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segunda-feira, agosto 28, 2017

Romance policial

Eu o procurei porque era um ex-escritor de romances policiais.
Eu havia sido estuprada. Dentro da minha casa. Eu oferecera um jantar para dez amigos e ficara bêbada o bastante para parar num divã semi-lúcida.
Ele era um advogado aposentado agora, convidou-me para jantar. Perguntou muito sobre cada um deles.
- Intelectuais. Todos - disse depois de um gole de vinho.
Ele parecia bastante desanimado.
Por fim, me disse que eu fosse pra casa, tomasse um banho e procurasse uma delegacia.
- Não vou pegar o caso.
- Mas houve um crime.
- É, existe um crime. O mundo todo é um crime.
- Eu quero uma investigação.
- Mas eu acho que esse não é o verdadeiro enigma - ele disse, enrolando o macarrão.
- O que quer dizer? - Eu estava irritada.
- Eu acho que você tem uma questão escondida que ainda não descobriu.
Eu tentei me concentrar. Era perfeitamente lógico aquilo tudo. Precisei ir no banheiro.
*
Como ele podia saber?, pensava enquanto passava o batom escuro. Toda sua vida quisera reescrever as narrativas, apagar as descrições que fizeram sobre ela. O mundo era mais complicado. Ela nunca se sentira de fato acomodada com a identidade que lhe haviam dado.
Retornou.
Ele colocou mais vinho na sua taça.
- E sobre a investigação? - ela tentava ser fria.
- Mas eu estou investigando. Onde está? Existe em algum lugar espaço para algo não previsto. Você gosta de ficção científica?, ele perguntou.
- Eu gosto. Um francês... Como é o nome? É sobre dois viajantes espaciais, em missão à um planeta distante são engolidos por uma máquina marinha.
- E seu amigos. O que acham disso?
- Eles sempre foram um tanto esnobes. Acho que sou o tipo introvertido.
- Como?
- Jung. O tipo que pensa mais na conexão de ideias do que nos fatos objetivos. E como criar condições objetivas para que subjetividades assim emerjam?
- Seus amigos querem lhe matar então.
Ela derruba a taça.
- Quem foi? Quem?
- Foram os criadores. Os gestores do congelamento. Eles criaram o processo de elucidação do mistério. Eles querem transformar você em detetive, na busca pela identidade. Fatal.
- Mas... o que desapareceu?
- Eu busco também. O real?
Ele pediu um táxi para ela.
Se despediram.
- Quando for à delegacia, fale sobre seu amigo André Fais.

Afonso Jr. Lima




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