pasta na pista, casaco no braço, tocam no ombro, algemado, vendado, agora na beira do rio, as balas passam ao lado, amanhã será o seu dia, morto, é como morto, e o rapaz, agora sabia, desaparecido, legalmente saído do país, jornais denunciam, carta ao Papa, o presidente novo, prisioneiro do ano, de novo o rio, de novo atiram, hoje lembra, falam ao telefone, despacio, é uma rede, era polícia com polícia, caça, juntando arquivos, então tinha sido sequestrado por engano, revelaria o esquema, hoje sabe, tivera de desaparecer, procura, anos antes, por que eu falo isso, chile, vigiar, secretário, o escritório para exilados, levados ao estádio, ele entendia, assiste ao julgamento, revê o homem vendado, na beira do rio, as balas agora 

Afonso Junior Ferreira de Lima

quinta-feira, junho 22, 2017

Inocente

É preciso, os personagens são nossa vida, a voz monstruosa, diálogos na praça, eles ficam, para ser no mundo, Nós vamos nos casar agora, ele escreveu contando o que ela disse, Mas dois dias depois ela andava sem rumo por uma ponte e foi recolhida por policiais, ele diz, Eu cuidei dela em minha casa, e agora, tento fugir aos sistemas, tendo olhar para isso, tento chegar dentro, Mas ela voltava sempre àquele assunto, A filha já era grande, noiva, Ela parecia ter voltado àqueles dias, andava sem rumo, Senhor policial, ela disse, e parte de mim diz que é impossível, eu a vejo sentada próximo a uma janela, sem outros, ela não quer, como descrever a prece que fez, o úmido líquido na camiseta, a criança em seus braços, ele escreveu, Eu sentia o grande mecanismo, ausência, a fala do juiz dizendo, Inocente. 

Afonso Junior Ferreira de Lima

segunda-feira, junho 19, 2017

A ideologia do teatro colaborativo

O conto sobre o qual quero refletir é um dos mais conhecidos do autor. Ele encena a tentativa de um diretor teatral de levar à cabo uma peça baseando-se apenas no texto narrativo do autor, sem a moldura de um dramaturgo. O título - A ideologia do teatro colaborativo - já remete diretamente à polêmica. Um narrador não identificado começa a contar sobre uma trupe de atores que parece improvisar infinitamente sobre o livro lido e o diretor em infindável doutrinação sobre a importância de se livrar do texto e se dar voz aos múltiplos criadores, mas no fim, quer fazer prevalecer sua voz. Os atores também debatem interminavelmente suas próprias interpretações do tema. Por fim, um jovem se rebela e propõe que é preciso generosidade para se colocar à serviço de uma ideia, que por algum motivo parece atingir um debate público ou forma poética de valor; acusa o diretor de criar facções. A ideologia do teatro colaborativo, entretanto, acaba com o ator jovem encontrando com um ator mais velho no final de uma peça, e os dois conversam sobre o incidente (quando percebemos se tratar do início do conto). A crítica que o ator veterano faz ao projeto diz respeito à supervalorização da escrita, "como se todo ator tivesse de escrever, ou se 'apenas atuar' fosse uma arte menor". A arte é apenas uma forma de poder, responde o jovem. Eu quero convidá-los a entrar nesse buraco mágico lendo um trecho da obra. Vamos, à seguir ouvir sua versão do drama.

Afonso Junior Ferreira de Lima

poema ao eu lírico

por sorte minha vida 
foi completamente inútil
(e nem completa)
por sorte não me preocupei de mais
com coisas curtas e extremas
devo tudo ao meu eu lírico
a ele devo minha angústia, meu choro
o beijo sobre a grama no alto do abismo
e - realmente - meu riso de flor forjada
posso ser esse vazio de máscaras
colhendo as dores da humanidade 
a esmagada
por ele fui todos e nada

agora sabemos aqui tem uma plateia
que é o pensar e como 
que cada isso é o que é e nada expressa
todavia via - mundo chama 
pele de peixe vibrar do mineral vivo
analítica das chamas tremores
vamos ficcionalizar
(a verdade de uma realidade é a lágrima
repetitiva animalidade, sabedoria do pão)

a curta vida a inútil dobra
desaparecer e desmoronar 
pensa no mundo, pensa na 
essência humana na indústria
meu sujeito lírico faz deus como objeto
solidão de rochedo ou juízo dos sentidos
portal do sonho sem esperar 
e revela o abismo fundamental 
união desunida impessoal amor
do binário tudo que se fixou 
o para além da realidade 

Afonso Junior Ferreira de Lima



sábado, junho 17, 2017

Acalanto

você já come mamão
já bate seu tambor
você vai aprender
como se diz galinha
(e espero mesmo que
veja uma galinha)
você vai aprender
a comer com garfo
e nós babando com isso
crescer é saber sempre menos
você, quero ver o que traz
quero ver o que me ensina

você vai aprender de tudo
pense sempre
e despense
nada está definido
seus irmãos
estão no mesmo barco
decifre o momento torto
você
não tem governo
e nunca terá
abrir espaço é preciso

sofrer talvez e o que te digo
aprender é o melhor
você já tem 7 meses
pode dobrar seu cobertor
estamos no mesmo barco
olhar com solidariedade
tudo que cresce e dá flor

não pense que o mundo é seu
eu sei porque já pensei
bicho metido
não é convidado conformista
pelo rio é levado
a lei que é festa sem fim
fica maior que o mistério
que é ter outro
junto de mim
acumular amigos é melhor

abrir espaço é preciso
você, quero ver o que traz
quero ver o que me ensina

só tem essa bolinha azul
as nuvens você vai pintar
eu queria te ensinar
a amar, a amar

Afonso Junior Ferreira de Lima






quarta-feira, junho 14, 2017

sobre as nuvens

eu não deveria me mover, chuva, estéril murcho campo, a multidão gira, as sombras que suspiram, como a produção, sapatos ensopados, tokyo vertigem, produção da classe, o sangue na imprensa, milhares de desempregados, call center, ele que caminha pela terra, um príncipe dos três montes, não assinou, não quer pintar por dinheiro, meu amigo, mas estás morto, a villa no fim da cidade, volte para mim, ele diz, já não trabalha, você me desalojou, eu brotava no início da primavera, purgatório, seu saber não de compartilhar, seu poder assentado sobre livros, seu medo, zona contaminada, você me entrevista e eu não devo ser bem-vindo, o que é importante e o que é inferior, palavras mortas, ele os homens sujos que despejam dejetos na rua, roubam o ouro, Lorde bêbado comanda o ataque, vira comandante, o vício do comércio dá mais, eles colonizam seu próprio povo, senhores da morte, uma tempestade Lucy, escombros de casas, óleo vende mais, rosto vermelho, veste o terno surrado, atravessa o Sena, ela foi embora, mas eu sai, eu entrei no mar, eu me purifiquei no fogo e no ar, eu sai da prisão permanente, vigilância permanente, eu toquei as coisas sagradas, eu coisa, são as árvores que falam comigo, eu sofri e vivenciei, eu sei, a aurora, um som e as flores, a moça jovem com ramos verdes, o barco segue, seu deus é a medida de todas as coisas, conselho noturno, se os astros são perfeitos a alma está acima do corpo, órgão de vigilância supremo, voltar à razão, num mundo de escravos, a fala como ordem, radicalização dos soldados, desumanização do tempo, controlar a organização do mundo, não assinou, por Lucy, o custo da vida, paga a conta do bar, fecha a porta, duas almofadas no chão, fecharam todas as galerias de Paris, eu sento sobre a pedra e choro, eu sou acusado, mão-de-obra barata nos jardins do governador, caminhamos pela noite, nossos sapatos velhos, grito das gaivotas anunciando rio podre à vista, amontoado de resíduos, templos, altares, procissões, eu não esperado, o que brota, não deveria me mover, você me fez vagar pela terra sem água, a raça que não deve brotar, cantar de água novo, leitor hipócrita, a voz controla, o deus das fronteiras, a deusa dos casamentos, o deus dos guerreiros, o deus dos embaixadores, sonhador e seu eu sonhado, eu toco a música, cadáver florido, um crânio de demônios, a procissão dança, zombaria e risada, o santuário da nascente, criança da terra, vivo, o inverno acaba, meu cálice, mas estás morto, assim foram feitos vossos pais, lamentos rítmicos, no escurecer das sombras, fade out, cidade fantasma, o ciclo todo, começa a germinar? ele continua

Afonso Junior ferreira de Lima

terça-feira, junho 13, 2017

Labirinto

Quem é? Qual cenário? Qual aventura?
O menino rico brinca de vencer o tirano.
As poções, feitiço, cidadela, mina.
Ou floresta e labirinto.
Agora estuda, passa, mérito seu.
Agora diplomado, agora na vitrine, promotor.
Toma decisões.
Entrar.
Falar.
Atacar
Cada uma vai para onde seu destino manda.
Vira celebridade, salva o país.
Acha na porta do carro um poema:

 - sr prefeito dinheiro
como se fabrica a miséria
quando a gente vira gente
no sei conceito viver
não é mérito, é de direito
explode queima deposita vira pó
é a verdade bruta
os pés negros nus do jovem na chuva
o pão paga a nação
a verdade sobre o estado
é o homem sujo carregando papelão

Afonso Junior Ferreira de Lima


sábado, junho 10, 2017

A nova casa

Ela abraça seu filho. Ela é fotografada na grama com seu filho. Ela caminha na praia com seu amor.
O pai abraça a criança. O pai veste pulôver e ouvem aquela música japonesa.

Chegados do interior são descarregados em favelas da metrópole.

Ela pensa no seu pai, a cidade toda está demolida como se fosse vítima de uma catástrofe.

Precisariam remover as tábuas largas de ipê, que cobriam o piso da sala, tão envergadas.

Agora uma xícara nova. Agora o leite fresco. Agora a criança sorri.
Um desavisado passa pela cozinha e é pego.

Agora, escreve sobre os mortos, mas todos estão mortos. Imagina um terrorista que descobre que está morto.

Quatro aparelhos, o pai disse. Caixa laqueada de branco, nas salas de estar, de jantar, na varanda e no canto de leitura.

A luz já estava pronta. havia o perigo de uma revolta. Mas o prefeito prometera usar milícias em caso de distúrbios.

O que ela mais temia era o fim da esperança. De repente, ninguém tinha um emprego.

Agora, escreve sobre como os mortos continuam vivendo com seus implantes eletrônicos.  O terrorista acha que não era preciso ter sido salvo. Não seria salvo se a prisão não quisesse mostrar o perigo dos pobres das favelas.

A catástrofe. Lembrava de seu pai cantando com os outros trabalhadores. Ele tinha conquistado coisas.

Agora, o bebê na câmera. Agora, seu marido acordava. Agora, um banho delicioso.
A equipe demitira o desavisado.

Cada etnia e fé tinha seu bairro. A guerra era constante.

Agora, escreve sobre o terrorista que é libertado e descobre que se cair de um abismo será reavivado porque ele é uma peça como qualquer outra. Ele lembra a todos sobre o evento inicial, o dia em que os policiais tiveram de atirar nos sindicalistas e as empresas fugiram.

As flores amarelas na cozinha com toques de azul. O armário mineiro recuperado como cristaleira com ganchos para xícaras. O novo patchwork de Madagascar no pufe da biblioteca. O conjunto de chá Leeang e as lanternas com vitrais deixarão a sala mais aconchegante. Outra ficção.

Ela olha pela janela, um dia cinzento: "São massas de trabalhadores mal pagos e subempregados e sem educação".

Caso de distúrbios, as milícias são chamadas.

Afonso Junior Ferreira de Lima


quarta-feira, junho 07, 2017

l'heure de la nuit

on dirait qu'il existe quelque chose en dehors de la bibliothèque. amour - séparation - amour -séparation : pas nécessairement dans cet ordre lá. il existe quelque chose qui écoute - il éxiste cette voix de dehors - ceci est un livre de fiction - l'endroit est sans fenêtres. Il faut connaître ce passé. Je disais - il faut que nous donnons une chance à l'humanité, à toi. Confrontations, le son des helicoptères , des coups ont été tirés. Les conquêtes ont été moderées., mais même pas ça on veux accepter, C'est le cas dans la bibliothèque. Où les récits A,B, C ou plus conversent. Dans la nuit obscure la lune. Une fenêtre. Il ne sera pas faîte de synthèse. Le moi est entrainé par le temps. Les reflets. Il ne sera pas possible d' affirmer que nous pouvons affirmer une realité. Je pensais qu'il fallait que je grandisse et accepter les gens comme ils sont. Un peu plus de sensibilité ce n'était pas de sensibilité suffisante. il marche par le blé, roux et beau, il ouvre le livre, le soleil. La brutalité en dehors de la bibliothèque. On chuchote. Il a été emprisonné, emprisonné injustement, la fumée, l'armée est dans la rue. Sans fenêtres. La lune. Un éclair c'est le temps de l'identité qui unit, ne peut pas être integré. Il existe des gens que ne peuvent rien voir en plus du moi. C'est une question epistémologique, pas morale. Le flux de l'ésprit comme personnage. Et, de quelque façon, les sons tous, les sons dansants, ont besoin d'arriver à un travail de conclusion de semestre. Il laisse tomber le corps, déborde, une ombre passe devant le soleil, il a changé son ton de voix. L fable de quelqu'un en train de fabuler, je suis dans ça, après je me sépare. Jamais on dira , oui, c'était moi, je me rappele. Si tu veux demander pour quoi ils ne voient pas aucune autre chose en plus d'eux mêmes, ils demanderaient : quelle autre chose. Qui c'est ce moi dans l'ombre, dans l'obscurité. Imaginer, l'aventure. .Voix, auditeur et celui qui imagine à table. Première personne nié. Les déchets dans les rues, des flammes dans la rue. Le président parle, personne ne croit. Ceci est en train de vraiment arriver. la loi est privée. Veux la biblithèque. seulement la bibliothèque donne realité à la perception. Regarde l'homme passé avec les yeux bleus, obcure, la lune. les feuilles vertes, l'éclat de la nouvelle saison. Seul, il se divise, cherche de la compagnie, chuchotent ensemble les enfants faits dans l'obscurité. C'était trés beau, ce vin là et la voix qui faisait des échos, la serviette blanche, les fleurs. C'était comme ça que nous sommes retournés à croire. En vain. Bleus, sans vouloir des rélations. Sens le frère, l'autre, mystérieux, entre les pierres de la chambre sphérique. Soolitude amie. A besoin. Je croyais être en train d'interagir avec quelqu'un. Réalité inventée. Dans la tête. L'enfant seul dans le bois, chuchotent ensemble dans l'obscurité. Marche par les murs de heritées verités signifièes. La nouvelle, personne ne croit. Il n'y a pas d'importance, l'imagination qui aide à illuminer. Nouvel avertissement. Fermée la Bibliothèque la nuit. Je croyais que tu étais quelque chose presque integrée et pas des impulsions mal ajustées et morceaux cassés. À la fenêtre, dans une nuit obscure, à table, impulsion incontrolable, vie inventée, images d'une vie, le poème passé, il le faut. Afonso Junior Ferreira de Lima Traduction Etienne Blanchard

A hora da noite

Parece que existe algo fora da Biblioteca.

amor - separação - amor - separação: não necessariamente nessa ordem.

Existe alguma coisa que ouve - existe essa voz de fora - isso é um livro de ficção - o lugar é sem janelas. É preciso saber desse passado.

Eu dizia - temos de dar uma chance à humanidade, a você.

Confrontos, o som dos helicópteros, tiros foram disparados. As conquistas foram moderadas, mas nem isso se quer aceitar. Caso na Biblioteca. Onde as narrativas A, B e C ou mais conversam.

Na noite escura a lua. Uma janela. Não será feita uma síntese. O eu é arrastado pelo tempo. Os reflexos. Não será possível afirmar que podemos afirmar uma realidade.

Eu achava que eu tinha de crescer e aceitar as pessoas como são.
Um pouco mais de sensibilidade não é sensibilidade o bastante.

ele anda pelo trigo, ruivo e belo, ele abre o livro, o sol.

A brutalidade fora da Biblioteca. Sussurram. Ele foi preso, preso injustamente, a fumaça, o exército está na rua.

Sem janelas. A lua. Um relâmpago é o tempo da identidade que une, não pode ser integrado.

Existem pessoas que não podem ver nada além do eu.
É uma questão epistemológica, não moral.

O fluxo da mente como personagem. E, de alguma forma, os sons todos, os sons dançantes, precisam chegar a um trabalho de fim de semestre.

ele deixa cair o copo, derrama, uma sombra passa em frente ao sol, ele mudou seu tom de voz.

A fábula de alguém fabulando, estou nisso, depois me separo. Nunca dirá, sim, era eu, eu me lembro.

Se você perguntar por que eles não vêem nenhuma outra coisa além de si mesmos, eles perguntariam: que outra coisa?

Quem é esse eu na sombra, no escuro. Imaginar, a aventura. Voz, ouvinte e imaginador na mesa. Primeira pessoa negado.

O lixo nas ruas, chamas na rua. O presidente fala, ninguém acredita. Isso está mesmo acontecendo. A lei é privada. Quer a Biblioteca. Só a Biblioteca traz realidade à percepção.

Olha o homem passado de olhos azuis, escuro, a lua.

as folhas verdes, o brilho da nova estação. 

Sozinho, ele se divide, busca companhia, sussurram juntas as crianças feitas no escuro.

Foi lindo, aquele vinho e a voz ecoando, a toalha branca, as flores. Foi assim que voltamos a acreditar. Em vão. 

Azuis, sem querer relações. Sente o irmão, o outro, misterioso, entre as pedras da câmara esférica. Solidão amiga. Precisa.

Eu acreditava estar interagindo com alguém. Realidade inventada. 

Dentro da cabeça. A criança sozinha no bosque, sussurram juntas no escuro.

Caminha pelas paredes de herdadas verdades significadas. A notícia, ninguém acredita. Não vem ao caso, a imaginação que ajuda a iluminar. Novo aviso. Fechada a Biblioteca à noite.

Eu acreditava que você era alguma coisa quase integrada e não impulsos mal ajambrados e pedaços partidos. 

À janela, numa noite escura, na mesa, impulso incontrolável, vida inventada, imagens de uma vida, o poema passado, é preciso.

Afonso Junior Ferreira de Lima

terça-feira, junho 06, 2017

Real

o efeito do real, acumulação de detalhes da vida diária, mas quem sou eu?, quem sou eu para falar?, depois que a história foi chutada, depois que a subjetividade foi trazida, depois da máquina-moderna, do poder moderno, da produção de kafka, mas aí está você, você com suas pernas sujas, seu cobertor molhado, pedindo um dinheiro, feijão e arroz, carne, e eu tenho de falar de você, por você, a forma como a menina lhe deixou e você veio, a cidade lhe rejeitou, tenho que contar que um banho custa caro, que anteontem tomaste, e eu tenho algo a fazer, eu não posso ouvir, eu te dou algumas moedas, comida e volto ao meu texto, mas agora foi fechado o hotel que custava 5, só tem de 10, drogas lá dentro, mas você não, nunca, e eu quero lhe dar uma marmita, medo da polícia, mas você não gosta de lasanha, arroz enche mais, e você volta pra a entrada do metrô, e teve de dormir na rua na inundação, e eu volto com 10, e amanhã não sei se estará, e eu tenho de seguir, a mim coube, do tênis que o trabalhador precisa, do sabão que o trabalhador precisa, daquele que nem é trabalhador e precisa, subversão, o efeito do real, e eu tenho de escrever que é quem sou 

Afonso Junior Ferreira de Lima

segunda-feira, junho 05, 2017

Navegar

Aqui eu sigo, entro, correnteza, o azul ou verde somente na praia, porque na vida, no dia, o mar não tem cor, o ciclo das coisas, arrastado, que o tempo leva, ontem tumulto, na rua esperando, não vão nos receber, não vão nos ouvir, agora o silêncio, palavra congelada, eu me lembro, eu mergulho, jovem assustado, o deserto, foram na infância os monstros, as deusas e a morte para desunir o pacto, e por fora branco, aquele tio tão gordo, chegando eu, caçador feliz, existe algo além da muralha, uma Noite, os palhaços, a ilha, ele caminha pela lama com suas botas novas, luvas de pelica, de braços dados com um dia de verão, comendo peixe e tomando vinho e minha vida de jovem oprimido eu via de cima dessa torre, cantamos nas tavernas, juntamos os cacos, o eco nos ossos, as rotas bloqueadas e a procura de um caminho, a força estrangeira, traição, eu sigo, as capas vermelhas, eu ganho fama com o peso, eu sou da frota de novos juncos para o Relatório Geral das terras bárbaras, o porão, aquele homem sobre Sodoma, eu precisava dele, as multidões nas feiras, em promoção, levo na arca os loucos todos, esse livro da Idade Média extra-ordianariamente diverso, beijo da mãe na testa, vício instintivo, encontro numa plataforma de estação rodoviária, que realiza o homem, natureza informável, e disse o coronel - percebe-se que o senhor não conhece os filhos de Judas, essa raça só faz trair há séculos, a névoa sobre a rota, e já uma estrela, é preciso, eu lembro, eu vou, o desconhecido, fantasmas eu vi em rima, neve, oficial de cavalaria, aquilo que salta, meu deus!, o que fui fazer!, de bruços, paro antes de ver uma mulher e um trem, pesca na estante, companhia necessária, são muitos ruídos, autorizando o comércio e as conquistas dos pagãos, aceito a frase, imaginação ligeira, maior que tudo, o amor frio, o retrato de corpo inteiro dele, toda a minha arte, arte inútil, a irradiação da própria beleza, o elogio da loucura e a música do prazer na colina, os desejos sufocados que envenenam o espírito, o sol e as flores, que divertimento!, que mergulho!, o beijo de uma onda e os sinos, a vida é mais, terra não vista, costurando textos, reverência crítica, resistir ao mundo-aí, o tempo muda, a tempestade, na terra estranha, homens suspeitam, recolho os guizos, minha chama é guia, trocar de pele, inveja, sangue e luta, a sociedade é mal organizada, a queda e os invasores, e sempre a viagem, farrapos on the road, barco enviado, por Preste João, a gaivota solitária, chego ao Índico, à beira do rio, marginal fétida, nas noites sem lua, tremor e eclipse, agora a navalha, o lodo escuro, o machado afiado, incêndio do livro, a língua crespa, algo avança, eu conto, o texto risco, me livro, eu vivo, o ato todo, o mar na tarde se vai apagando, recomeça, aqui eu sigo.

Afonso Junior ferreira de Lima

domingo, junho 04, 2017

O amanhã

chega disso
o moinho tem que parar
muitos solitários
calçadas levam o país
é a luz azul da aurora
o novo não desiste
é geração e geração sufocada
é plano projeto notícia o punho
não aceito não respeito
a planilha sofrimento fabricação do fracasso
não aceito seus
cálculos brutais cortesia cruel
lixo lâmpada quebrada memória de menino morto
na quebrada
chega de sair quatro da manhã
resistir e chegar à uma
não aceito
o povo em movimento dança de fora
meu samba tem história
o tempo é luxo acúmulo
pátria sem nome
velocidade dentro do ferro
eu centauro dançarino
reconstruído voltando ao vivo
cada ovo novo no seu quadrado porta fechada
todos os homens velhos me embalaram no colo
o moinho vai parar tem um barulho
a máquina pele como destino
minhas palavras-flecha contra o desamor
dois braços dois olhos crescendo no chão
esperança nada e não se sabe
fluxo abre braços não dominados
eu respeito aqueles que tijolo com tijolo sua vida
não aceito chega disso que não vai
respeito cimento dentro depois da queda
parede favelado metalúrgico preto parado
abortado depois de grande e poeta ainda
mas todo labirinto tem de ter uma saída
é desenho de mão o tempo quebra
meu samba tem história
não é de agora
o tempo é luxo
chega disso

Afonso Junior Ferreira de Lima